Pomba Gira ancestral, as raízes profundas da ancestralidade feminina na Quimbanda

Um homem falar do feminino é uma quebra de paradigmas, pois qualquer interpretação inevitavelmente passa pelas limitações de um lugar de fala de quem é fruto, e não a árvore gestadora. Mas, na quimbanda, aprendi que a entrega às potências ancestrais femininas passa por um processo de arrebatamento, no qual nós, homens, precisamos romper com o status quo patriarcal e machista, despindo-nos da armadura rígida endurecida por uma biblioteca de preconceitos construída para manter um modo de ser bélico masculino.

Veja bem: não defendo que o homem deva distanciar-se de sua essência masculina, mas levanto o questionamento sobre o que é esse “ser masculino”, esse estar no mundo, essa presença masculina que tantas vezes é colocada em posição crítica sempre que o homem é estimulado a reconhecer o poder do feminino. Carl Jung afirmava que todo homem possui uma parte feminina, à qual chamou de anima, e toda mulher possui uma parte masculina, chamada animus. Ele atribuía muitos problemas psicológicos à forma como homens e mulheres se relacionavam com esses aspectos internos.

Dito isso, creio com muita força que Pomba Gira é uma ancestral que rompe couraças que aprisionam a mente humana, principalmente aquelas sobrecarregadas por preconceitos de toda ordem. Seja pelo acolhimento daqueles que buscam reintegrar-se à sua totalidade, seja pela força da dor daqueles que resistem ou lutam para permanecer presos a essas mesmas couraças. Pomba Gira é uma imensa — para não dizer a maior — força geradora e criadora na espiritualidade. Tudo o que foi gerado no mundo contém sua força e, por fim, deveria reconhecer em si essa potência; lutar contra isso é, de certa forma, lutar contra si mesmo.

Não estou aqui desmerecendo outras divindades femininas, até porque toda Pomba Gira ancestral, como feiticeira, carrega em sua sabedoria o culto e o acesso a diversas potências de múltiplas divindades femininas. Minha ancestral tutelar, Maria Mulambo, traz em sua ancestralidade a força de uma loa do vodu haitiano chamada Granne Erzulie Dantor, apresentando-se como uma anciã. Por isso, hoje a reconheço como a maior força feminina em minha ancestralidade, embora ela própria carregue potências ancestrais ainda mais antigas. Erzulie Dantor é reconhecida como a loa que liderou espiritualmente a Revolução de Independência do Haiti, carregando em seu modo de ser uma imensa força de guerra, sobrevivência e maternidade feroz — uma imagem muito diferente daquela que aprendemos dentro de uma cultura massificada católico-cristã.

Tudo isso é uma quebra de perspectiva. E talvez seja justamente isso que Pomba Gira proporciona a todo iniciado: uma ruptura profunda com visões endurecidas sobre o mundo, sobre o corpo, sobre o desejo e sobre si mesmo — no amor ou na dor.

Eva mitocondrial e a maternidade energética

Desmanche de trabalho na quimbanda | Feitiços e energias negativas

Todos os humanos no mundo possuem ao menos uma ancestral comum, chamada popularmente como Eva Mitocondrial, que viveu na região hoje conhecida como Zimbábue e Botsuana, no continente africano. 

As mitocôndrias possuem um pequeno DNA próprio, chamado DNA mitocondrial, que é transmitido quase exclusivamente pela mãe durante a fecundação, porque as mitocôndrias do espermatozóide normalmente são destruídas após entrar no óvulo. Ao longo de milhares de gerações, esse DNA sofre pequenas mutações naturais que vão sendo herdadas pelas descendentes. Comparando essas mutações em populações humanas atuais, os geneticistas conseguem rastrear uma linhagem materna contínua até chegar a uma ancestral comum, chamada Eva mitocondrial, que representa o ponto em que todas as linhagens maternas humanas vivas hoje convergem.

A principal função das mitocôndrias é produzir energia para a célula. Elas transformam nutrientes — principalmente glicose e ácidos graxos — em uma molécula chamada ATP (adenosina trifosfato), que funciona como a “moeda energética” do organismo.

Esse processo acontece principalmente através da respiração celular aeróbica, em que a mitocôndria utiliza oxigênio para extrair energia dos alimentos de maneira muito eficiente. Por isso, células que gastam muita energia, como as musculares, cardíacas e neurais, possuem grande quantidade de mitocôndrias.

Ou seja, a mitocôndria é o que nos dá energia para nos mover e ela tem total herança e DNA materno e ancestral feminino.

O apagamento do feminino ancestral

Quimbanda Gaúcha, Quimbanda em Porto Alegre. Culto a ancestrais e antepassados.

Há um movimento contemporâneo que projeta sobre a Pombagira uma hipersexualização do feminino, reduzindo sua potência espiritual a arquétipos limitados de prostitutas e cortesãs. Ainda que muitas ancestrais manifestadas nas correntes da quimbanda tenham vivido experiências ligadas à prostituição, existe um profundo apagamento teológico e ancestral de inúmeras outras mulheres que sustentam essa força: anciãs, curandeiras, guerreiras, mães, lavadeiras, cozinheiras, mulheres negras, indígenas, escravizadas e marginalizadas pela história oficial. A redução de Pombagira a um corpo erotizado revela não apenas uma distorção simbólica, mas também a permanência de um olhar patriarcal incapaz de reconhecer o feminino para além do desejo masculino. Isso também se manifesta na estética das imagens, frequentemente embranquecidas e hipersexualizadas, como se somente determinados corpos pudessem representar o sagrado feminino.

Entretanto, dentro da quimbanda, Pombagira não é apenas sensualidade: ela é potência ontológica de geração, transformação e movimento. Ela é senhora dos mistérios do desejo, mas não para aprisionar o ser humano em compulsões; ao contrário, para revelar que o desejo é uma força espiritual que precisa ser compreendida e integrada. Quando desconectado da consciência ancestral, o desejo torna-se vício, vazio e consumo; quando sacralizado, transforma-se em força criadora, autonomia e reintegração da alma consigo mesma. Por isso, Pombagira rompe couraças psíquicas e espirituais endurecidas pelo medo, pelo moralismo e pelos preconceitos herdados. Sua presença obriga o iniciado a confrontar aquilo que foi reprimido dentro de si.

Linhas ancestrais como as Cacurucaias, Marias Mulambos, Rasga-Mortalhas, Marias Farrapos, do Forno e tantas outras vêm sendo lentamente apagadas das correntes contemporâneas. E, junto delas, desaparecem bibliotecas inteiras de saberes mágicos, perspectivas cosmológicas e formas ancestrais de compreender o feminino. Existe uma urgência espiritual em conscientizar os iniciados para que deixem de romantizar a objetificação de Pombagira como simples projeção das frustrações sexuais da coletividade. Pombagira é poder entronado na totalidade das fases lunares do feminino: ela é fertilidade e ruína, acolhimento e guerra, beleza e abismo, erotismo e maternidade ancestral. Ela contém tanto a ferocidade da leoa quanto a imensa doçura da mãe-baleia.

Levo como fundamento iniciático os ensinamentos de minha tutelar, Maria Mulambo, anciã que atua através da ressignificação da experiência humana, reconstruindo aquilo que foi quebrado pela dor e pela exclusão. E reconheço também a força ancestral de Erzulie Dantor, mãe guerreira do vodu haitiano, cuja potência espiritual atravessa batalhas, sobrevivência e proteção dos marginalizados. Sua força rompe completamente com a imagem domesticada do feminino construída pela tradição católico-cristã ocidental. Nela, o feminino não é submissão, mas soberania espiritual.

É nas profundezas da alma humana que Pombagira ergue seu trono. É lá que ela acolhe os rejeitados, os partidos pela vida, os marginalizados e aqueles que perderam o pertencimento ancestral. Seu acolhimento pode manifestar-se em ternura, cura e amor, mas também em ruptura, confronto e desmantelamento das ilusões humanas. Porque toda mãe ancestral também corrige, cobra e pesa sobre aqueles que deturpam sua força. E há uma verdade espiritual antiga nisso: a mãe que acolhe gera vida, mas a mãe que nega torna-se a maldição da alma sem raízes. Pois o abandono ancestral é um dos maiores abismos que um espírito pode experimentar. Aquele que rompe com a própria ancestralidade rompe também com o ventre simbólico que sustenta sua existência. E, como se diz no saber popular, maldição de mãe pega — principalmente quando a própria mãe é uma potência ancestral entronada no coração do mundo espiritual.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as raízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.