Quanto custa um assentamento de exu na quimbanda? Uma crítica social
Aqui levanto, mais uma vez, a bandeira da crítica social em defesa de uma Quimbanda que respeite seu solo ancestral e sua ética de resistência social, onde os caminhos são abertos aos pés descalços daqueles que vertem o suor do sacrifício na terra: pessoas simples, periféricas, marginalizadas, abandonadas pelo sistema. Uma Quimbanda que promove o empoderamento do pertencimento às forças ancestrais, forças essas que nos reposicionam na relação com o mundo, nos dando uma identidade que, antes marginalizada, alça o poder dos reinos espirituais.
Aqui também levanto, mais uma vez, a bandeira do resgate do poder feminino ancestral e presente, das mulheres que resistiram e resistem ao tempo brutal de uma estrutura patriarcal machista. Mulheres que perdiam sobrenomes e vínculos familiares ao se casarem, muitas vezes obrigadas e tratadas como produtos de ligação entre famílias. Essas mulheres pagaram o maior preço ao resistirem à força brutal do apagamento, para que fosse preservado, o máximo possível, o culto aos ancestrais.
Em uma realidade em que a necessidade mantém sempre abertas as portas da fome e da carência de necessidades básicas, o custo para manter vivo o culto aos ancestrais deve ser coerente com a realidade social daqueles que mais necessitam da ancestralidade.
Dar força a quem tem pode abrir caminho para um tirano; dar força a quem não tem pode derrubar um tirano.
Oráculo e a voz ancestral de exú e pombagira na quimbanda
O oráculo de Exú sempre será a principal ferramenta de comunicação com a ancestralidade na Quimbanda. É por meio do oráculo que caminhos são abertos, dúvidas são sanadas e forças são confirmadas. Em um assentamento de Exú na Quimbanda, o oráculo aponta desde os elementos necessários, passando pelos pontos de força nos reinos para a coleta desses elementos, até a forma como eles podem ou devem ser coletados. Pelo oráculo, o sacerdote de Quimbanda busca alinhar ao máximo o processo de feitura junto ao iniciado.
Entretanto, o custo de um oráculo pode se tornar a primeira prova de fogo para o futuro iniciado, pois, em muitos casos, o valor do jogo pesa no bolso. Existem jogadas que variam de R$ 100 a R$ 500, e até mesmo jogos que chegam a R$ 1.000. Se pararmos para analisar a situação hipotética de uma pessoa cujo ganho mensal é de um salário mínimo, isso se torna muito difícil, para não dizer impossível.
Para mim, isso é um absurdo, pois ver um ancestral ter sua voz abafada por cifras é algo totalmente contrário a uma jornada sacerdotal. Se o sacerdote é um guia nos caminhos da ancestralidade, é dever dele apontar a direção. Ver um sacerdote pesar a mão no valor de um oráculo para uma pessoa humilde, inviabilizando o processo iniciático de alguém que mais necessita, é antagônico às responsabilidades de um sacerdote para com a ancestralidade.
Levantando um reino de exú e pombagira
A estrutura física do assentamento geralmente concentra os maiores custos para o iniciado. Dependendo da tradição, esses custos podem, de fato, impossibilitar que pessoas mais humildes ingressem na tradição. Eu mesmo já ouvi relatos de casos em que os custos com materiais ultrapassaram R$ 8.000, podendo aumentar ainda mais, a depender das firmezas e de outros rituais que podem compor todo o processo de iniciação.
Minha crítica reside no ponto em que o essencial deixou de responder à força de Exú e Pombagira. O coração dos assentamentos sempre foram as pedras, as terras e o alguidar. Há ainda a compreensão de que, assim como um reino, o assentamento cresce, e outros elementos podem ser agregados com o tempo.
Será que o essencial não basta para a iniciação de pessoas mais humildes ou daquelas que, no momento, enfrentam dificuldades financeiras? Se perguntado ao oráculo, o ancestral responderia que não? O ancestral negaria culto?
O sangue e o pacto ancestral com exú e pombagira
O ato ritual de maior impacto na iniciação e feitura da quimbanda é o sangue sacrificial que vai alimentar, dar vida ao assentamento de exú e pombagira. Na quimbanda tradicional gaúcha o básico é uma galinha para pombagira e um galo para exú. Podem haver exceções, mas de forma geral essa é a regra. E a carne das aves é reaproveitada, o que faz circular o axé entre as pessoas, pois é um axé de vida, uma carne sagrada, uma carne que dá vida a espiritualidade, uma carne que alimento o elo entre o iniciado, comunidade e ancestrais.
Uma galinha ou galo para sacrifício religioso na região metropolitana de Porto Alegre pode custar entre R$ 50 a R$ 80. Se levarmos em conta que são duas aves pode chegar a R$ 160,00. Mas há assentamentos que vão um quatro pés além das aves, o que pode tranquilamente ultrapassar os R$ 1.000 em animais para o sacrifício. Além disso, temos certos rituais que podem ser pedidos pombos, por exemplo, que são mais caros que o galo e a galinha, o que é muito contraditório. Um pombo pode custar de R$ 100 a R$ 150 só para registro de custos.
O que é importante observar é o quanto os materiais e animais somados podem ultrapassar tranquilamente em média R$ 3.000 em materiais para os dois assentamentos, para exú e pombagira.
A mão de faca e a mão do sacerdote
O custo da mão de faca do sacerdote talvez seja o ponto mais crítico em relação aos valores cobrados, pois o sacerdote pode tanto aliviar esse custo quanto pesar significativamente no bolso do iniciado. Há sacerdotes que cobram, em média, R$ 500, mas existem iniciações em que o valor da mão ultrapassa R$ 200 mil. Isso não é invenção, pois há processos iniciáticos compostos por graus, nos quais a soma dos diferentes momentos em que a mão do sacerdote fundamenta o processo de iniciação ultrapassa esse valor.
Na Quimbanda tradicional gaúcha, a feitura é o momento em que o iniciado recebe seus assentamentos, a faca de trabalho e o rito de passagem no qual a mão de faca é transmitida. O que se observa hoje, porém, é que muitos fragmentaram a feitura, mantendo o iniciado preso à mão do sacerdote por mais tempo e gerando custos elevados. Isso ocorre porque, toda vez que o iniciado precisa cortar para seu Exú e sua Pombagira, um valor é pago pela mão do sacerdote, fazendo com que o custo para acessar a mão de faca se torne excessivamente pesado para o iniciado.
Sacrificando o profano na vida iniciática
Quando o sacrifício pelo suor se tornou sacrifício pelo dinheiro. A análise crítica é objetiva: quem muito tem dificilmente sacrificará o próprio bem-estar; já quem nada tem, muitas vezes, só tem a si mesmo para sacrificar. É aqui que entra a observação dos sacrifícios dos “eus”, das diversas máscaras que carregamos, para que tenhamos profundidade suficiente para encarar nossas sombras e delas ressurgir com um potencial transformador. Quem muito tem raramente sacrificará seus “eus”, sua forma de ver o mundo e, principalmente, a forma como o mundo o vê. Não digo que seja impossível, mas que é improvável.
O que vemos é uma torrente de pessoas que se iniciam para acumular poder, gerar medo e enriquecer ainda mais, para além do bem-estar que já possuem. Enquanto isso, aquele que não tem luta pelo mínimo e, para isso, doa-se ao máximo.
O abastado ilude-se ao dizer que abandonou a vida profana, mas faz essa afirmação em um resort de “conexão com a natureza”, com um belo café da manhã, pratos refinados e uma vista para o mar de causar inveja.
A pergunta que fica é: para quem é a Quimbanda?
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as raízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

