Ervas de Exú na Quimbanda Gaúcha | Tridax procumbens - erva-de-touro, margaridinha, picão-branco, botão de touro, poaia branca
Caminhando pelas ruas, encontrei a erva-de-touro brotando entre as pedras, rasgando as frestas dos paralelepípedos, ocupando os cantos das paredes e se espalhando como um tapete verde salpicado de pequenas flores. Essa imagem urbana, quase invisível aos olhos apressados, revela uma potência simbólica profunda: a vida que insiste, que emerge do que é duro, seco e aparentemente estéril. A Tridax procumbens, ao crescer onde não foi plantada, manifesta uma pedagogia da resistência. Antropologicamente, plantas que irrompem no concreto costumam ser classificadas como “daninhas”, mas em muitas culturas são precisamente essas espécies resilientes que recebem valor medicinal e espiritual, pois encarnam a capacidade de sobreviver às adversidades — atributo fundamental tanto à cura quanto à proteção ritual.
Nativa da América Central e hoje espalhada por regiões tropicais e subtropicais do planeta, a erva-de-touro atravessou oceanos e sistemas médicos, sendo incorporada às tradições indianas como o Ayurveda e o Siddha. Na Índia, é associada simbolicamente à mítica Bisalyakarani descrita no Ramayana, erva capaz de curar ferimentos fatais e restaurar a vida. Nesse contexto, sua ação cicatrizante, anti-inflamatória e antimicrobiana não é apenas farmacológica, mas cosmológica: trata-se de uma planta que recompõe a integridade do corpo e, por extensão, da ordem do mundo. A cura da ferida torna-se também restauração do dharma, do equilíbrio rompido pela violência.
Nas religiões afro-brasileiras, sua inserção como erva de Omulu, Exú, Iansã/Oyá, Obaluaiyê, Oxum e Xangô revela um campo teológico em que natureza e divindade se interpenetram. Seu elemento fogo dialoga com a transformação, com a queima das impurezas e com a dinâmica do movimento espiritual. Utilizada em banhos, defumações e na composição de preparados rituais, a planta atua na limpeza de pessoas e ambientes, no afastamento de cargas espirituais e na proteção contra demandas.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.




