Como faço para entrar na quimbanda?
Ao longo dos meus 22 anos percorrendo diretamente uma jornada espiritual em busca de uma conexão ancestral verdadeira, posso afirmar que essa jornada é individual e que o aprendizado e a sabedoria dependem muito da forma como assimilamos as experiências. Muitos sucumbem no caminho, perdem-se na escuridão da alma e se deixam vencer pelo ego exacerbado, pela vaidade, pelo orgulho, pela prepotência e pela arrogância.
A relação com Exu e Pombagira sempre nos expõe a um espelho nu e cru de nós mesmos, o que nos testa constantemente — seja o nosso caráter, seja a nossa fé, seja a nossa integridade. Por isso, digo sempre que o primeiro passo é o autoconhecimento, pois ele nos revela quais aspectos do nosso ser precisam de maior atenção. Fugir desse processo é cavar uma cova no fundo do abismo da própria escuridão.
Para Exu e Pombagira não há fuga; na tentativa de fugir, há sentença. Paciência e disciplina são os dois primeiros passos que deixo como orientação para todos que desejam buscar uma iniciação na Quimbanda, em qualquer tradição. Medite, observe a natureza, estabeleça um caminho de conexão entre você e a sua espiritualidade, escute o que a sua alma tem a dizer. Busque reconhecer seus medos: de que forma eles se manifestam? Como você lida com eles? Você foge, congela ou tenta enfrentá-los?
O iniciado na Quimbanda observa essas perspectivas da realidade de forma constante. Aquele que nega o próprio aprimoramento, acreditando já estar pronto, está fadado ao peso das sombras.
Qual objetivo para buscar uma iniciação na quimbanda?
Se observarmos a grande exposição que a Quimbanda alcançou nos últimos anos, bem como o aumento de sua visibilidade nas redes sociais, identificaremos que a grande maioria busca poder, enquanto uma minoria busca pertencimento. Quando falo em pertencimento, refiro-me a um pertencer ancestral, no qual a relação com Exu e Pombagira reflete o caminho para uma ancestralidade verdadeira, muitas vezes descrita como visceral.
Já ouvi de inúmeros sacerdotes que, se você cultua Exu e Pombagira e eles não abrem caminhos para a sua realização financeira, então algo está errado. Eu diria justamente o contrário: se Exu e Pombagira não abrem caminhos para a sua espiritualidade ancestral, então há algo profundamente errado. Quando a espiritualidade não proporciona pertencimento cósmico, a iniciação falhou miseravelmente, pois buscar uma espiritualidade que se resume ao dinheiro é o mesmo que usar uma pedra como apoio para não afundar no mar.
O que quero dizer com isso? Que alimentar a realização material em detrimento da sabedoria espiritual prende a consciência à roda de retorno. Não se trata de uma punição cósmica gratuita, mas de um aprisionamento natural da consciência a uma realização que só ocorre onde? Na materialidade física. Percebe o questionamento filosófico necessário?
Não levanto aqui uma bandeira altruísta — longe disso. Defendo que todos têm o direito justo de buscar uma boa vida financeira, se assim o desejarem. O que afirmo é que a espiritualidade deve estar alinhada à espiritualidade; e, se isso indiretamente abrir portas para a realização financeira, ótimo. Nem todo caminho de realização é financeiro: para muitos, a realização está em um lugar aconchegante, em uma área verde, em um lar de acolhimento à beira de um lago.
Por isso, sou categórico: qual é o seu objetivo com uma iniciação na Quimbanda? Espiritual? Financeiro? Se for financeiro, você pode recorrer a um tata, mestre ou nganga para realizar um trabalho de prosperidade; não há necessidade de passar pelo processo iniciático para isso. Em muitos casos, os problemas financeiros das pessoas não têm relação com a espiritualidade, mas sim com questões psicológicas e, até mesmo, com a falta de capacitação técnica. A grande maioria nunca recebeu aprendizado sobre como gerir financeiramente a própria vida e acredita que o problema é espiritual, quando, na realidade, é falta de educação financeira. Quantos ganhadores da Mega-Sena retornaram à pobreza após não saberem administrar os milhões que ganharam? Muitos.
Minha experiência mostra que, geralmente, aqueles que possuem caminho para a iniciação na Quimbanda acumulam vivências profundas com a ancestralidade. São acúmulos de sonhos iniciáticos, visagens de espíritos de linhas ancestrais — sejam Exu e Pombagira, caboclos ou pretos-velhos —, forças encantadas ou até mesmo manifestações físicas desses espíritos e das forças da natureza. Soma-se a isso um forte chamado interno, uma ânsia pelo saber e uma vontade genuína de vivenciar a experiência e o contato verdadeiro com a espiritualidade.
O desejo de fazer parte nasce de um chamado ao pertencimento ancestral que, aos poucos, cresce em intensidade até gerar ansiedade. Em muitos casos, isso expõe a pessoa a situações de vulnerabilidade e, por consequência, a experiências negativas, pois são justamente essas pessoas que mais caem nas mãos de sacerdotes que visam o lucro em detrimento da espiritualidade daqueles que buscam uma iniciação na Quimbanda.
Qual tradição de Quimbanda você vai se iniciar?
Existe uma grande diversidade de tradições de Quimbanda, tais como: Quimbanda Tradicional Gaúcha, Quimbanda Mussurumim, Quimbanda Malê, Quimbanda Luciferiana, Quimbanda Xambá, Quimbanda Congo-Angola, Quimbanda de Almas e Angola, Quimbanda de Angola, Quimbanda Kirumbo, entre muitas outras tradições familiares que se hibridizam por meio de cruzamentos com outras tradições.
Cada uma dessas tradições possui pontos em comum, como o culto a Exu e Pombagira e pilares que variam conforme a fundamentação dos assentamentos, os quais são o principal ponto de força e de conexão com Exu e Pombagira. Outro aspecto marcante é o agenciamento das forças de Exu e Pombagira para feitiços, firmezas e trabalhos diversos. De modo geral, existe uma visão comum entre as tradições, mas cada uma possui particularidades, e são justamente essas particularidades que dão o tom da tradição. É esse tom que, muitas vezes, define qual tradição mais ressoa com você.
Eu, por exemplo, buscava uma tradição de Quimbanda que tivesse uma forte relação com o estreitamento ancestral genealógico, pois hoje a centralidade da tradição da Rama dos 4 Caminhos é o culto aos ancestrais e antepassados, buscando resgatar, na jornada iniciática do iniciado, a sua relação com a ancestralidade genealógica. Diversas outras tradições também possuem ou buscam fundamentos nesse sentido. Em um primeiro momento, as tradições Congo-Angola chamaram minha atenção, mas, ao longo do processo de busca, encontrei diversos obstáculos, como a dificuldade de encontrar sacerdotes na região do Rio Grande do Sul, além dos valores envolvidos na iniciação serem muito altos para a minha realidade financeira.
É sempre necessário refletir até que ponto nossas ansiedades são intuições e até que ponto são desejos pessoais. Isso me fez reaproximar da Quimbanda Gaúcha, e foi nessa busca que encontrei um familiar já iniciado na Quimbanda Tradicional Gaúcha, que se tornou meu feitor, transmitindo-me outorgas e ensinamentos.
Vale tanto pesquisar conteúdos relacionados quanto visitar terreiros de Quimbanda da sua região. Aqui vai uma dica de alguém com experiência em comunicação digital: pesquise por “terreiro de quimbanda perto de mim” e você obterá diversas indicações pelo Google. Como o objetivo inicial é conhecer tradições, esse roteiro pode ser bastante útil. Como comentei acima, vale buscar conteúdos, mas procure também trabalhos acadêmicos, como artigos e teses nas áreas de antropologia, história da religião, teologia e até psicologia. É importante lembrar que isso não habilita ninguém a pertencer a uma tradição, mas amplia o conhecimento e facilita a compreensão de muitos fenômenos importantes da Quimbanda.
Quando lemos Rudolf Otto, em O Sagrado, compreendemos que existe um abismo entre o conhecimento intelectual e a experiência numinosa com o sagrado. Isso quer dizer que leitura sem vivência é um copo vazio.
Existem tradições cujos assentamentos são mais simples, com menor quantidade de elementos, assim como outras cujos assentamentos são maiores e mais complexos, com grande volume de elementos. Isso não significa que uma seja melhor ou mais forte que a outra; cada uma possui suas próprias fundamentações. Como costumo dizer, um assentamento pode conter ouro e pedras preciosas e, ainda assim, não se tornar um ponto de força efetivo, enquanto um assentamento simples de Exu, bem fundamentado, pode responder com força e rapidez.
Há muitos aspectos envolvidos em cada fundamentação, por isso vivenciar diferentes tradições pode abrir portas de percepção — inclusive mais de um terreiro da mesma tradição. Você perceberá que cada casa, cada comunidade e cada liderança possui uma linha de trabalho própria. Haverá casas cujo ponto forte é o trabalho com as almas, outras com as matas, outras com a lira, e assim por diante. Aqui, na Rama dos 4 Caminhos, temos em constante desenvolvimento três linhas de trabalho: Matas, Almas e Encantaria. A Encantaria, contudo, é uma fenda muito particular da nossa tradição, pois dois de nossos tutelares carregam forças e linhas de trabalho diretamente voltadas a ela.
Outro ponto muito importante é que, mesmo após decidir por uma tradição, nada impede que você continue estudando, pesquisando e até buscando outras iniciações. Tanto você quanto alguns de seus ancestrais tutelares podem, inclusive, solicitar que você se inicie em outra tradição, com o objetivo de expandir o escopo e as forças de trabalho.
Aprofundamento antropológico
Pode não parecer de imediato, mas uma tradição de culto aos ancestrais sempre possui, em sua estrutura, valores culturais, costumes e formas de ser que possibilitam ao iniciado e à sua comunidade uma forte consciência de pertencimento ao mundo. Por isso, buscar o saber antropológico pode ser uma ferramenta importante para acessar conhecimentos, vivências e saberes que facilitam a percepção do sagrado.
Existem muitos autores e pesquisadores com trabalhos sólidos em antropologia da religião, especialmente voltados às tradições de culto aos ancestrais. Muitos deles, inclusive, durante o processo de pesquisa, acabaram se iniciando nas próprias tradições que estudavam, o que ampliou significativamente a percepção intelectual aliada à vivência do sagrado. Um aspecto que considero fundamental na antropologia é a relação que o pesquisador desenvolve com o “olhar de dentro” da tradição, somada à reconstrução histórica que percorre para formar uma compreensão mais profunda e significativa da mesma.
Organizar informações, ir a campo, participar de eventos, rituais e festividades, registrar acontecimentos e vivências — todas essas ações contribuem para a construção de uma visão mais ampla das tradições. Com isso, torna-se possível ser mais consciente e assertivo na escolha de qual ou quais tradições seguir e, eventualmente, iniciar-se.
Aprofundamento teológico
Toda tradição possui sua cosmologia, cosmogonia e teologia, que colocam o iniciado em uma perspectiva de relacionamento e pertencimento com o divino e o sagrado. A visão de mundo, a relação com os ancestrais e os pilares que conectam o iniciado à espiritualidade como um todo formam uma base teológica, na qual são definidas e sustentadas as relações de poder, moral e ética.
Como a Quimbanda reúne diversas influências — que, por sua vez, também carregam regionalidades —, ela acaba apresentando uma vasta cosmologia composta por mitos, lendas e narrativas que servem de base simbólica para os rituais e para as demais relações de poder. Há também um entrelaçamento de teologias africanas, indígenas e, em alguns casos, ibéricas. Esse processo pode ser observado sob dois aspectos: por um lado, pode ocorrer a perda de integridade de certos saberes à medida que se misturam e se fundem em algo novo; por outro, essa dinâmica confere à Quimbanda uma imensa riqueza simbólica e de valores.
Aprofundar-se nos aspectos teológicos de uma tradição pode ajudar o buscador a identificar qual visão de mundo, de universo e de relação espiritual ela utiliza como dimensão do sagrado. Esse aprofundamento, inclusive, pode confrontar valores que o próprio iniciado considera determinantes em sua vida.
Aproximação de uma comunidade
Outro fator importante é observar as relações interpessoais da comunidade quimbandeira: os vínculos de amizade, as atividades em grupo, a humildade na busca pelo aprendizado, o comportamento das lideranças — do sacerdote, do pai e da mãe pequena —, a ética nos trabalhos e o impacto que a tradição causa tanto na comunidade interna quanto em seu entorno social.
Observar e participar, quando possível, é fundamental, pois essa comunidade será a sua família espiritual. Não se trata de esperar pessoas sem defeitos, mas de perceber como elas atuam em grupo, como lidam com as dificuldades e como a colaboração se manifesta no cotidiano. Esses aspectos são determinantes: você se sente acolhido? A comunidade transmite segurança? É possível perceber empatia entre seus membros?
Oráculo ancestral e contato liminar
Consultar o oráculo também é muito importante, pois ele aponta direções, caminhos e formas de estabelecer a conexão com a ancestralidade. Não se trata apenas de saber quem são seus Exús e Pombagiras, mas de compreender um destino a ser construído dentro de uma tradição. E o oráculo não diz “sim” para tudo: esteja preparado para muitas negativas, pois ele também estabelece processos de ajuste energético. Um oráculo movimenta forças de abertura e fechamento de caminhos, o que, por si só, já provoca mudanças na jornada espiritual.
Reflita com cuidado sobre as mensagens, confirmações, negativas e orientações que as jogadas apontarem. Não espere compreender tudo de imediato; há camadas de resposta que se desdobram com o tempo, e, em alguns casos, somente após anos certas respostas se revelam. Algumas percepções precisam amadurecer para que possam, enfim, ser colhidas.
Processo de iniciação na quimbanda
Cada tradição de Quimbanda possui seu próprio processo de iniciação, assim como seu tempo específico para que cada etapa aconteça. Paciência e disciplina são necessárias, e isso deve ser levado em conta, pois a ansiedade pode levar à busca por atalhos — e esse é um caminho que dificulta muito a presença de Exú e Pombagira na vida do iniciado.
Independentemente da tradição, todo iniciado deve compreender que a complexidade de saberes que a Quimbanda abriga necessita de tempo — para não dizer muito tempo — de amadurecimento e experiência, não apenas para compreender esses saberes, mas também para compreender as consequências envolvidas em cada processo. Aprende-se que toda ação exige uma troca, requer equilíbrio, e que as forças de Exú e Pombagira não são produtos disponíveis em uma prateleira para uso compulsivo. Não há compra: há troca. E essa troca, muitas vezes, movimenta uma diversidade de energias que um aprendiz ainda não consegue perceber. Ao tentar utilizar atalhos, acaba-se canalizando forças que podem desestruturar a própria vida.
Muitos sacerdotes dizem que isso é “atrair o negativo de Exú e Pombagira” para a vida. Eu prefiro dizer que é a própria natureza cobrando equilíbrio. A força de Exú e Pombagira não tolera comportamento predatório; quem age dessa forma acaba sendo consumido.
Assim, observar e vivenciar cada etapa da forma mais plena possível é uma oportunidade valiosa de aprendizado e amadurecimento para quem deseja tornar-se um sacerdote quimbandeiro.
Na Rama dos 4 Caminhos, seguimos um processo estruturado em três etapas. Na primeira, o membro é batizado e passa a receber acolhimento em nossa comunidade. A partir disso, ocorre uma aproximação com atividades, tarefas e rituais que oportunizam ao membro reconhecer-se como parte da comunidade, além de iniciar suas primeiras percepções de Exú e Pombagira. Essa etapa também funciona como um momento de discernimento, no qual a pessoa pode decidir se deseja ou não avançar para processos mais profundos dentro da tradição.
Após um período mínimo de um ano de vivência na comunidade — e de acordo com a intenção do batizado e as orientações dos ancestrais tutelares da Rama — pode surgir a permissão para avançar às primeiras firmezas. Com elas, o membro passa a estreitar sua relação com a ancestralidade e com os ancestrais que o tutelam. Nessa etapa, ocorre também um aprofundamento iniciático e formativo, preparando o membro para a feitura.
Por fim, realiza-se a feitura de Quimbanda, momento em que o membro se torna, de fato, um iniciado na tradição. Nessa etapa, são realizados os assentamentos de Exú e Pombagira, assim como é passada a mão de faca. Após o período de preceito da feitura, o iniciado recebe suas outorgas finais e, a partir disso, pode seguir como membro da comunidade interna e também iniciar sua própria comunidade, se assim for orientado.
Nesse processo, o iniciado também recebe suas fundamentações oraculares, que lhe concedem um canal direto de comunicação com seus ancestrais tutelares.
Mesmo após receber suas outorgas, o iniciado é encorajado a permanecer vinculado à comunidade, ainda que venha a fundar a sua própria. Isso permite a continuidade do aprendizado oracular, além do aprofundamento nas feitiçarias e em outros rituais da Quimbanda. O aprendizado não se encerra, pois a natureza ritual é uma fonte inesgotável de saberes.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

