Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social

O fundo do bolso. Esse é o relato da grande maioria das pessoas que buscam um assentamento de Exu na quimbanda. A procura por uma conexão mais genuína com os ancestrais acaba gerando muitos traumas em diversas pessoas. Uma tradição que nasce no culto aos antepassados e ancestrais de matrizes bantu, que passa pela fusão de elementos de outras tradições afro-diaspóricas, indígenas e, em certa medida, ibéricas, e que surge de um grande processo de resistência dos pobres, favelados e excluídos, hoje acaba caminhando para um pedestal da elite.

Sacerdócios que ultrapassam os R$ 300 mil separam o sagrado daqueles que mais necessitam e o entregam àqueles que buscam apenas poder. É inconcebível imaginar ancestrais como as pombagiras — mulheres que, em vida, foram excluídas, lavadeiras, prostitutas, empregadas, cortadoras de cana — “exigirem” ou tolerarem que seus sacerdotes representantes cobrem valores que bloqueiam o acesso ao sagrado ancestral das pessoas mais pobres e humildes, com pouco acesso à informação, mas que pagam com suor pelo acolhimento de seus ancestrais.

Tomemos como exemplo exus que, em grande parte, são de negros e indígenas escravizados, que trabalharam cortando cana, quebrando pedras, plantando e colhendo sob um sol escaldante. Como poderiam eles acolher pessoas que mantêm viva a cultura colonizadora, que só reconhece uma espiritualidade comprada por altos valores como demonstração de poder? É uma incoerência. Claro que encontraremos defensores dos aspectos ibéricos da quimbanda utilizando isso como porta de entrada para uma lógica colonizadora dentro da própria tradição, separando as pessoas em castas e camadas sociais, nas quais o verdadeiro divisor é a capacidade financeira. Repito: a incoerência social é enorme e fortalece um apagamento, um embranquecimento das tradições, que não reconhecem, nem mesmo na estética, a cultura dos ancestrais. Projeta-se sempre a imagem de pombagiras brancas, prostitutas cortesãs, e de exus como lordes de capa e cartola, brancos, senhores de muitos bens e influência.

Confirmação de exú e pombagira no oráculo

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O primeiro ponto crítico no custo para o assentamento de Exu e Pombagira na quimbanda são as confirmações das forças que regem a ancestralidade do iniciado. Uma vez confirmadas essas forças, inicia-se uma série de perguntas e respostas para definir os elementos energéticos e simbólicos que irão compor o assentamento. Além desses aspectos, o sacerdote também pode oracular para levantar questões que necessitem de intervenção, a fim de ajustar o campo energético do iniciado, como banhos, preceitos que antecedem a feitura de quimbanda, questões ancestrais e formas de resolver geradores de negatividade, como traumas e dívidas ancestrais.

Esse oráculo pode variar de R$ 200 a R$ 500 por jogo, o que pode pesar ainda mais no bolso do futuro iniciado. Não sou contra a cobrança pelo jogo: trata-se de um aprendizado que exige muita dedicação, além de o oráculo ser um portal de energias ancestrais que também demanda muito do oraculista em termos energéticos. Contudo, há uma linha tênue entre atender a uma vontade legítima — tirando dúvidas, por vezes até egóicas, sobre caminhos a serem abertos para a ancestralidade — e ignorar a dimensão concreta da realidade financeira do futuro iniciado.

O que se vê em diversos relatos é que muitas pessoas com forte presença ancestral não conseguem avançar na feitura de quimbanda porque os custos realmente bloqueiam esse passo, e esse bloqueio começa já no oráculo. Imaginemos um cenário real: uma pessoa que divide aluguel, que trabalha em um emprego mal remunerado e que muitas vezes deixa de ter lazer para economizar a passagem de ônibus — como terá disponíveis R$ 300 para um jogo? Isso não é meritocracia, é falta de senso de equidade.

Muitos sacerdotes falam sempre em merecimento, mas o fazem sem empatia ou senso de realidade. É muito fácil defender a meritocracia quando se tem condições materiais para tal. Só que isso não é a regra, é a exceção. Se alguém não enxerga essa realidade, está socialmente cego. A quimbanda é território ancestral, social e político — e quem nega isso, em geral, não está inserido em um contexto de vulnerabilidade, mas pratica uma religião voltada para a classe média alta: com um policiamento que protege e não mata; com saneamento coberto e não a céu aberto; com escolas dotadas de infraestrutura e não de materiais sucateados; com clínicas e hospitais particulares e não com filas de dez ou doze horas em UPAs. Quem levanta bandeira contra a política de terreiro é porque vive em um mundo de privilégios e condições.

Fundamentos do assentamento de exú e pombagira

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O que é essencial, o que é fundamental, o que é coração e pilar em um assentamento? Se mergulharmos em um estudo histórico e antropológico da quimbanda e do culto a Exu e Pombagira — e até mesmo em tradições de culto aos mortos — vamos identificar um elemento central no culto aos ancestrais: a pedra. É a pedra que se apresenta como fundamento, como o primeiro alicerce de tudo aquilo que vem depois. Talvez, após a pedra, vejamos o uso de terras, ervas e do sangue. Os demais elementos, porém, já podem ser contextualizados dentro de determinadas tradições.

As imagens, tão comuns hoje, podem ser compreendidas dentro de um contexto herdado do sincretismo, no qual santos foram associados aos orixás, o que influenciou fortemente — embora não exclusivamente — a criação de imagens de gesso representativas. É claro que as imagens de Exu e Pombagira dentro da quimbanda não são sincréticas em si, mas a cultura do uso de imagens carrega fortes influências desse período sincrético das tradições afro-diaspóricas. Sempre digo que um assentamento simples, mas bem fundamentado, pode responder plenamente, assim como um assentamento repleto de ouro, pedras preciosas e jóias pode não responder absolutamente nada.

Grandes assentamentos também acabam justificando grandes valores. É muito raro encontrar um sacerdote que jogue o oráculo para saber se o simples basta para assentar a força de Exu e Pombagira. Muitos iniciam o oráculo perguntando por elementos de alto valor e custo, e isso pode pesar ainda mais no bolso do futuro iniciado. Quantos casos de quimbandeiros ouvimos em que o Exu ou a Pombagira são presenteados com algo de grande valor e, no exato momento do presente, esse objeto se desfaz — não como sinal de desagrado, mas como demonstração de desapego e de um chamado à simplicidade e à humildade? A materialidade e o valor financeiro são reflexos nossos, não do ancestral. Pensar diferente disso é desonrar sua plenitude enquanto espírito ancestral livre.

Preparo e consagrações de elementos

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Limpezas, consagrações com ervas e tempos de firmeza são exemplos de rituais que podem preceder a feitura de quimbanda e o assentamento de Exu e Pombagira. O que acontece é que tanto a quantidade quanto os tipos de ervas podem se tornar dificultadores nos preceitos, principalmente para quem mora em áreas muito urbanas, com pouco acesso à mata. É nesse ponto que a justificativa para a cobrança de valores pode pesar ainda mais no bolso do iniciado.

Se iniciar na quimbanda é também a busca pelo pertencimento ancestral, então a territorialidade ancestral começa com o resgate da vivência com a natureza. Por isso, é importante que, mesmo vivendo em área urbana, o iniciado seja estimulado a buscar maior contato com a mata — e, para isso, praças e parques podem se tornar vias de acesso. É nesse resgate da relação com a natureza que o iniciado vai descobrir uma imensidão de ervas e árvores sagradas, que poderão auxiliá-lo em muitos momentos de sua jornada iniciática na quimbanda.

O feitor, tata ou nganga pode incentivar essa busca no futuro iniciado e, inclusive, confirmar ervas coringas que sejam mais facilmente encontradas para macerações e consagrações. O aprendizado já começa aqui, pois existem formas adequadas de colher e despertar as energias dessas ervas. No entanto, vemos muitos sacerdotes assumindo a colheita e os rituais de despertar das mesmas, privando, já no início, o futuro iniciado desse conhecimento.

Muitas ervas, quando compradas, tornam-se caras, embora possam ser facilmente colhidas em praças e parques. O mesmo ocorre com as favas, que frequentemente são essenciais nos assentamentos e nas guias de trabalho. Existem favas cuja unidade pode chegar a R$ 30,00, e o iniciado necessitará de várias para compor seu assentamento e sua guia. Contudo, com paciência e orientação, muitas delas podem ser encontradas em árvores presentes também em parques e praças.

O sacrifício e o pacto com exú e pombagira

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Aqui entramos em um ponto de grandes polêmicas, que envolve a definição dos animais que serão sacrificados na feitura do assentamento de Exu. Existem sacerdotes que já começam o oráculo perguntando se irá um “quatro pés”, o que pesa ainda mais no bolso do iniciado, pois um animal de quatro patas pode tranquilamente ultrapassar os R$ 1 mil, além de ainda poder incluir mais aves, aumentando ainda mais os custos. Já vi sacerdotes que iniciam o questionamento no oráculo pelo mínimo, por uma ave, o que ajuda muito o iniciado. Grandes sacrifícios podem até ser necessários, mas, com o tempo, percebe-se que em muitos casos isso serve para engrandecer o ritual e justificar uma mão de corte mais cara. Na quimbanda tradicional gaúcha, por exemplo, costuma-se definir um galo para Exu e uma galinha para Pombagira, salvo raras exceções — e, geralmente, essas exceções vêm diretamente do próprio Exu ou Pombagira do iniciado.

O sacrifício sela o pacto com o ancestral, seja ele Exu, Pombagira, caboclo ou preto-velho. O sangue também dá vida, um “start” no assentamento. E, por isso, fica o meu questionamento: se é um início, uma ave não basta? É realmente necessária tanta energia vital para um começo, para uma iniciação que deveria priorizar a relação direta entre o iniciado e o ancestral assentado? Se o iniciado recebe sua faca junto ao assentamento, o que lhe possibilita posteriormente realizar outros cortes para seu ancestral e para trabalhos, por que não iniciar com o mínimo necessário? Se, já na feitura, o iniciado pode receber a fundamentação de um oráculo capaz de confirmar tudo isso, reforço: por que não começar com o essencial e permitir que ele construa essa relação oracular com seus ancestrais, confirmando gradualmente elementos agregadores no assentamento, cortes, firmezas e demais fundamentos sagrados?

Trata-se, sim, de uma crítica social, pois o caminho que permitiria às pessoas de baixa renda se iniciarem na quimbanda acaba sendo soterrado pela ganância e pela mentalidade capitalista colonizadora, que coloca preço e status financeiro onde a resistência ancestral deveria reivindicar pertencimento para os excluídos e marginalizados. Como ser tutelado por uma anciã Maria Mulambo, que traz em sua alquimia a transformação de tudo aquilo que é rejeitado, que revela valor onde outros não veem valor — valor pela essência, pela luta, pela resiliência e pela adaptação para a sobrevivência — e não pelo luxo, pelo exagero, pela ganância e pelo poder?

Que as forças dos ancestrais da Rama dos 4 Caminhos continuem abrindo caminhos para aqueles que verdadeiramente desejam cultuar os antepassados e ancestrais, e não o poder que coloniza.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.