Ervas de exú na quimbanda gaúcha | Luehea divaricata, Açoita-cavalo, ivatingui, ibitinga, estriveira, salta-cavalo, pau-de-canga, estriveira

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Ervas de exú na quimbanda gaúcha | Luehea divaricata, Açoita-cavalo, ivatingui, ibitinga, estriveira, salta-cavalo, pau-de-canga, estriveira Luehea divaricata: Açoita-cavalo, ivatingui, ibitinga, estriveira, salta-cavalo, pau-de-canga, estriveira. A Luehea divaricata, conhecida popularmente como açoita-cavalo e chamada em algumas tradições de ivitinga ou ivatingi, é uma espécie nativa amplamente distribuída no sul e sudeste do Brasil. No campo etnobotânico, destaca-se como planta de múltiplos usos, articulando medicina popular, práticas indígenas e sistemas rituais afro-brasileiros. A casca e as folhas apresentam propriedades tradicionalmente reconhecidas como adstringentes, anti-inflamatórias, antimicrobianas e cicatrizantes. Na medicina popular, são empregadas no tratamento de reumatismo, bronquite, gastrite, disenteria, infecções de garganta, feridas e úlceras. Entre povos indígenas do Paraná e de Santa Catarina, há registros do uso da casca e das folhas tanto para fins terapêuticos quanto cosméticos, incluindo a descoloração dos cabelos. O nome “açoita-cavalo” remete à flexibilidade de seus galhos, historicamente utilizados como chicotes para condução de animais — característica que, no imaginário simbólico, associa a planta à ideia de correção, força e direcionamento. Estudos científicos ainda são incipientes, mas pesquisas in vivo indicam potencial analgésico (inclusive na dor neuropática) e possíveis efeitos neuroprotetores, sugerindo que o conhecimento tradicional pode guardar fundamentos empíricos relevantes. Sua função ritual está associada à quebra de amarrações, à dissolução de influências negativas e à abertura de caminhos. A própria etimologia indígena (ivatingi, por vezes interpretada como “fruto-que-aborrece”) pode ser lida simbolicamente como aquilo que repele, que incomoda forças indesejadas, que não permite fixação. Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama. Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos. Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos. Participe, é totalmente gratuito Núcleo de estudo e pesquisa ancestral O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente. Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios. Instagram Facebook YouTube Linktr.ee E-mail Quero participar do núcleo

Ervas de exú na quimbanda gaúcha | Elephantopus mollis (Kunth) erva-do-diabo, erva-de-veado, erva-de-colégio, lingua-de-vaca

Ervas de exú na quimbanda gaúcha - Elephantopus mollis (Kunth) erva-do-diabo, erva-de-veado, erva-de-colégio, lingua-de-vaca

Ervas de exú na quimbanda gaúcha | Elephantopus mollis (Kunth) erva-do-diabo, erva-de-veado, erva-de-colégio, lingua-de-vaca Elephantopus mollis (Kunth): erva-do-diabo, erva-de-veado, erva-de-colégio, lingua-de-vaca // Banho frio para acalmar cabeça quente. Banho quente, auxilia na purificação e fortificará em cumprir as obrigações. Também associada a Exú e Omulu, utilizada em sacudimentos, em pó para trabalhos de Exú, e para banhos de descarrego. No processo formativo do quimbandeiro, o conhecimento sobre o uso das ervas ocupa um lugar central. O trabalho com plantas não se limita à dimensão prática dos rituais — como cura, defesa, ataque, desmanche de feitiços ou processos iniciáticos (banhos, firmezas e assentamentos) —, mas constitui um saber cosmológico que articula natureza, espiritualidade e território. Embora existam ervas consideradas sagradas e de difícil acesso, a experiência ritual demonstra que grande parte dos recursos necessários pode ser encontrada no próprio entorno urbano. Isso evidencia uma característica importante das tradições afro-diaspóricas: a capacidade de adaptação ecológica e simbólica aos contextos regionais. A regionalidade, portanto, influencia diretamente o repertório ritual, já que fatores climáticos e ambientais determinam a disponibilidade das espécies vegetais. Assim, o aprendizado do uso das ervas não é apenas técnico, mas envolve a leitura do território e a construção de uma relação contínua com o ambiente. Sob essa perspectiva, o domínio das ervas pode ser compreendido como um resgate — ou reatualização — de saberes ancestrais ligados à natureza. Diversos povos indígenas preservaram, ao longo de séculos, conhecimentos aprofundados sobre o uso ritual e medicinal das plantas. Nesse sentido, a Quimbanda, como tradição afro-brasileira, também se insere nesse amplo campo de saberes tradicionais que articulam espiritualidade, ecologia e ancestralidade. Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama. Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos. Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos. Participe, é totalmente gratuito Núcleo de estudo e pesquisa ancestral O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente. Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios. Instagram Facebook YouTube Linktr.ee E-mail Quero participar do núcleo

Caboclo e Preto-velho na quimbanda, por uma ressignificação do culto a ancestral

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Caboclo e Preto-velho na quimbanda, por uma ressignificação do culto a ancestral Uma retomado de territórios ancestrais Pelo direito à memória A terra por onde o ancestral pisou diz muito sobre os valores e as experiências que ele viveu. Não há culto ancestral que não cruze as linhas do passado e estabeleça um conjunto de memórias que formam a identidade de um povo. É difícil crer que os povos negros escravizados, assim como os indígenas nativos desta terra, tenham atingido a divinização como ancestrais por se ajoelharem perante a cruz católica. Que tenham abandonado o sonho e a esperança de retorno às suas terras, culturas e famílias em troca de uma escada moral de evolução cristã-espírita. Não. Assim como os ancestrais que vieram antes, eles sabiam que a relação, a memória e a esperança de retorno se mantinham vivas, porque, nas profundezas de suas almas, o sagrado permanecia enraizado, firme e forte, mantendo o fôlego da resistência de pé junto à esperança. Crer que uma Umbanda alicerçada em uma moral cristã-espírita seja hoje o território ritual legítimo para que esses ancestrais venham à Terra é uma tremenda ofensa, um desrespeito à memória desses ancestrais. Hoje podemos perceber a proeminência de uma Umbanda embranquecida, com um apagamento cultural e ético-filosófico tão grande que de Umbanda só há o nome, pois os valores e saberes ancestrais ali quase não existem, tendo sido catequizados por mensagens cristãs e por uma moral reencarnacionista espírita, na qual Exus e Pombagiras, assim como Pretos-Velhos, Caboclos e Quimbandeiros, são alocados em um espaço de moral rejeitada. Todo o saber ancestral perdeu território e, ali, o sincretismo já não existe, pois as representações substituíram de vez as forças ancestrais. Jesus já não sincretiza com Oxalá; ele é colocado como igual a Oxalá nessa ótica e, por vezes, tão ou mais venerado que o próprio Oxalá yorubano. Umbandistas de tradições embranquecidas dirão que seus fundadores, apesar de tudo, ajudaram a projetar a Umbanda no mundo, mas não assumem os erros desses mesmos fundadores, pois, se assim o fizessem, reconheceriam que ali há de tudo, menos culto à ancestralidade afro-ameríndia. Existem tradições como a Umbanda Omolokô e também movimentos de resgate das tradições ancestrais que estão ressignificando a relação e o culto ancestral no Brasil. Dentro desse contexto, a política de terreiro torna-se arma e escudo, pois é na construção do senso de coletividade, comunidade e ajuda mútua que valores ancestrais estão em processo de retomada de território. É na coesão que Umbanda e Quimbanda se aproximam, e tenho esperança em dizer que retomem seus papéis junto às comunidades ancestrais. Não há dois lados de uma moeda; essa é uma visão colonial, em que preço e custo são medidas de valor. O que há é o reconhecimento de que o levante ancestral parte da ótica da coesão, onde raízes se entrelaçam e a floresta volta a gerar abundância espiritual. E espírito coletivo forte é ancestralidade manifesta. E onde a ancestralidade se manifesta, o território é retomado. A quimbanda como força de resistência ancestral os ancestrais que não se curvaram ao embranquecimento Pesquisando a história da formação da Umbanda popular, que podemos contextualizar no movimento espírita, na figura de Zélio Fernandino de Moraes, entre os anos de 1900 e 1941, tendo como marco o 1º Congresso Espírita de Umbanda, observamos um forte movimento de higienização na forma de cultuar os ancestrais. Aqueles que não se curvaram aos dogmas católico-cristão-espíritas foram tachados de espíritos atrasados e, por isso, alocados como quimbandeiros. Exus, Pombagiras, Pretos-Velhos e Caboclos contrários a essa nova ordem formaram o primeiro panteão de ancestrais da Quimbanda. Desde o seu primórdio, a Quimbanda guarda uma forma mais próxima do culto aos ancestrais, como víamos nas macumbas cariocas. É importante frisar que não foi apenas o conjunto de rituais e liturgias que se preservou, mas, acima de tudo, o direito à liberdade de manifestação ancestral, livre, sem amarras morais e sem dogmas cristão-espíritas. Na Quimbanda, preservou-se o modo de ser, o modo de existir; por isso, ela se torna um ponto, uma fenda, um território de resistência ancestral. Não podemos reduzir esse modo de existir apenas ao palavreado tão criticado pela moral cristã, mas sim compreendê-lo a partir das dinâmicas de sobrevivência e resistência que esses ancestrais trazem: o direito ao ataque, ao feitiço, ao sangue sacrificial, o direito de lutar e resistir. Qualquer movimento contrário a isso torna-se uma tentativa de colonizar, mais uma vez, os ancestrais, pois o processo de colonização foi, acima de tudo, religioso. E, se hoje vemos quimbandas veganas ou quimbandas cristãs, isso demonstra que ainda existe um grande esforço para apagar o modo de ser ancestral, tentando transformar a Quimbanda em mais uma versão cristianizada da cultura afro-indígena. Por isso digo que Quimbanda sem política social é “bife gourmet de feitiço”. Se não há movimento de preservação do direito à existência ancestral, então o território pertence a quem? Aos interesses capitalistas, em grande parte concentrados em ditos eruditos das tradições, nos quais a prioridade do saber se centra no eurocentrismo, utilizando como justificativa a influência ibérica, como se os saberes afro-indígenas se tornassem secundários. A quem interessa uma Quimbanda ibérico-centrada? Onde quem paga mais é quem tem direito de acesso ao território? Deixo essas perguntas como reflexão aos irmãos de luta pela memória ancestral. Preto-velho e caboclo por inteiros O sacrifício como ato de plenitude ancestral Há algo de muito contraditório em associar magia ou feitiço a espíritos ditos livres e, ao mesmo tempo, limitar seu escopo de ação com proibições e dogmas que muitas vezes são definidos com base na moral de uma pessoa — seja líder, dirigente, pai de santo — ou de um grupo que compartilha de uma moral comum. Como imaginar que o culto a Exu e Pombagira sobreviveu ao tempo exatamente por alargar as fronteiras da moral, expandindo-as para uma dimensão de resistência, e hoje vermos movimentos como cultos a Exus e Pombagiras dentro de tradições cristianizadas da Umbanda, sobrecarregadas por uma forte moral espírita, onde se afirma que

Quanto custa um assentamento de exu na quimbanda? Uma crítica social

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Quanto custa um assentamento de exu na quimbanda? Uma crítica social Aqui levanto, mais uma vez, a bandeira da crítica social em defesa de uma Quimbanda que respeite seu solo ancestral e sua ética de resistência social, onde os caminhos são abertos aos pés descalços daqueles que vertem o suor do sacrifício na terra: pessoas simples, periféricas, marginalizadas, abandonadas pelo sistema. Uma Quimbanda que promove o empoderamento do pertencimento às forças ancestrais, forças essas que nos reposicionam na relação com o mundo, nos dando uma identidade que, antes marginalizada, alça o poder dos reinos espirituais. Aqui também levanto, mais uma vez, a bandeira do resgate do poder feminino ancestral e presente, das mulheres que resistiram e resistem ao tempo brutal de uma estrutura patriarcal machista. Mulheres que perdiam sobrenomes e vínculos familiares ao se casarem, muitas vezes obrigadas e tratadas como produtos de ligação entre famílias. Essas mulheres pagaram o maior preço ao resistirem à força brutal do apagamento, para que fosse preservado, o máximo possível, o culto aos ancestrais. Em uma realidade em que a necessidade mantém sempre abertas as portas da fome e da carência de necessidades básicas, o custo para manter vivo o culto aos ancestrais deve ser coerente com a realidade social daqueles que mais necessitam da ancestralidade. Dar força a quem tem pode abrir caminho para um tirano; dar força a quem não tem pode derrubar um tirano. Oráculo e a voz ancestral de exú e pombagira na quimbanda O oráculo de Exú sempre será a principal ferramenta de comunicação com a ancestralidade na Quimbanda. É por meio do oráculo que caminhos são abertos, dúvidas são sanadas e forças são confirmadas. Em um assentamento de Exú na Quimbanda, o oráculo aponta desde os elementos necessários, passando pelos pontos de força nos reinos para a coleta desses elementos, até a forma como eles podem ou devem ser coletados. Pelo oráculo, o sacerdote de Quimbanda busca alinhar ao máximo o processo de feitura junto ao iniciado. Entretanto, o custo de um oráculo pode se tornar a primeira prova de fogo para o futuro iniciado, pois, em muitos casos, o valor do jogo pesa no bolso. Existem jogadas que variam de R$ 100 a R$ 500, e até mesmo jogos que chegam a R$ 1.000. Se pararmos para analisar a situação hipotética de uma pessoa cujo ganho mensal é de um salário mínimo, isso se torna muito difícil, para não dizer impossível. Para mim, isso é um absurdo, pois ver um ancestral ter sua voz abafada por cifras é algo totalmente contrário a uma jornada sacerdotal. Se o sacerdote é um guia nos caminhos da ancestralidade, é dever dele apontar a direção. Ver um sacerdote pesar a mão no valor de um oráculo para uma pessoa humilde, inviabilizando o processo iniciático de alguém que mais necessita, é antagônico às responsabilidades de um sacerdote para com a ancestralidade. Levantando um reino de exú e pombagira A estrutura física do assentamento geralmente concentra os maiores custos para o iniciado. Dependendo da tradição, esses custos podem, de fato, impossibilitar que pessoas mais humildes ingressem na tradição. Eu mesmo já ouvi relatos de casos em que os custos com materiais ultrapassaram R$ 8.000, podendo aumentar ainda mais, a depender das firmezas e de outros rituais que podem compor todo o processo de iniciação. Minha crítica reside no ponto em que o essencial deixou de responder à força de Exú e Pombagira. O coração dos assentamentos sempre foram as pedras, as terras e o alguidar. Há ainda a compreensão de que, assim como um reino, o assentamento cresce, e outros elementos podem ser agregados com o tempo. Será que o essencial não basta para a iniciação de pessoas mais humildes ou daquelas que, no momento, enfrentam dificuldades financeiras? Se perguntado ao oráculo, o ancestral responderia que não? O ancestral negaria culto? O sangue e o pacto ancestral com exú e pombagira O ato ritual de maior impacto na iniciação e feitura da quimbanda é o sangue sacrificial que vai alimentar, dar vida ao assentamento de exú e pombagira. Na quimbanda tradicional gaúcha o básico é uma galinha para pombagira e um galo para exú. Podem haver exceções, mas de forma geral essa é a regra. E a carne das aves é reaproveitada, o que faz circular o axé entre as pessoas, pois é um axé de vida, uma carne sagrada, uma carne que dá vida a espiritualidade, uma carne que alimento o elo entre o iniciado, comunidade e ancestrais. Uma galinha ou galo para sacrifício religioso na região metropolitana de Porto Alegre pode custar entre R$ 50 a R$ 80. Se levarmos em conta que são duas aves pode chegar a R$ 160,00. Mas há assentamentos que vão um quatro pés além das aves, o que pode tranquilamente ultrapassar os R$ 1.000 em animais para o sacrifício. Além disso, temos certos rituais que podem ser pedidos pombos, por exemplo, que são mais caros que o galo e a  galinha, o que é muito contraditório. Um pombo pode custar de R$ 100 a R$ 150 só para registro de custos. O que é importante observar é o quanto os materiais e animais somados podem ultrapassar tranquilamente em média R$ 3.000 em materiais para os dois assentamentos, para exú e pombagira. A mão de faca e a mão do sacerdote O custo da mão de faca do sacerdote talvez seja o ponto mais crítico em relação aos valores cobrados, pois o sacerdote pode tanto aliviar esse custo quanto pesar significativamente no bolso do iniciado. Há sacerdotes que cobram, em média, R$ 500, mas existem iniciações em que o valor da mão ultrapassa R$ 200 mil. Isso não é invenção, pois há processos iniciáticos compostos por graus, nos quais a soma dos diferentes momentos em que a mão do sacerdote fundamenta o processo de iniciação ultrapassa esse valor. Na Quimbanda tradicional gaúcha, a feitura é o momento em que o iniciado recebe seus assentamentos, a faca de trabalho e o rito de passagem no qual

Auto iniciação na quimbanda e a morte da tradição

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Auto iniciação na quimbanda e a morte da tradição A iniciação na quimbanda como tecnologia coletiva de transmissão Por que ninguém se inicia sozinho Um chamado espiritual não pode ser confundido com pacto ritual! Você pode sentir, perceber, interagir com a espiritualidade e até mesmo ser orientado por ela, mas isso não o torna pactuado ou iniciado em uma tradição como a Quimbanda. É muito importante pontuar que o fundo bantu da Quimbanda se mantém em diversos aspectos dentro das tradições, seja no culto aos ancestrais, seja na forma como esses ancestrais recebem culto por meio de assentamentos, mas principalmente pela coesão coletiva das comunidades. E, dentro dessas coletividades, o saber é compartilhado por meio da oralidade — não apenas pelo conhecimento em si, mas pela experiência que esse saber proporciona — e isso somente aqueles mais velhos que você, dentro da tradição, possuem. Por isso, autoiniciar-se é romper com a corrente ancestral sobre a qual a Quimbanda é fundamentada. Se o ancestral se apresenta como Exu ou Pombagira, então ele já traz em seu escopo de ação um forte direcionador iniciático. Cabe a você buscar descobrir em qual tradição ele melhor vai atuar em sua vida e em qual tradição mais bate forte no seu coração. Cada tradição possui estruturas rituais, magias, filosofias, códigos, aprendizados e processos iniciáticos que traduzem, da melhor forma, o escopo de ação que o ancestral quer trazer para sua caminhada. Achar que você é autossuficiente é um grande desrespeito ao seu ancestral, pois você está negando a si mesmo o processo de aprendizagem com os mais velhos, com tradições antigas, com fundamentos de culto aos antepassados e ancestrais dos quais o seu próprio ancestral fez parte em vida. Pare e pense nisso: quando um ancestral traz sua manifestação como Exu ou Pombagira, ele está reforçando a importância de você entrar nessa corrente ancestral, e não de instituir uma nova. Ele não está sozinho do outro lado — por que você estaria? Por que você acha que é isso que ele quer para você? Isso é ego, orgulho e vaidade, e tudo isso é uma armadilha. Exu e Pombagira reforçam a resistência das tradições ao colonialismo que foi imposto aos povos negros e indígenas no Brasil. As tradições preservaram saberes ancestrais e, acima de tudo, a memória. Sem memória preservada não há culto ancestral, e essa memória é compartilhada no ritual, no uso da erva, na passagem de uma mão de faca, no fundamento de assentamento de Exu e Pombagira, no ponto cantado, no aprendizado de um toque no tambor. Autoiniciar-se na Quimbanda é negar a memória ancestral — e onde não há memória, não há ancestralidade. A destruição da autoridade tradicional Quando o mais velho vira obstáculo Não presto satisfação a ninguém, então assumo total responsabilidade? E a quem a força de Exu responde: a quem deseja ou a quem é outorgado? Exu é um ancestral que pode ser evocado a partir de uma simples oração, ou sua força se manifesta por meio do fundamento ritual? Sentir a presença de Exu basta para ser iniciado na Quimbanda? Se Exu possui reino, território e lei, o pacto não deveria ser necessariamente coletivo? São muitas perguntas que precisam ser enfrentadas para que se encontre uma justificativa minimamente coerente para a auto-iniciação na Quimbanda. O mais velho é símbolo vivo da tradição; porém, na lógica da auto-iniciação, ele passa a ocupar uma nova zona de marginalização, já que deixa de ser reconhecido como transmissor legítimo dos saberes ancestrais. A auto-iniciação é, portanto, a marginalização dos anciões das tradições de Quimbanda. Os mais velhos são pilares ancestrais: canais de uma grande corrente espiritual, sustentáculos de comunidades. Alicerçam o saber com a experiência vivida, com o conhecimento adquirido no tempo, na prova e no rito. São base sólida porque acolhem e orientam, transmitindo segurança por meio do fundamento. O autoiniciado, ao contrário, não possui alicerce ancestral, não participa de corrente legítima, não encontra base que o sustente. Onde falta coletividade, sobra ego. Epistemicídio e homogeneização da quimbanda Quando tudo vira “Exu universal” Promover uma cultura de autoiniciação é promover o epistemicídio das tradições de Quimbanda. Trata-se de um modus operandi colonizador, que embranquece as tradições, uma vez que a autoiniciação não absorve estruturas nem saberes ancestrais e abre portas para que conhecimentos diversos, oriundos de outras tradições — muitas vezes até antagônicas —, sejam inseridos dentro de uma suposta Quimbanda. É assim que vemos surgir desde “quimbandas veganas” até “quimbandas cristãs”, para citar apenas exemplos gritantes e que já se tornaram realidade. Defendo profundamente a busca por um conhecimento hermenêutico das tradições como forma de ampliar o entendimento, mas isso não pode servir de premissa para reduzir Exu e Pombagira a arquétipos de anima e animus. Exu e Pombagira utilizam dessas estruturas simbólicas, mas não se reduzem a elas. Os ancestrais têm força para manipular elementos simbólicos, e quando reduzimos Exu a arquétipo estamos afirmando que ele é o símbolo, e não o agente — e isso constitui uma falha teológica imensa. Exu atua na criação; ele não é um produto resultante dela. Constantemente vejo espiritualistas de correntes de Umbanda com forte influência kardecista definirem escopo e moral para Exu e Pombagira, como se eles fossem espíritos cristianizados, que agem — ou deveriam agir — dentro de um código ético-moral cristão-espírita. Associam Exus e Pombagiras que pedem corte a espíritos “atrasados”, que ainda não teriam entrado na linha de evolução espiritual apregoada pelo espiritismo. Tentam colonizar Exu e Pombagira, como se os ancestrais que ali se manifestam se submetessem a um ideal colonizador. Exu e Pombagira atuam dentro de uma territorialidade anticolonial e, por isso mesmo, são forças combatentes a esse modelo. Além disso, promover essa visão cristã-espírita sobre Exu e Pombagira é fomentar um epistemicídio disfarçado de bondade. Trata-se de racismo religioso e, como tal, passível de enquadramento como crime de injúria religiosa. Embranquecimento ritual e higienização do sagrado O desconforto com o sangue, os mortos e a terra Na Quimbanda, o ego é suplantado pelo sangue.

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social O fundo do bolso. Esse é o relato da grande maioria das pessoas que buscam um assentamento de Exu na quimbanda. A procura por uma conexão mais genuína com os ancestrais acaba gerando muitos traumas em diversas pessoas. Uma tradição que nasce no culto aos antepassados e ancestrais de matrizes bantu, que passa pela fusão de elementos de outras tradições afro-diaspóricas, indígenas e, em certa medida, ibéricas, e que surge de um grande processo de resistência dos pobres, favelados e excluídos, hoje acaba caminhando para um pedestal da elite. Sacerdócios que ultrapassam os R$ 300 mil separam o sagrado daqueles que mais necessitam e o entregam àqueles que buscam apenas poder. É inconcebível imaginar ancestrais como as pombagiras — mulheres que, em vida, foram excluídas, lavadeiras, prostitutas, empregadas, cortadoras de cana — “exigirem” ou tolerarem que seus sacerdotes representantes cobrem valores que bloqueiam o acesso ao sagrado ancestral das pessoas mais pobres e humildes, com pouco acesso à informação, mas que pagam com suor pelo acolhimento de seus ancestrais. Tomemos como exemplo exus que, em grande parte, são de negros e indígenas escravizados, que trabalharam cortando cana, quebrando pedras, plantando e colhendo sob um sol escaldante. Como poderiam eles acolher pessoas que mantêm viva a cultura colonizadora, que só reconhece uma espiritualidade comprada por altos valores como demonstração de poder? É uma incoerência. Claro que encontraremos defensores dos aspectos ibéricos da quimbanda utilizando isso como porta de entrada para uma lógica colonizadora dentro da própria tradição, separando as pessoas em castas e camadas sociais, nas quais o verdadeiro divisor é a capacidade financeira. Repito: a incoerência social é enorme e fortalece um apagamento, um embranquecimento das tradições, que não reconhecem, nem mesmo na estética, a cultura dos ancestrais. Projeta-se sempre a imagem de pombagiras brancas, prostitutas cortesãs, e de exus como lordes de capa e cartola, brancos, senhores de muitos bens e influência. Confirmação de exú e pombagira no oráculo O primeiro ponto crítico no custo para o assentamento de Exu e Pombagira na quimbanda são as confirmações das forças que regem a ancestralidade do iniciado. Uma vez confirmadas essas forças, inicia-se uma série de perguntas e respostas para definir os elementos energéticos e simbólicos que irão compor o assentamento. Além desses aspectos, o sacerdote também pode oracular para levantar questões que necessitem de intervenção, a fim de ajustar o campo energético do iniciado, como banhos, preceitos que antecedem a feitura de quimbanda, questões ancestrais e formas de resolver geradores de negatividade, como traumas e dívidas ancestrais. Esse oráculo pode variar de R$ 200 a R$ 500 por jogo, o que pode pesar ainda mais no bolso do futuro iniciado. Não sou contra a cobrança pelo jogo: trata-se de um aprendizado que exige muita dedicação, além de o oráculo ser um portal de energias ancestrais que também demanda muito do oraculista em termos energéticos. Contudo, há uma linha tênue entre atender a uma vontade legítima — tirando dúvidas, por vezes até egóicas, sobre caminhos a serem abertos para a ancestralidade — e ignorar a dimensão concreta da realidade financeira do futuro iniciado. O que se vê em diversos relatos é que muitas pessoas com forte presença ancestral não conseguem avançar na feitura de quimbanda porque os custos realmente bloqueiam esse passo, e esse bloqueio começa já no oráculo. Imaginemos um cenário real: uma pessoa que divide aluguel, que trabalha em um emprego mal remunerado e que muitas vezes deixa de ter lazer para economizar a passagem de ônibus — como terá disponíveis R$ 300 para um jogo? Isso não é meritocracia, é falta de senso de equidade. Muitos sacerdotes falam sempre em merecimento, mas o fazem sem empatia ou senso de realidade. É muito fácil defender a meritocracia quando se tem condições materiais para tal. Só que isso não é a regra, é a exceção. Se alguém não enxerga essa realidade, está socialmente cego. A quimbanda é território ancestral, social e político — e quem nega isso, em geral, não está inserido em um contexto de vulnerabilidade, mas pratica uma religião voltada para a classe média alta: com um policiamento que protege e não mata; com saneamento coberto e não a céu aberto; com escolas dotadas de infraestrutura e não de materiais sucateados; com clínicas e hospitais particulares e não com filas de dez ou doze horas em UPAs. Quem levanta bandeira contra a política de terreiro é porque vive em um mundo de privilégios e condições. Fundamentos do assentamento de exú e pombagira O que é essencial, o que é fundamental, o que é coração e pilar em um assentamento? Se mergulharmos em um estudo histórico e antropológico da quimbanda e do culto a Exu e Pombagira — e até mesmo em tradições de culto aos mortos — vamos identificar um elemento central no culto aos ancestrais: a pedra. É a pedra que se apresenta como fundamento, como o primeiro alicerce de tudo aquilo que vem depois. Talvez, após a pedra, vejamos o uso de terras, ervas e do sangue. Os demais elementos, porém, já podem ser contextualizados dentro de determinadas tradições. As imagens, tão comuns hoje, podem ser compreendidas dentro de um contexto herdado do sincretismo, no qual santos foram associados aos orixás, o que influenciou fortemente — embora não exclusivamente — a criação de imagens de gesso representativas. É claro que as imagens de Exu e Pombagira dentro da quimbanda não são sincréticas em si, mas a cultura do uso de imagens carrega fortes influências desse período sincrético das tradições afro-diaspóricas. Sempre digo que um assentamento simples, mas bem fundamentado, pode responder plenamente, assim como um assentamento repleto de ouro, pedras preciosas e jóias pode não responder absolutamente nada. Grandes assentamentos também acabam justificando grandes valores. É muito raro encontrar um sacerdote que jogue o oráculo para saber se o simples basta para assentar a força de Exu e Pombagira. Muitos iniciam o oráculo perguntando por elementos de alto valor e custo, e isso pode pesar ainda

Um Guia sobre a Quimbanda na Perspectiva da Rama dos 4 Caminhos

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Um Guia sobre a Quimbanda na Perspectiva da Rama dos 4 Caminhos Introdução: o despertar das sementes na Rama dos 4 Caminhos A Quimbanda, em sua essência mais profunda, transcende a mera prática ritualística para se configurar como um caminho de autoconhecimento, resgate ancestral e transformação. Na perspectiva da Rama dos 4 Caminhos, essa jornada é intrinsecamente ligada ao despertar das “sementes” ancestrais, um processo que se inicia na escavação da própria genealogia e na confrontação com as sombras do passado. Este guia propõe-se a desvendar os pilares dessa tradição, explorando suas raízes históricas no contexto gaúcho, sua teologia das sombras, a complexidade de seus reinos e povos, e o profundo significado do caminho iniciático. Fundada a partir de um processo de pesquisa e mapeamento da árvore genealógica de seu líder, Thiago Blauth Ferreira, a Rama dos 4 Caminhos emergiu de sonhos, visagens e intuições que revelaram a presença de antepassados clamando por reconhecimento e culto. Este movimento não é apenas uma adesão a uma religião, mas um compromisso com a memória e a justiça ancestral, buscando ressignificar a relação com o passado e com os próprios ancestrais. A Quimbanda Gaúcha: uma identidade de ruptura e resistência A Quimbanda no Rio Grande do Sul possui uma trajetória singular, que a distingue de outras manifestações no Brasil. Longe de ser uma “linha de trabalho” subordinada ou uma categoria pejorativa associada à magia negra, a Quimbanda gaúcha consolidou-se como um sistema religioso autônomo, com rituais e fundamentos próprios. A gênese da linha cruzada e a autonomia ritualística Entre as décadas de 1950 e 1960, o cenário religioso gaúcho foi palco de um movimento de ruptura. Grupos de espíritos, que até então atuavam sob a égide da Umbanda, onde Exus e Pombagiras eram frequentemente demonizados ou tinham seus campos de atuação reduzidos, buscaram uma nova expressão. Esse movimento, conhecido como Linha Cruzada, representou uma aproximação entre o Batuque e a Umbanda, mas a Quimbanda gaúcha foi além, alcançando uma independência ritualística notável. O Batuque, com suas fundamentações e o uso do sacrifício animal (o “corte”) nas feituras, exerceu uma influência crucial na formatação dos rituais fundadores da Quimbanda gaúcha, conferindo-lhe a autonomia necessária para que o culto se centrasse em Exu e Pombagira. Essa centralidade elevou o status dessas entidades, deslocando-as da subalternidade umbandista para o protagonismo de um sistema de crenças renovado. Quer saber mais sobre iniciações e assentamentos? Quer saber mais sobre iniciações e assentamentos? Quimbanda: culto ou religião? A discussão sobre se a Quimbanda é um culto ou uma religião é pertinente, especialmente em um país onde a imagem predominante de religião é moldada pelo cristianismo. No entanto, a Quimbanda Gaúcha apresenta todos os elementos estruturantes de uma religião: uma cosmovisão centrada em Exus e Pombagiras, mitos próprios, forças ligadas a espaços sagrados, atributos e funções definidas de atuação, uma estrutura sacerdotal com linhagens iniciáticas e genealógicas, um sistema litúrgico, ritos, feituras, calendários e uma identidade coletiva. Portanto, reduzi-la à condição de mero culto seria ignorar sua complexidade e sua capacidade de reunir comunidade, transmitir saberes ancestrais e constituir uma cosmovisão própria. Ancestralidade e genealogia: O sangue que clama nas sombras Na Rama dos 4 Caminhos, a ancestralidade é o pilar central, compreendida não apenas como uma linha de parentesco biológico, mas como um elo espiritual e energético que conecta o iniciado a uma vasta rede de antepassados. Exu e Pombagira, nessa perspectiva, são vistos como espíritos de antepassados, ancestrais divinizados, feiticeiros e bruxos que sobreviveram ao tempo e ao apagamento. Exu e pombagira como ancestrais A relação de Exu e Pombagira com o iniciado na Quimbanda é marcada por um laço de consanguinidade ancestral, estabelecendo-se como um culto a antepassados. Um ancestral, na Quimbanda, pode ser um antepassado consanguíneo divinizado, detentor de saberes, feitiçarias e bruxarias, ou um ancestral comunitário, como um fundador, curandeiro ou líder espiritual. O processo de miscigenação no Brasil torna a busca por ancestrais afro-indígenas uma realidade para muitos, e a própria jornada de Thiago Blauth Ferreira, com antepassados escravocratas e escravizados, ilustra a complexidade e a importância desse resgate. A Quimbanda, nesse contexto, atua como um canal para essa cura e justiça ancestral, confrontando as narrativas romantizadas e embranquecidas do passado. Quer conhecer nossa comunidade? Quer conhecer nossa comunidade? O levante do feminino e a desconstrução de estereótipos A Rama dos 4 Caminhos tem como pilar central o levante do feminino nas tradições de culto aos ancestrais. Isso implica um reconhecimento da potência geradora e transformadora da mulher, muitas vezes subjugada por sistemas patriarcais. A Senhora Maria Mulambo Anciã, tutelar da Rama, manifesta-se nesse processo de ressignificação da imagem das mulheres da linhagem, trazendo saberes ancestrais, força de superação e acolhimento materno. Além disso, a Rama questiona a hegemonia de imagens estereotipadas de Exu e Pombagira, que frequentemente os retratam como lordes brancos e prostitutas da corte real. A tradição busca dar voz e visibilidade a ancestrais negros e indígenas, marcados pelo sofrimento e pela resistência, que muitas vezes são apagados dessas representações. A teologia das sombras: medo, fascínio e o numinoso A Quimbanda, na visão da Rama dos 4 Caminhos, é um mergulho nas profundezas do inconsciente, onde o medo e o fascínio se entrelaçam para revelar a força potencial das sombras. Não se trata de “jogar luz” sobre as sombras para eliminá-las, mas de reconhecer e integrar o que está oculto, reprimido ou esquecido. O quimbandeiro e o sacrifício dos apegos O quimbandeiro, ao adentrar os reinos de Exu e Pombagira, ativa forças profundas capazes de transformar consciências. Essa transformação não é lógica, mas visceral, gerando catarse e a integração de conteúdos reprimidos. A Quimbanda é, portanto, um caminho que exige coragem e a disposição para o “sacrifício dos apegos”, pois quem não está disposto a confrontar suas sombras pode sucumbir ao temor e fascínio dos reinos. Experiências existenciais e arquétipos As experiências existenciais humanas – vida, morte, sofrimento, amor, desejo, destino – são vistas como catalisadores que constelam estruturas arquetípicas, desencadeando vivências afetivo-existenciais. O numinoso, termo cunhado por Rudolf Otto, descreve esse fenômeno que

Como faço para entrar na quimbanda?

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Como faço para entrar na quimbanda? Ao longo dos meus 22 anos percorrendo diretamente uma jornada espiritual em busca de uma conexão ancestral verdadeira, posso afirmar que essa jornada é individual e que o aprendizado e a sabedoria dependem muito da forma como assimilamos as experiências. Muitos sucumbem no caminho, perdem-se na escuridão da alma e se deixam vencer pelo ego exacerbado, pela vaidade, pelo orgulho, pela prepotência e pela arrogância. A relação com Exu e Pombagira sempre nos expõe a um espelho nu e cru de nós mesmos, o que nos testa constantemente — seja o nosso caráter, seja a nossa fé, seja a nossa integridade. Por isso, digo sempre que o primeiro passo é o autoconhecimento, pois ele nos revela quais aspectos do nosso ser precisam de maior atenção. Fugir desse processo é cavar uma cova no fundo do abismo da própria escuridão. Para Exu e Pombagira não há fuga; na tentativa de fugir, há sentença. Paciência e disciplina são os dois primeiros passos que deixo como orientação para todos que desejam buscar uma iniciação na Quimbanda, em qualquer tradição. Medite, observe a natureza, estabeleça um caminho de conexão entre você e a sua espiritualidade, escute o que a sua alma tem a dizer. Busque reconhecer seus medos: de que forma eles se manifestam? Como você lida com eles? Você foge, congela ou tenta enfrentá-los? O iniciado na Quimbanda observa essas perspectivas da realidade de forma constante. Aquele que nega o próprio aprimoramento, acreditando já estar pronto, está fadado ao peso das sombras. Qual objetivo para buscar uma iniciação na quimbanda? Se observarmos a grande exposição que a Quimbanda alcançou nos últimos anos, bem como o aumento de sua visibilidade nas redes sociais, identificaremos que a grande maioria busca poder, enquanto uma minoria busca pertencimento. Quando falo em pertencimento, refiro-me a um pertencer ancestral, no qual a relação com Exu e Pombagira reflete o caminho para uma ancestralidade verdadeira, muitas vezes descrita como visceral. Já ouvi de inúmeros sacerdotes que, se você cultua Exu e Pombagira e eles não abrem caminhos para a sua realização financeira, então algo está errado. Eu diria justamente o contrário: se Exu e Pombagira não abrem caminhos para a sua espiritualidade ancestral, então há algo profundamente errado. Quando a espiritualidade não proporciona pertencimento cósmico, a iniciação falhou miseravelmente, pois buscar uma espiritualidade que se resume ao dinheiro é o mesmo que usar uma pedra como apoio para não afundar no mar. O que quero dizer com isso? Que alimentar a realização material em detrimento da sabedoria espiritual prende a consciência à roda de retorno. Não se trata de uma punição cósmica gratuita, mas de um aprisionamento natural da consciência a uma realização que só ocorre onde? Na materialidade física. Percebe o questionamento filosófico necessário? Não levanto aqui uma bandeira altruísta — longe disso. Defendo que todos têm o direito justo de buscar uma boa vida financeira, se assim o desejarem. O que afirmo é que a espiritualidade deve estar alinhada à espiritualidade; e, se isso indiretamente abrir portas para a realização financeira, ótimo. Nem todo caminho de realização é financeiro: para muitos, a realização está em um lugar aconchegante, em uma área verde, em um lar de acolhimento à beira de um lago. Por isso, sou categórico: qual é o seu objetivo com uma iniciação na Quimbanda? Espiritual? Financeiro? Se for financeiro, você pode recorrer a um tata, mestre ou nganga para realizar um trabalho de prosperidade; não há necessidade de passar pelo processo iniciático para isso. Em muitos casos, os problemas financeiros das pessoas não têm relação com a espiritualidade, mas sim com questões psicológicas e, até mesmo, com a falta de capacitação técnica. A grande maioria nunca recebeu aprendizado sobre como gerir financeiramente a própria vida e acredita que o problema é espiritual, quando, na realidade, é falta de educação financeira. Quantos ganhadores da Mega-Sena retornaram à pobreza após não saberem administrar os milhões que ganharam? Muitos. Minha experiência mostra que, geralmente, aqueles que possuem caminho para a iniciação na Quimbanda acumulam vivências profundas com a ancestralidade. São acúmulos de sonhos iniciáticos, visagens de espíritos de linhas ancestrais — sejam Exu e Pombagira, caboclos ou pretos-velhos —, forças encantadas ou até mesmo manifestações físicas desses espíritos e das forças da natureza. Soma-se a isso um forte chamado interno, uma ânsia pelo saber e uma vontade genuína de vivenciar a experiência e o contato verdadeiro com a espiritualidade. O desejo de fazer parte nasce de um chamado ao pertencimento ancestral que, aos poucos, cresce em intensidade até gerar ansiedade. Em muitos casos, isso expõe a pessoa a situações de vulnerabilidade e, por consequência, a experiências negativas, pois são justamente essas pessoas que mais caem nas mãos de sacerdotes que visam o lucro em detrimento da espiritualidade daqueles que buscam uma iniciação na Quimbanda. Qual tradição de Quimbanda você vai se iniciar? Existe uma grande diversidade de tradições de Quimbanda, tais como: Quimbanda Tradicional Gaúcha, Quimbanda Mussurumim, Quimbanda Malê, Quimbanda Luciferiana, Quimbanda Xambá, Quimbanda Congo-Angola, Quimbanda de Almas e Angola, Quimbanda de Angola, Quimbanda Kirumbo, entre muitas outras tradições familiares que se hibridizam por meio de cruzamentos com outras tradições. Cada uma dessas tradições possui pontos em comum, como o culto a Exu e Pombagira e pilares que variam conforme a fundamentação dos assentamentos, os quais são o principal ponto de força e de conexão com Exu e Pombagira. Outro aspecto marcante é o agenciamento das forças de Exu e Pombagira para feitiços, firmezas e trabalhos diversos. De modo geral, existe uma visão comum entre as tradições, mas cada uma possui particularidades, e são justamente essas particularidades que dão o tom da tradição. É esse tom que, muitas vezes, define qual tradição mais ressoa com você. Eu, por exemplo, buscava uma tradição de Quimbanda que tivesse uma forte relação com o estreitamento ancestral genealógico, pois hoje a centralidade da tradição da Rama dos 4 Caminhos é o culto aos ancestrais e antepassados, buscando resgatar, na jornada iniciática do iniciado, a sua relação

O renascer nas sombras na feitura de quimbanda

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

O renascer nas sombras na feitura de quimbanda Integrar os potenciais ocultos nas próprias sombras delimita um ponto importante no rito de passagem da feitura de Quimbanda, no qual o iniciado ultrapassa a fronteira da vida profana para a vida sagrada. Contudo, essa fronteira é um estado liminar que separa — e ao mesmo tempo conecta — as percepções entre vivos e mortos, entre medo e coragem, entre displicência e arte. Por isso, o iniciado na Quimbanda torna-se um mestre das artes sombrias, pois aprende a reconhecer os caminhos obscuros da alma, por meio dos quais acessa forças profundas — forças representadas por Exu e Pombagira, forças tectônicas, telúricas, densas e potentes. Trata-se de um renascer na escuridão das profundezas da terra, morada dos antepassados e ancestrais, muitas vezes adormecidos em memórias atávicas que aguardam um despertar transformador. A feitura de Quimbanda constitui um ponto divisor de entrada nos reinos de Exu e Pombagira, momento em que o quimbandeiro passa a ser reconhecido por uma comunidade ancestral que o mune de axé, outorgas e magias, tornando-o senhor dos caminhos. A partir de então, em comunhão com seus tutelares, ele passa a atuar em simbiose como guardião dos espaços liminares, senhor da transição entre luz e trevas e do fluxo contínuo entre trevas e luz. É na feitura de Quimbanda que o iniciado dá início à sua jornada na encruzilhada entre mundos. Na feitura de Quimbanda, o iniciado também passa a ser reconhecido como uma liderança, pois, agora capacitado nas artes das sombras e na magia de Exu e Pombagira, torna-se requisitado para auxiliar aqueles que buscam, nessas forças, cura, prosperidade, defesa e caminhos para suas realizações. Por meio de um profundo aprofundamento simbólico, o iniciado passa a perceber, em seu entorno, a manifestação das forças de Exu e Pombagira, tornando-se agente dessas forças e, portanto, um verdadeiro ponto de cruzamento energético. O assentamento de exú e pombagira na quimbanda Na feitura de quimbanda o iniciado realiza junto ao seu feitor de quimbanda o assentamento de exú e pombagira tutelares. Cada tradição tem seus fundamentos no processo de criação a assentamento que geralmente envolve o uso de diversos elementos simbólicos, energéticos e pactuação, além de tempo envolvido nas etapas dos preceitos. O importante é ter em mente que muitos dos preceitos respeitam ciclos, seja de tempo, nascimento e morte, maturidade e preparo de elementos, assim como um momento importante onde ocorre um estreitamento entre o iniciado e seu exú e pombagira. É junto ao assentamento que o iniciado passa a prestar culto a exú e pombagira, assim como realizar diversas outras ações como feitiços, amarrações, feitiços de prosperidade, de defesa e ataque, assim como a entrega de oferendas. O assentamento se torna a centralidade da rotina do iniciado junto aos seus ancestrais tutelares. O iniciado após finda o período de preceito de criação do assentamento deve leva-lo para sua casa ou local onde o culto a exú e pombagira será estabelecido. Existem tradições e rama familiares de quimbanda que possuem formas diferentes de feitura do assentamento assim como tempo até que o iniciado tenha permissão de leva-lo para seu local de culto. Mas na nossa rama acreditamos que o culto deve ser fortalecido ao máximo na rotina do iniciado por isso o assentamento é sempre entregue após findar o período de preceitos envolvidos na feitura. A mão de faca na quimbanda gaúcha A mão de faca talvez seja um dos temas mais polêmicos nas tradições de Quimbanda, pois está diretamente ligada aos rituais sacrificiais para Exu e Pombagira. A mão de faca compõe os preceitos da feitura na Quimbanda, na qual, além da primeira faca sacrificial, o iniciado recebe a outorga do direito ao sacrifício animal para Exu e Pombagira. É por meio dessa outorga que o iniciado passa a ter o direito de se tornar feitor de outros iniciados. Na nossa tradição, cada ancestral tutelar — Exu e Pombagira — possui uma faca sacrificial própria. Assim, todo Exu é assentado com a faca do Exu do feitor, da mesma forma que toda Pombagira é assentada com a faca da Pombagira do feitor. É também por meio da mão de faca que o axé da tradição é transmitido, formando, assim, uma corrente energética contínua que sustenta a tradição da rama familiar de Quimbanda. Existem tradições que consagram diversas outras facas para propósitos específicos. Na nossa rama, podemos ter outros ancestrais assentados, o que, além de ampliar as fronteiras da comunidade ancestral, também incorpora as respectivas facas desses ancestrais. Isso amplia as forças envolvidas nos rituais sacrificiais e fortalece a entrega de oferendas aos seus respectivos reinos. É importante compreender que é pela mão de faca que os assentamentos são alimentados, assim como ocorre a renovação da vida e do axé desses assentamentos. A mão de faca multiplica o axé da tradição e, ao mesmo tempo, representa a responsabilidade do legado e da transmissão contínua dessa tradição. Um pacto ancestral com exú e pombagira Podemos dizer que a iniciação na Quimbanda é uma jornada de vida que continua até mesmo no pós-morte. Contudo, é na feitura de Quimbanda que o iniciado adentra essa jornada, na prática, como quimbandeiro. E é a prática que, ao longo do tempo, torna o iniciado um mestre. Posso afirmar que as etapas que antecedem a feitura de Quimbanda podem ser consideradas mais um período de prova do que propriamente uma etapa da feitura. É como se tudo, até então, fosse uma grande preparação, que envolve persistência, despertar da consciência, disciplina mental e emocional, além da coragem de vislumbrar as sombras do nosso próprio abismo e encarar medos e temores que nos impedem de alcançar a plenitude do ser. Exu e Pombagira são ancestrais senhores dos espaços liminares e, junto a nós, atuam como agentes fundamentais de fortalecimento, auxiliando-nos a encarar nossas sombras e, a partir delas, despertar virtudes e potências que nos tornam mais íntegros e senhores do nosso próprio caminho. Por isso, afirmo que a feitura na Quimbanda é um marco no qual assumimos nossas

Assentamento para Exú e Pombagira na quimbanda

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Assentamento para Exú e Pombagira na quimbanda O assentamento de Exu e Pombagira na Quimbanda ocupa o centro ritual da relação entre o iniciado e o ancestral. É por meio dele que o quimbandeiro estabelece comunicação e realiza diversos rituais junto a Exu e Pombagira, sejam eles voltados à prosperidade, amarrações, ataques, defesas ou, acima de tudo, à devoção. O assentamento é um canal entre o iniciado, o ancestral, o reino de Exu e todas as forças que o ancestral traz em seu arcabouço de trabalho. Ele é constituído por elementos energéticos e simbólicos que funcionam como âncoras e pontos de atração, possibilitando a manifestação de Exu, de Pombagira e de suas forças na vida do iniciado e de sua comunidade tutelada. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto neste conteúdo, até porque existem muitas tradições de Quimbanda, e cada família ou Rama possui suas próprias peculiaridades e fundamentos. Isso abre um leque imenso e diverso de práticas e compreensões, tornando a Quimbanda acolhedora de uma grande diversidade de consciências. Busco compartilhar observações e conhecimentos adquiridos ao longo dos meus 20 anos de macumba, somados a estudos e pesquisas particulares, bem como à vivência que venho construindo junto à Rama dos 4 Caminhos. Assim, este conteúdo não tem o objetivo de confrontar outras tradições ou famílias de Quimbanda, mas sim de acrescentar mais uma perspectiva a essa infindável jornada iniciática no culto aos ancestrais. O oráculo e a voz ancestral na fundamentação do assentamento Existem elementos essenciais em um assentamento, assim como elementos próprios da fundamentação da família e, principalmente, elementos particulares do ancestral assentado, seja Exu, Pombagira, Caboclo, Preto-Velho ou Encantado. Cada ancestral, mesmo estando vinculado a uma linha específica, traz energias, forças e formas de trabalho muito particulares, e o assentamento ressoa essas singularidades. Para que essas características sejam incorporadas como fundamento, é necessário recorrer ao oráculo. Esse processo pode ser bastante desgastante para o oraculista, pois diversos elementos precisam ser validados a fim de confirmar sua inclusão no assentamento. Além disso, exige-se um esforço do sacerdote para canalizar intuições, vidências e demais capacidades que possam contribuir para o levantamento desses elementos. Essas particularidades definem o tom da comunicação e tornam a relação entre o iniciado e o ancestral muito mais assertiva e manifesta. O macrocosmo e o microcosmo no reinos de Exú e Pombagira O assentamento também é um canal entre o iniciado e o reino de Exu e Pombagira. Por isso, muitas vezes temos permissão para arriar oferendas pertinentes a determinado reino diretamente à frente do assentamento, sem a necessidade de ir fisicamente até esse reino. Suponhamos que seja necessário realizar um ritual de prosperidade e que a oferenda precise ser destinada ao reino das Matas. Caso o iniciado possua um ancestral tutelar pertencente a esse reino, é possível consultar o oráculo e confirmar se a oferenda pode ser arriada ali mesmo, à frente do assentamento. Em muitos casos, haverá permissão para isso, o que facilita significativamente os trabalhos do quimbandeiro. Existem reinos, como Lira, Matas e Encruzilhadas, que facilitam diversas entregas em reinos distintos, pois representam vias liminares de transição entre realidades ou, como no caso das Matas, reinos que abrigam uma diversidade imensa de elementos e forças. Dessa forma, o assentamento configura-se como um microcosmo de um ou mais reinos, no qual elementos essenciais desses reinos trazem forças e energias que pavimentam a manifestação dos ancestrais. Enquanto cosmos, é importante também perceber as fronteiras sagradas que cada reino abarca, pois um reino dialoga com diversas outras consciências espirituais, encantadas, divindades e seres sagrados, além de todo o espectro de funções que o compõe. Essas funções, de maneira direta, delineiam as possibilidades de trabalhos que podem ser realizados. Fica a observação: compreender as funções de um reino pode abrir grandes portas para a realização de diversos trabalhos. Um exemplo é o reino das Matas, no qual encontramos múltiplos biomas, sistemas, ecossistemas e forças de interação entre essas funções. Muitos dos elementos presentes no assentamento são representativos, carregando valores simbólicos específicos; contudo, ele pode — e deve — conter também elementos naturais reais, coletados diretamente no reino. Essa coleta precisa envolver uma relação de troca e, sobretudo, a construção de um vínculo que se estabelece no próprio ato da coleta. É fundamental buscar compreender as formas corretas de adentrar os reinos, para que energias contrárias não sejam alocadas no iniciado. Todo reino possui seus protetores, e por isso o respeito e o cumprimento dos protocolos são indispensáveis. Como exemplo, no reino das Matas, em muitas tradições de culto aos ancestrais, observa-se o uso de fumo de rolo e mel como oferendas para a entrada, além de água, para que os caminhos sejam férteis e para que sua energia colabore com a fertilidade das matas. Ressalta-se, contudo, que esses são apenas exemplos: cada tradição possui suas próprias técnicas, saberes e rituais de entrada, coleta e entrega de oferendas. Também é recomendável recorrer ao oráculo para buscar, junto ao ancestral tutelar, as formas adequadas de acesso ao seu reino. O poder da terra e a morada do ancestrais A terra come; a terra gera vida. A terra é o útero primordial, geradora da vida e, ao mesmo tempo, morada de toda a existência. A terra é morte, pois se alimenta dos corpos, mas é um alimentar-se que recicla, que renova, que a torna fértil, para que a vida se sustente e novas vidas nasçam e até mesmo renasçam. A terra é sustento, seja da natureza, seja como base para a realização de um negócio, seja como fundamento para o entretenimento, seja como morada dos mortos. Todos esses significados e funções podem se cruzar no momento em que a terra passa a compor um assentamento. Isso se torna uma brecha para o quimbandeiro perceber quais realizações aquela terra sustenta, alimenta, degrada, consome e recicla. Esses aspectos podem se tornar fundamentos, desde que o iniciado saiba cruzar tais relações com as linhas de trabalho. Toda terra também é cemitério, morada de antepassados e ancestrais, pois vida e morte

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.

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