Iniciação na quimbanda, um pacto ancestral
A iniciação na Quimbanda geralmente é cercada de mistérios, fundamentos, muitos custos e limitações. No entanto, ao nos aprofundarmos na historicidade da Quimbanda, vamos perceber que houve, de certa forma, uma ruptura das tradições, na qual a inovação acabou abrindo caminho para a divisão entre aqueles que têm condições financeiras e aqueles que não têm, deixando estes últimos à margem e excluídos do processo iniciático.
Na formação das raízes da Quimbanda gaúcha, verificamos que os assentamentos de Exú e Pombagira eram simples em termos de materiais, mas fortes em fundamentos. Materialmente, a lista de elementos era reduzida: uma imagem, ponteiras, alguidar, uma guia de miçangas, a faca e o avé que seria cortada. Para o culto, utilizavam-se a bebida, a vela de sete dias e a quartinha. Mensalmente, em média, uma oferenda de alimento era servida a cada um dos tutelares. Ao avaliarmos essa pequena lista, percebemos que ela era, de certa forma, acessível às camadas mais pobres. No entanto, atualmente, a inovação tem sido utilizada, em muitos casos, apenas para fomentar retorno financeiro e, por fim, isso acabou segregando as camadas mais pobres, periféricas e de baixa renda.
Quando busquei minha iniciação na Quimbanda, recorri a diversas tentativas com sacerdotes de diferentes tradições, mas infelizmente todos pesaram a mão nos valores, o que me afastou de determinadas casas. Foi então que decidi buscar uma iniciação dentro da família, já que eu estava em processo ativo de pesquisa e mapeamento da minha árvore genealógica. Nesse percurso, descobri que Antônio Gilberto Ferreira, meu primo de segundo grau, primo de meu pai, com 75 anos de idade, era quimbandeiro. Aproximei-me de Gilberto, que acabou se tornando meu feitor na Quimbanda (como chamamos na Quimbanda tradicional gaúcha).
Gilberto foi enfático ao afirmar que me passaria tudo da mesma forma como ele havia sido feito na Quimbanda, tradição na qual foi iniciado pelas mãos da saudosa, in memoriam, Mãe Zila de Xapanã, uma liderança muito respeitada no batuque porto-alegrense, que deixou em vida um legado de mais de 52 anos de tradição afro. Assim, tive a oportunidade de receber uma feitura conforme era realizada no período de nascimento da tradição da Quimbanda gaúcha, o que confirmou a simplicidade dos materiais, mas também a força dos fundamentos envolvidos.
Essa forma de Quimbanda tradicional gaúcha é encontrada, sobretudo, nas periferias do Rio Grande do Sul, dentro de tradições de núcleos familiares, e raramente chega aos canais de massa, como as redes sociais, onde muitos jovens buscam informações. Hoje, um dos meus trabalhos é justamente o esforço de disseminar esse conhecimento, para que as pessoas saibam que existem, sim, tradições fortes, dignas e verdadeiras, acessíveis também às camadas menos favorecidas que desejam se iniciar na Quimbanda.
Quero deixar claro, por fim, que não sou contra a inovação, desde que ela seja acessível à comunidade na qual está inserida. As relações sagradas devem ser estreitadas, e não gerar afastamentos.
A coesão da comunidade ancestral
É importante compreender que, na Quimbanda, há uma convergência de consciências que colidem com uma grande diversidade de realidades. É nesse território de convergências que uma comunidade nasce e onde Exú e Pombagira encruzam saberes, forças e transformações que fortalecem a coesão comunitária.
Ser quimbandeiro é também assumir uma posição de liderança, pois a comunidade recorre constantemente a esse território. E, como líder, o quimbandeiro, dotado de saber ancestral, dá rumo às demandas que a comunidade apresenta na busca por correção e equilíbrio. Concordo com outros quimbandeiros quando afirmam que o sacerdote na Quimbanda não é psicólogo; ainda assim, acredito ser fundamental que o sacerdote quimbandeiro possua discernimento suficiente para identificar quando uma demanda é de natureza espiritual, material, física, emocional ou psíquica, sabendo quando agir diretamente e quando orientar a pessoa a buscar apoio em outras esferas.
Não posso deixar de reforçar que a comunidade ancestral parte da centralidade dos ancestrais e antepassados cultuados, que são os principais responsáveis pela existência da própria comunidade. A eles devemos manter o culto sempre vivo, disciplinado e resignado. É por meio da manutenção desse culto que novos caminhos se abrem e que as fronteiras com a ancestralidade se expandem, pois a comunidade cresce tanto em vivos quanto em ancestrais, que vão entrelaçando raízes, permitindo que uma retomada da floresta ancestral se manifeste.
Todo iniciado deve ter sempre em mente que a iniciação é um processo contínuo de integração de saberes e perspectivas. Desenvolver a habilidade de se colocar na perspectiva dos ancestrais tutelares é de extrema importância; trata-se de um exercício de empatia que, ao mesmo tempo que nos sensibiliza, nos fortalece, pois assim conquistamos um profundo sentimento de pertencimento e uma verdadeira retomada tribal ancestral.
Você tem caminho para a ancestralidade?
É recorrente a fala de diversos pseudorreligiosos das macumbas que questionam as pessoas perguntando se elas possuem ancestralidade em sua genealogia. A falta de conhecimento cria um abismo entre a ignorância espiritual e o saber ancestral. Para se ter uma ideia, todos nós temos uma ancestral em comum, chamada pela ciência de Eva Mitocondrial, que viveu na região hoje conhecida como Zimbábue e Botsuana, no continente africano. Portanto, todos compartilhamos uma ancestralidade comum africana e, se a ancestralidade genealógica fosse o critério para “ter ou não ter” ancestralidade para a Quimbanda, esse argumento já cairia por terra. Além disso, o ancestral é um antepassado divinizado e, para isso, ele se perde na linha do tempo, o que pode muito bem abarcar ancestralidades milenares de diferentes regiões.
Entretanto, quando falamos em caminhos para a ancestralidade, não é apenas o fator genealógico que conta, mas diversos outros aspectos herdados culturalmente e moralmente: memórias transmitidas de geração em geração, tradições familiares, a preservação desses elementos no núcleo familiar para garantir a oralidade e a abertura de caminhos espirituais. Muitos podem, sim, compartilhar uma ancestralidade genealógica africana, mas nem todos possuem caminhos abertos para a espiritualidade ancestral. Além disso, é preciso respeitar os antepassados e ancestrais, pois são eles que decidem se vão ou não tutelar um descendente. É muita presunção, prepotência e arrogância acreditar que basta passar por um rito iniciatório para que Exú e Pombagira se manifestem em nossas vidas.
Eu diria que quase a totalidade dos iniciados recebe um chamado espiritual muito antes mesmo de cogitar passar por qualquer ritual iniciático. Diversos fatores vão nos empurrando e nos puxando para uma espiritualidade ancestral. Isso não significa que outras pessoas não possam ter uma vida espiritual — acredito, inclusive, que todos deveriam ter —, mas refiro-me aqui a uma espiritualidade ancestral específica. Se observarmos atentamente, perceberemos que aqueles que são escolhidos costumam passar por muitas provações e obstáculos, internos e externos. Podemos dizer que a trajetória de vida de um iniciado na ancestralidade é, em geral, marcada pelo sofrimento antes do florescer.
Isso se deve a diversos fatores, alguns bastante recorrentes, como uma insatisfação constante com sistemas dogmáticos, já que muitas regras colidem com a ação da ancestralidade que pulsa no indivíduo. Outro fator é a busca incessante por profundidade espiritual, pois é nas raízes da nossa existência que a ancestralidade habita. Nesse processo, o conhecimento, a experimentação e a intuição tornam-se elementos centrais. No entanto, o aspecto mais evidente é a manifestação dos ancestrais, seja por meio de sonhos iniciáticos, visagens ou experiências físicas numinosas, como a incorporação — não uma incorporação comum, mas um tipo de experiência difícil de descrever, quase inconcebível.
Além disso, temos os oráculos como canais e portais de acesso à voz ancestral, capazes de direcionar o indivíduo para perspectivas que favoreçam a aproximação com os ancestrais. Nem todo oráculo é um espaço onde a ancestralidade se manifesta, pois o oráculo precisa ser consagrado à ancestralidade. No contexto da Quimbanda, isso significa que o oráculo “come” e, em muitos casos, integra o assentamento como parte das estruturas de morada das forças ancestrais. Cabe um adendo importante: nem todo oráculo é estruturado para a vidência, e nem todo oraculista possui vidência. Isso não torna o oráculo ou o oraculista melhor ou pior, mas indica que cada sistema oracular possui uma forma própria de comunicação com os ancestrais.
Dito isso, todos possuem ancestralidades, no plural, mas são as relações estabelecidas com o passado, com os antepassados e com a memória que irão determinar a abertura — ou não — para uma iniciação ancestral.
As confirmações da voz ancestral oracular
Como comentei acima, o oráculo é a voz do ancestral manifestada. No entanto, existem outras formas oraculares que antigos sacerdotes utilizavam para se comunicar com a espiritualidade. Talvez o principal canal de comunicação que encontramos em diversas culturas sejam os sonhos. Dentro de um contexto religioso, há diferentes tipos de sonhos: sonhos premonitórios, sonhos iniciáticos, sonhos ancestrais que nos conectam à memória ancestral e até mesmo sonhos com os mortos.
Nos sonhos iniciáticos, as mensagens costumam ser muito diretas, muitas vezes trazendo orientações objetivas para processos ritualísticos, por exemplo. Já os sonhos ligados à ancestralidade frequentemente nos conduzem a tempos imemoriais, nos quais vislumbramos deuses, forças primordiais da natureza. Nos sonhos com os mortos, estabelece-se uma linha de comunicação por meio da linguagem onírica com aqueles que já partiram.
Eu tive muitos sonhos iniciáticos nos quais as orientações foram claras e objetivas, inclusive sobre aspectos que deveriam ser considerados na criação dos assentamentos dos meus tutelares. Da mesma forma, tive diversos sonhos com antepassados mortos que me auxiliaram em diferentes momentos a avançar no processo de pesquisa da minha árvore genealógica. Por meio dos sonhos, nossos ancestrais e antepassados acessam uma linguagem poderosa para nos comunicar questões importantes. A linguagem onírica é carregada de significados, que se desdobram em camadas, trazendo mensagens de impacto imediato em nossas vidas, assim como conteúdos espirituais que precisam ser traduzidos à luz da consciência.
Exú e Pombagira, como senhores das sombras e dos limiares, adentram nosso inconsciente e, nas profundezas das nossas sombras, expõem à luz da sabedoria ancestral todos os obstáculos, espinhos, pesos, dores e sofrimentos que precisamos enfrentar para nos tornarmos plenos em virtude e saber.
Existem também formas oraculares mais sutis, observadas em diversos povos originários, como a escuta do vento, o farfalhar das folhas, o som das águas e até mesmo os sons dos animais. Essas formas oraculares nos reconectam à ancestralidade de maneira visceral, ctônica e telúrica, pois trazem à nossa consciência potências que reverberam pelos sentidos do corpo e da mente.
O iniciado deve levar em conta que, na iniciação, nossa visão passa a perceber um tom sagrado e divino nas diversas manifestações da natureza. Os sentidos precisam ser treinados e sensibilizados para essa escuta, para que consigamos perceber a manifestação de Exú e Pombagira em nossas vidas. Quando estamos atentos, percebemos inúmeros sinais: sincronicidades sagradas, sons internos, memórias esquecidas que são ativadas a partir de uma vivência sensorial sagrada.
Os oráculos fazem parte da vida de um iniciado na Quimbanda, seja como consulente, seja como oraculista. Percebe-se claramente que existe uma relação diferente com a ancestralidade antes e depois de se ter acesso a um oráculo. Muitas das dúvidas que surgem ao longo do caminho passam, em grande parte, a ser respondidas. Aprende-se também a formular as perguntas corretas e a compreender que os ancestrais não são forças dispostas em uma prateleira aguardando ordens. Muitas vezes, eles simplesmente não desejam responder e, por isso, não devem ser perturbados com perguntas mesquinhas, egoístas, nem acionados para responder demandas de pessoas estranhas à comunidade.
Há ainda um processo próprio de abertura de cada oráculo, no qual, muitas vezes, é arriada uma oferenda como forma de troca e respeito.
Assentamento, um portal para o território ancestral
Se existe um tema que gera muita discussão entre iniciados na Quimbanda, com certeza esse tema é o assentamento de Exú e Pombagira. Cada tradição e cada família quimbandeira possuem suas próprias formas e fundamentos para a criação dos assentamentos, o que acaba gerando inúmeros debates entre iniciados e não iniciados. De modo geral, porém, a discussão costuma se concentrar nos custos envolvidos na confecção de um assentamento, o que acaba inviabilizando o acesso de pessoas de baixa renda à Quimbanda.
Muitos afirmam que Exú e Pombagira “abrem caminhos”, e nisso eu concordo. Contudo, se o caminho fosse exclusivamente financeiro, então todos aqueles que estão prestes a se iniciar teriam sua realidade econômica transformada previamente, o que não é o caso da grande maioria das pessoas de baixa renda que buscam uma iniciação. Basta observar a quantidade de relatos semelhantes em grupos, canais no YouTube e fóruns para constatar essa realidade. Essa é, inclusive, uma crítica social que procuro reforçar sempre que possível.
O que precisamos ter em mente é que um assentamento é, antes de tudo, uma morada de poder: um portal, uma ancoragem entre o iniciado e Exú e Pombagira. É por meio dele que se estabelece uma comunicação efetiva, além de ser o assentamento que oferece ao ancestral materialidade e atmosfera para que ele se manifeste de forma mais física na relação com o iniciado.
No assentamento estão presentes elementos fundamentais que facilitam essas ancoragens, incluindo o sangue sacrificial, pois um assentamento é vivo e, como tal, come. Quando se diz que Exú e Pombagira comem no assentamento, isso está correto: o alimento energético que eles captam, absorvem e consomem ali é o necessário para manter o assentamento vivo, ativo e disponível para a conexão.
Na Quimbanda tradicional gaúcha, os elementos são simples, porém carregados de fundamento. Aqui na Rama, os assentamentos são feitos dessa maneira, como eram realizados há mais de cinquenta anos. Os assentamentos são preparados em pares, um para Exú e outro para Pombagira, e é no ato ritual da feitura que se inicia o processo de “pegar a mão de faca”. Trata-se de um processo ritualístico, uma outorga que atribui ao iniciado a autoridade para confeccionar outros assentamentos, além de alimentar seus tutelares.
Essa forma de feitura ainda existe, mas está restrita, em grande parte, a núcleos familiares nas periferias do Rio Grande do Sul. Não é uma tradição que se encontre facilmente em canais do YouTube ou em perfis de influenciadores das macumbas. Para acessá-la, é necessário coragem e humildade para se despir do ego e da vaidade.
O culto a Exú e Pombagira, uma chamada que não se apaga
Recentemente vi uma sacerdotisa despachando os assentamentos de um iniciado que abandonou os cuidados regulares com seus tutelares. Demonstrando insatisfação e tristeza, ela reforçou as responsabilidades que um iniciado deve assumir ao se iniciar.
Posso afirmar que manter o culto é a centralidade da vida de todo iniciado na Quimbanda. A regularidade dos preceitos e rituais redefine a vida da pessoa, pois demanda tempo, disciplina e dedicação. Você está, literalmente, morrendo para a vida profana e nascendo para a vida sagrada, e esse processo fará com que suas sombras sejam purgadas para que suas virtudes sejam reveladas. Isso exige muita coragem, mas, acima de tudo, muita fé.
Manter o culto é manter a chama de Exú e Pombagira acesa em sua vida. E é nessa chama que você é o primeiro a ser purificado.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodun de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

