O impacto da epigenética nas maldições familiares

O que é uma maldição familiar?

Primeiro devemos compreender que uma maldição familiar pode diferir muito de uma tradição para outra, assim como de perspectivas como a teologia, a antropologia e até mesmo a genética. Em algumas tradições, o entendimento não aponta para uma dívida deixada por um antepassado, mas para um desequilíbrio nas relações com a ancestralidade.

De forma geral, uma maldição familiar produz impactos negativos na vida do indivíduo. A maneira como essa influência se manifesta depende de diversos fatores e pode ocorrer nos campos espiritual, comportamental ou até mesmo biológico, como acontece em algumas doenças hereditárias.

Existem padrões negativos que se repetem biologicamente e influenciam diretamente nosso comportamento. Muitas vezes, eles contribuem para o surgimento de dificuldades psíquicas e emocionais que acreditamos serem exclusivamente nossas, quando, na realidade, podem refletir experiências herdadas de nossos antepassados.

É nesse contexto que a epigenética surge como uma área da genética capaz de explicar como muitos desses padrões comportamentais podem ser transmitidos entre gerações. Compreender esses mecanismos também pode nos ajudar a atuar de maneira mais consciente para interromper esses ciclos e, simbolicamente, romper uma “maldição familiar”.

Mas afinal, o que é epigenética?

A epigenética estuda como o ambiente e o comportamento influenciam a atividade dos genes. Embora o DNA permaneça o mesmo, determinados genes podem ser ativados ou desativados ao longo da vida em resposta a fatores como alimentação, estresse, emoções e condições ambientais.

Em vez de modificar o código genético, a epigenética procura compreender como essas experiências regulam a expressão dos genes. Em outras palavras, ela investiga como fatores externos podem influenciar o funcionamento do organismo sem alterar a sequência do DNA.

O Inverno da fome holandês

Um dos exemplos mais conhecidos da epigenética ocorreu nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Durante a ocupação nazista, a Holanda enfrentou uma grave escassez de alimentos, levando milhares de pessoas à morte por fome. Muitas mulheres grávidas sobreviveram consumindo apenas cerca de 400 calorias por dia.

Décadas mais tarde, cientistas passaram a estudar os filhos dessas mulheres. Eles observaram que essas pessoas apresentavam maior risco de déficits cognitivos e sinais de envelhecimento precoce ao chegarem à meia-idade.

As pesquisas também mostraram que os netos dessas gestantes apresentavam maior propensão ao sobrepeso e à obesidade, sugerindo que os efeitos da desnutrição durante a gravidez podem repercutir por mais de uma geração.

Os estudos sugerem que a escassez de alimentos durante a gestação provocou alterações na forma como determinados genes passaram a funcionar, sem modificar o DNA em si. É como se as células registrassem uma espécie de “memória biológica” das condições vividas naquele período.

Quando esses efeitos são transmitidos diretamente dos pais para os filhos, esse processo recebe o nome de herança intergeracional. Quando as alterações permanecem presentes em netos, bisnetos e outras gerações, fala-se em herança transgeracional.

Essas descobertas mostram que os genes, sozinhos, não determinam quem somos. O ambiente em que vivemos também influencia seu funcionamento por meio de mecanismos epigenéticos, afetando nosso desenvolvimento, comportamento e até mesmo o risco de desenvolver determinadas doenças.

Podemos imaginar o DNA como um grande livro de instruções. A epigenética não altera o conteúdo desse livro, mas decide quais páginas serão abertas e lidas e quais permanecerão fechadas ao longo da vida.

A ação trickster de exú na quebra de padrões

É nesse ponto que podemos estabelecer um diálogo entre ciência e espiritualidade. Se o ambiente é capaz de modificar a forma como determinados genes se expressam, então novas formas de viver, sentir e agir também podem inaugurar novos caminhos.

É exatamente nesse movimento que a ação trickster de Exú se manifesta. Exú rompe ciclos, desafia estruturas cristalizadas e coloca em crise tudo aquilo que se tornou automático. Ele desestabiliza padrões antigos para permitir que novos sentidos possam surgir.

Sua força não está apenas na ruptura, mas na capacidade de transformar repetição em criação. Ao questionar aquilo que parecia inevitável, Exú abre espaço para que novas possibilidades de existência possam emergir.

Nesse diálogo entre ciência e espiritualidade, a epigenética oferece uma poderosa imagem para compreender a ancestralidade. Nossa sombra talvez não seja formada apenas pelas experiências que vivemos, mas também por marcas herdadas da história daqueles que vieram antes de nós. Muitos desses padrões podem ter surgido como estratégias de sobrevivência diante das circunstâncias enfrentadas por nossos ancestrais.

A ação de Exú consiste justamente em nos colocar diante dessas heranças para que possamos ressignificá-las. Ao quebrar padrões, Exú não rompe apenas com o passado: ele cria as condições para que uma nova ancestralidade comece a ser construída a partir de nós, interrompendo ciclos de repetição e abrindo espaço para novas possibilidades de vida.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
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Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.