O renascer nas sombras na feitura de quimbanda

Integrar os potenciais ocultos nas próprias sombras delimita um ponto importante no rito de passagem da feitura de Quimbanda, no qual o iniciado ultrapassa a fronteira da vida profana para a vida sagrada. Contudo, essa fronteira é um estado liminar que separa — e ao mesmo tempo conecta — as percepções entre vivos e mortos, entre medo e coragem, entre displicência e arte. Por isso, o iniciado na Quimbanda torna-se um mestre das artes sombrias, pois aprende a reconhecer os caminhos obscuros da alma, por meio dos quais acessa forças profundas — forças representadas por Exu e Pombagira, forças tectônicas, telúricas, densas e potentes.

Trata-se de um renascer na escuridão das profundezas da terra, morada dos antepassados e ancestrais, muitas vezes adormecidos em memórias atávicas que aguardam um despertar transformador.

A feitura de Quimbanda constitui um ponto divisor de entrada nos reinos de Exu e Pombagira, momento em que o quimbandeiro passa a ser reconhecido por uma comunidade ancestral que o mune de axé, outorgas e magias, tornando-o senhor dos caminhos. A partir de então, em comunhão com seus tutelares, ele passa a atuar em simbiose como guardião dos espaços liminares, senhor da transição entre luz e trevas e do fluxo contínuo entre trevas e luz. É na feitura de Quimbanda que o iniciado dá início à sua jornada na encruzilhada entre mundos.

Na feitura de Quimbanda, o iniciado também passa a ser reconhecido como uma liderança, pois, agora capacitado nas artes das sombras e na magia de Exu e Pombagira, torna-se requisitado para auxiliar aqueles que buscam, nessas forças, cura, prosperidade, defesa e caminhos para suas realizações. Por meio de um profundo aprofundamento simbólico, o iniciado passa a perceber, em seu entorno, a manifestação das forças de Exu e Pombagira, tornando-se agente dessas forças e, portanto, um verdadeiro ponto de cruzamento energético.

O assentamento de exú e pombagira na quimbanda

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Na feitura de quimbanda o iniciado realiza junto ao seu feitor de quimbanda o assentamento de exú e pombagira tutelares. Cada tradição tem seus fundamentos no processo de criação a assentamento que geralmente envolve o uso de diversos elementos simbólicos, energéticos e pactuação, além de tempo envolvido nas etapas dos preceitos. O importante é ter em mente que muitos dos preceitos respeitam ciclos, seja de tempo, nascimento e morte, maturidade e preparo de elementos, assim como um momento importante onde ocorre um estreitamento entre o iniciado e seu exú e pombagira.

É junto ao assentamento que o iniciado passa a prestar culto a exú e pombagira, assim como realizar diversas outras ações como feitiços, amarrações, feitiços de prosperidade, de defesa e ataque, assim como a entrega de oferendas. O assentamento se torna a centralidade da rotina do iniciado junto aos seus ancestrais tutelares.

O iniciado após finda o período de preceito de criação do assentamento deve leva-lo para sua casa ou local onde o culto a exú e pombagira será estabelecido. Existem tradições e rama familiares de quimbanda que possuem formas diferentes de feitura do assentamento assim como tempo até que o iniciado tenha permissão de leva-lo para seu local de culto. Mas na nossa rama acreditamos que o culto deve ser fortalecido ao máximo na rotina do iniciado por isso o assentamento é sempre entregue após findar o período de preceitos envolvidos na feitura.

A mão de faca na quimbanda gaúcha

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

A mão de faca talvez seja um dos temas mais polêmicos nas tradições de Quimbanda, pois está diretamente ligada aos rituais sacrificiais para Exu e Pombagira. A mão de faca compõe os preceitos da feitura na Quimbanda, na qual, além da primeira faca sacrificial, o iniciado recebe a outorga do direito ao sacrifício animal para Exu e Pombagira. É por meio dessa outorga que o iniciado passa a ter o direito de se tornar feitor de outros iniciados.

Na nossa tradição, cada ancestral tutelar — Exu e Pombagira — possui uma faca sacrificial própria. Assim, todo Exu é assentado com a faca do Exu do feitor, da mesma forma que toda Pombagira é assentada com a faca da Pombagira do feitor.

É também por meio da mão de faca que o axé da tradição é transmitido, formando, assim, uma corrente energética contínua que sustenta a tradição da rama familiar de Quimbanda.

Existem tradições que consagram diversas outras facas para propósitos específicos. Na nossa rama, podemos ter outros ancestrais assentados, o que, além de ampliar as fronteiras da comunidade ancestral, também incorpora as respectivas facas desses ancestrais. Isso amplia as forças envolvidas nos rituais sacrificiais e fortalece a entrega de oferendas aos seus respectivos reinos.

É importante compreender que é pela mão de faca que os assentamentos são alimentados, assim como ocorre a renovação da vida e do axé desses assentamentos. A mão de faca multiplica o axé da tradição e, ao mesmo tempo, representa a responsabilidade do legado e da transmissão contínua dessa tradição.

Um pacto ancestral com exú e pombagira

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Podemos dizer que a iniciação na Quimbanda é uma jornada de vida que continua até mesmo no pós-morte. Contudo, é na feitura de Quimbanda que o iniciado adentra essa jornada, na prática, como quimbandeiro. E é a prática que, ao longo do tempo, torna o iniciado um mestre.

Posso afirmar que as etapas que antecedem a feitura de Quimbanda podem ser consideradas mais um período de prova do que propriamente uma etapa da feitura. É como se tudo, até então, fosse uma grande preparação, que envolve persistência, despertar da consciência, disciplina mental e emocional, além da coragem de vislumbrar as sombras do nosso próprio abismo e encarar medos e temores que nos impedem de alcançar a plenitude do ser. Exu e Pombagira são ancestrais senhores dos espaços liminares e, junto a nós, atuam como agentes fundamentais de fortalecimento, auxiliando-nos a encarar nossas sombras e, a partir delas, despertar virtudes e potências que nos tornam mais íntegros e senhores do nosso próprio caminho.

Por isso, afirmo que a feitura na Quimbanda é um marco no qual assumimos nossas sombras e nelas renascemos, plenos de consciência de todo o nosso potencial. Não se trata de uma visão cristã trevosa, mas de uma profunda jornada de autoconhecimento.

É nesse processo que o iniciado assume, junto a Exu e Pombagira, o pacto de trilhar o caminho das sombras, despertando todo o potencial que nelas se oculta e que, muitas vezes, nos bloqueia de nossa plenitude espiritual. É com a força de Exu e Pombagira que o iniciado, agora feito na Quimbanda, torna-se também um guia das sombras para sua comunidade. Por isso, a responsabilidade assumida nesse pacto ancestral é imensa e deve ser honrada com consciência, ética e devoção.

A feitura na Rama dos 4 Caminhos

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Na Rama dos 4 Caminhos, as fundamentações da feitura seguem os preceitos da Quimbanda Gaúcha tradicional. Contudo, também existem fundamentações complementares próprias da nossa rama.

De forma geral, a feitura na nossa tradição é realizada em três etapas. Na primeira etapa, o indivíduo é batizado para a entrada em nossa comunidade, passando a ter permissão para participar de ritos, atividades internas, eventos, grupos de estudo, pesquisas e práticas rituais voltadas ao fortalecimento de sua relação com a ancestralidade.

Na segunda etapa, o iniciado recebe suas primeiras firmezas de Exu e Pombagira, iniciando o culto individual junto aos seus ancestrais e, com isso, estreitando essa relação.

Já na terceira etapa, o iniciado passa pelos preceitos formais da feitura, momento em que são realizados os rituais de assentamento e de mão de faca. Em nossa tradição, ainda dentro dessa terceira etapa, o iniciado também passa pelas fundamentações para a criação de seus oráculos junto aos tutelares. Esse oráculo tende a crescer em complexidade ao longo do tempo, abrindo a possibilidade de se tornar um instrumento completo e suficientemente elaborado para o desenvolvimento da percepção necessária à oraculação para outras pessoas.

É importante destacar que a feitura de Quimbanda na Rama dos 4 Caminhos é exclusiva para pessoas que receberam permissão para compor a comunidade da rama. Para isso, o interessado passa por um processo de oraculação, seguido da decisão do sacerdote da rama. Isso não impede que alguém possa ter firmezas ou assentamentos próprios fundamentados dentro da nossa tradição; nesses casos, a oraculação também é realizada para orientar esse processo.

Contudo, compor a rama envolve uma série de rituais, aprofundamentos, feituras, firmezas e aprendizados que tornam o indivíduo parte da família. E, como família, somos mais fortes. É a coesão comunitária que transforma a rama em uma tradição viva.

Você pode entrar em contato comigo para esclarecer dúvidas e buscar maior clareza sobre firmezas, assentamentos e a possibilidade de ingresso na rama.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.