O que é ser iniciado na Quimbanda?

O culto a Exú e Pombagira: raízes e saberes ancestrais

Do início ao fim — ou melhor, do início em vida à jornada no pós-morte — o iniciado tem como caminho o culto a Exu e Pombagira. A relação entre o iniciado e os ancestrais é uma relação de constante integração, unificação e simbiose, na qual a vida profana passa por um processo de purgamento. Trata-se de um processo de morte e renascimento constantes, mas também de um caminho de potenciais e virtudes que tornam o quimbandeiro mestre nas artes das sombras, da cura, da prosperidade e do ataque.

Essa jornada iniciática é um retorno à ancestralidade, aos antepassados, às raízes ancestrais que vivem na existência do iniciado. Memórias adormecidas são despertadas, vínculos são restaurados, e uma árvore genealógica ancestral passa a se recompor na continuidade e na resignificação do culto a Exu e Pombagira. No entanto, é preciso abrir a perspectiva de que Exu e Pombagira não estão limitados ao escopo da Quimbanda e, apesar de se apresentarem dessa forma, trazem uma estrutura simbólica e teológica próprias. Minha tutelar e matriarca da Rama dos 4 Caminhos, a Senhora Anciã Maria Mulambo, é uma ancestral que traz a força da loa Granne Erzulie Dantor, uma força cultuada no vodu haitiano. Isso não significa que seu culto seja um culto vodu dentro da Quimbanda, mas sim que sua força e seu saber ancestral são raízes que percorrem o tempo e a história.

Na minha família, os ancestrais e antepassados começaram a se manifestar quando a busca pela árvore genealógica foi iniciada. Por isso, o processo de resgate genealógico tornou-se um pilar da nossa tradição. Como orientação àqueles que desejam trilhar um caminho rumo à iniciação na Quimbanda, deixamos a dica de mergulhar na história de sua própria família. É um processo que, em algum momento, torna-se doloroso, pois feridas familiares são expostas; contudo, curas geracionais acontecem e, com essa cura, os laços ancestrais são estreitados.

Assentamento para Exú e Pombagira: moradas de poder e âncoras para os reinos de quimbanda

Todo iniciado na Quimbanda deve possuir assentamentos de Exu e Pombagira para manter o culto presente em sua rotina. Na nossa tradição, todo iniciado tem seus assentamentos criados durante o processo de iniciação. Esses assentamentos são levados para um local onde o iniciado manterá o culto a Exu e Pombagira.

A vida de um iniciado torna-se sagrada no momento em que ele estabelece, em sua existência, uma rotina sagrada. É dever do iniciado manter o culto vivo em sua vida, assim como possuir os fundamentos necessários para a criação das bases de um oráculo, a fim de facilitar a comunicação com Exu e Pombagira.

Os assentamentos são moradas de poder — não no sentido de que Exu e Pombagira habitem ali, mas porque constituem pontos de força: âncoras que conectam o iniciado a Exu e Pombagira e que abrem caminhos para o reino ao qual pertencem. Cada tradição possui seus próprios fundamentos para a criação de um assentamento, nos quais cada ancestral define os elementos que irão compô-lo, além daqueles essenciais que ligam o iniciado ao ancestral e à tradição da qual faz parte. Alguns assentamentos podem ser mais complexos, enquanto outros são mais simples, mas isso não determina se um assentamento é mais potente ou poderoso do que outro. Um assentamento simples, porém bem fundamentado, pode tornar-se um canal potente de conexão ancestral.

Além disso, os assentamentos podem crescer como um ser vivo, incorporando novos elementos conforme o ancestral os solicita. Nada em um assentamento existe por capricho: tudo possui sentido e função, ampliando ou canalizando as forças que o ancestral utiliza.

Todo iniciado percebe que o assentamento conecta e alinha camadas da consciência — mental, emocional, física e espiritual. Por isso, todo iniciado deve buscar o equilíbrio em sua jornada, pois acessar a força de Exu e Pombagira em desequilíbrio é trazer para si o peso da justiça.

Os sacrifícios e pactos na quimbanda

Há um fundamento, se assim podemos dizer, no qual o pacto e o sacrifício ritual podem não apenas ligar o ancestral ao iniciado e ao assentamento dentro de uma linha de culto, mas também estabelecer um sacrifício não animal: a entrega de um ou mais aspectos de nossas próprias vidas. Em um primeiro momento, isso pode parecer — ou até mesmo causar — sofrimento ou desânimo, mas muitos aspectos da nossa vida que consideramos “bons” podem, na verdade, limitar nosso desenvolvimento como iniciados.

Por exemplo, desfrutar de festas e viagens pode parecer algo positivo; contudo, para um iniciado, certas rotinas podem dispersar o foco e comprometer o desenvolvimento iniciático. Assim, é necessário estar disposto a sacrificar parte significativa da vida profana para ingressar em uma nova vida sagrada.

Aceitar a mudança, porém, não significa que o caminho será fácil. Muitas vezes, esse processo gera sofrimento. A iniciação na Quimbanda abre as portas do porão do nosso inconsciente, onde somos chamados a purgar das sombras sentimentos e emoções nocivos ao nosso desenvolvimento. Enfrentamos nossos demônios e percebemos que, em sua forma demoníaca, ocultam-se potencialidades e virtudes que foram reprimidas e relegadas às sombras da nossa existência. Por isso, o iniciado atravessa muitos momentos catárticos de confronto, nos quais essas potencialidades e virtudes passam a integrar o ser, conduzindo-o à plenitude espiritual.

Exu e Pombagira são caminhos abertos. Para trilhá-los, nossa consciência espiritual precisa estar livre da prisão das sombras, para que cada passo seja dado com consciência e aprendizado, trazendo-nos a sabedoria ancestral.

Onde há sombras, as forças de Exu e Pombagira se fazem presentes.

Iniciação na Quimbanda em Porto Alegre: A Rama dos 4 Caminhos

Aqui na Rama, nosso processo de iniciação segue os preceitos da Quimbanda Tradicional Gaúcha. No entanto, também preservamos nossas tradições enquanto família e enquanto Rama, nas quais o aprofundamento na genealogia do iniciado é fortemente presente. Temos memórias a resgatar, dívidas ancestrais a reparar, maldições familiares a quebrar e um culto aos antepassados a firmar.

Em nossa tradição, formamos um núcleo familiar a partir do qual uma comunidade passa a se constituir. Nessa comunidade, todos são bem-vindos. Para isso, realizamos rituais por meio dos quais é possível tornar-se membro da comunidade sem que seja necessário passar por uma iniciação, até porque nem todos são autorizados a se tornarem membros e, menos ainda, a serem iniciados na Rama. Também mantemos um processo no qual o iniciado, caso possua caminho para o sacerdócio, pode compor a corrente da Rama. Para isso, há um ritual específico que fundamenta essa relação de integração entre núcleos familiares e comunidades, pois uma floresta é composta por uma diversidade de ecossistemas.

Toda pessoa que busca a Rama pode iniciar sua aproximação por meio do nosso núcleo de estudo e pesquisa ancestral, no qual são realizadas atividades voltadas ao compartilhamento de saberes diversos, tais como os antropológicos, teológicos, históricos e de outras áreas do conhecimento que possam agregar ao desenvolvimento da consciência dos membros, em consonância com sua tradição e espiritualidade. A participação nesse núcleo é totalmente gratuita, sem qualquer custo.

Há também a possibilidade de oracular junto aos ancestrais da Rama para verificar as possibilidades de integração na comunidade e compreender como esse processo pode ocorrer. Oraculações com essa finalidade não são cobradas, pois dizem respeito ao crescimento da comunidade e da Rama. No entanto, elas requerem uma consulta prévia entre mim e os ancestrais que tutelam a casa. Caso nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, responda positivamente, um oráculo é então agendado para demais confirmações, sendo esse oráculo igualmente não remunerado.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

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Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.