A força do Povo da Lomba na Quimbanda Gaúcha

O Povo da Lomba, na Quimbanda Gaúcha, possui grande poder dentro da tradição. Nele, encontramos diversos ancestrais exus e pombagiras populares, assim como outros mais cultuados no Rio Grande do Sul, como Maria Mulambo, Exu do Lodo, Exu Sete Covas, Exu Corcunda, Exu Sete Lombas, entre muitos outros. Essas entidades carregam fundamentos ligados à marginalidade, à travessia espiritual, à transformação da dor e ao contato com forças profundas da ancestralidade e da morte.

É importante observar que o Povo da Lomba está inserido dentro do Reino das Almas, ligado ao cemitério, e, em sua estrutura simbólica e de poder, representa um grande portal liminar dentro das almas. A lomba é um espaço de transição entre o que está em cima e o que está embaixo, entre subida e descida, entre luz e sombra, entre consciência e profundezas espirituais. Dentro da simbologia da quimbanda, a lomba representa um caminho iniciático: quem sobe ou desce uma lomba atravessa estados espirituais e emocionais distintos. Não é apenas um espaço geográfico, mas um território simbólico de passagem, transformação e confronto interior.

Além disso, a lomba possui ao menos três pontos de força muito importantes: o alto da lomba, o meio da lomba e os fundos da lomba. Cada um desses espaços manifesta qualidades espirituais diferentes. O alto da lomba costuma estar relacionado à observação, à abertura de caminhos e ao domínio das forças espirituais; o meio da lomba representa o trânsito, o desequilíbrio e o ponto de escolha entre subida e queda; já os fundos da lomba concentram energias densas, profundas e ancestrais, ligadas à decomposição, à dor, ao sofrimento humano e aos mistérios da morte. Até mesmo o fluxo de movimentação de pessoas, almas, cortejos fúnebres e elementos ritualísticos ajuda a construir o poder espiritual desses pontos. Na visão tradicional da quimbanda, caminhos percorridos continuamente acumulam memória espiritual.

A palavra “lomba” vem do latim lumbus, ligada ao “lombo” e às costas arqueadas. No Rio Grande do Sul, tornou-se um regionalismo utilizado para descrever ladeiras, morros e caminhos de subida íngreme. Simbolicamente, essa ideia do “lombo” também dialoga com o peso carregado pelos corpos marginalizados ao longo da história: escravizados, pobres, trabalhadores e populações periféricas que precisavam subir diariamente esses caminhos. A lomba torna-se, então, uma metáfora espiritual do peso da existência, da sobrevivência e da resistência ancestral.

Entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960, a Quimbanda Gaúcha começava a construir sua própria identidade espiritual nas periferias de Porto Alegre. Nesse contexto, muitos fundamentos da tradição passaram a nascer não apenas dos livros ou das influências externas, mas da experiência direta do povo com os cemitérios, as ruas, os morros e os territórios urbanos marginalizados. A quimbanda gaúcha desenvolveu uma linguagem espiritual profundamente conectada às forças da cidade, da morte e da ancestralidade popular.

Naquele período, o povo de axé precisava subir a Avenida Oscar Pereira, no bairro Azenha, para realizar rituais fúnebres, entregas e trabalhos espirituais nos cemitérios da região. O ato de subir a lomba tornou-se, aos poucos, um movimento ritualístico carregado de significado. Não se tratava apenas de caminhar até um cemitério, mas de atravessar simbolicamente um território entre o mundo cotidiano e o mundo das almas.

O primeiro cemitério da região, e o mais antigo ainda em funcionamento, é o Cemitério da Santa Casa, inaugurado em 1850. O Cemitério da Santa Casa promove mensalmente a Missa em Intenção às Almas, realizada na Igreja São Joaquim, localizada nas dependências do cemitério, sempre no terceiro domingo do mês, às 11h.

José Domingues, um marinheiro português que chegou a Porto Alegre, foi a primeira pessoa livre sepultada no Cemitério da Santa Casa. Já a inocente Eva foi a primeira pessoa escravizada sepultada ali, em 12 de abril de 1850.

Com o tempo, aquele caminho deixou de ser apenas uma subida. A memória popular passou a chamá-lo de “Lomba do Cemitério”, transformando a rua em um verdadeiro símbolo espiritual. Isso ocorreu porque os espaços continuamente atravessados por dor, luto, oração, feitiçaria, despedidas e cortejos acabam absorvendo uma espécie de memória coletiva. Dentro da quimbanda, determinados lugares tornam-se vivos espiritualmente justamente pelo acúmulo de experiências humanas intensas.

Nos fundos dos cemitérios, ao final da lomba, eram enterrados indigentes e pessoas pobres que não possuíam jazigos. Em uma época em que o povo de axé vivia à margem da sociedade, muitos ancestrais foram sepultados justamente nesses espaços esquecidos. Até 1884, as pessoas livres eram sepultadas no interior do cemitério e os escravizados, fora de seus muros. Somente a partir de 1884 todos passaram a ser enterrados no interior do cemitério.

Essa marginalização dos mortos também produziu uma forte carga simbólica. Os fundos do cemitério passaram a representar o território dos esquecidos, dos abandonados e daqueles que foram excluídos socialmente mesmo após a morte. Por isso, muitas entidades ligadas à lomba carregam fundamentos associados à miséria, ao sofrimento humano, à revolta espiritual e à capacidade de transformação através da dor.

A terra retirada das covas acumulava-se nos fundos da lomba e, nos dias de chuva, transformava-se em um lodo espesso, pesado e carregado de simbolismo ancestral. O lodo possui um significado profundo dentro da quimbanda: ele representa mistura, decomposição, fertilidade espiritual e transformação. É um elemento que nasce da união entre terra, água, matéria orgânica e morte. Simbolicamente, o lodo manifesta aquilo que foi desfeito para poder renascer sob outra forma.

Muitos quimbandeiros passaram a reconhecer nesse local o ponto de força de Exu do Lodo e também de Maria Mulambo, que, na Quimbanda Gaúcha, responde nas forças da lomba do cemitério. Maria Mulambo, especialmente, carrega uma simbologia profundamente ligada aos restos, aos trapos, àquilo que foi abandonado pela sociedade, mas que retorna revestido de poder espiritual. Sua presença na lomba expressa a transformação da humilhação em força, da miséria em dignidade espiritual e da dor em potência mágica.

Os fundos do cemitério possuem grandes mistérios dentro da quimbanda. Muitos trabalhos considerados pesados são realizados ali: feitiços de ataque, amarrações e diversos tipos de feitiçaria negativa. Não que nas demais regiões dos cemitérios isso também não ocorra, mas ali existe uma concentração de energia espiritual revoltada, ligada ao sofrimento acumulado, ao abandono social e às emoções humanas mais profundas.

Da mesma forma, trabalhos positivos também podem ser realizados nesse ponto de força, como rituais de cura, reequilíbrio, profundezas emocionais e curas geracionais. Isso acontece porque a lomba não é apenas um espaço de destruição, mas também de transformação. Dentro da lógica espiritual da quimbanda, toda força capaz de adoecer também pode curar, dependendo da forma como é acessada e direcionada.

Contudo, é necessário muito cuidado. A lomba e os fundos da lomba possuem energias muito densas, voláteis e agressivas. O acesso a esses espaços exige proteção, respeito, mente centrada, firmezas em dia e intenções muito claras. A lomba é um território liminar: nela, os desequilíbrios emocionais e espirituais podem ser amplificados. Mentes dispersas diante das dimensões da lomba podem acabar caindo em verdadeiros abismos de sofrimento, obsessão e desorientação espiritual.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as raízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.

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