Ervas de exú na quimbanda gaúcha | O assa-peixe, também conhecido como chamarrita, cambará-guaçu, cambará-açu ou cambará-branco

O assa-peixe, também conhecido como chamarrita, cambará-guaçu, cambará-açu ou cambará-branco, é uma planta que se espalha de norte a sul do Brasil, brotando com vigor em beiras de estrada, pastagens e áreas de mata secundária. De folhas ásperas e pequenas flores brancas muito visitadas por abelhas, que produzem um mel leve a partir de sua florada, é frequentemente classificada como “invasora” pelo olhar agropecuário. Contudo, sob uma perspectiva antropológica, essa mesma característica revela sua potência de resistência e adaptação. O que para alguns é mato, para outros é remédio, proteção e força espiritual — expressão viva da inteligência ecológica dos territórios tradicionais.

Entre povos indígenas como os Xavantes, que a conhecem como Tepedza’ró, o assa-peixe é utilizado no tratamento da hipertensão, leishmaniose, doenças renais e distúrbios respiratórios, além de atuar como anti-inflamatório e depurativo. Seu uso integra uma medicina que não separa corpo, espírito e ambiente, compreendendo a doença como desequilíbrio das relações vitais. Classificada como erva “fria”, é considerada calmante e restauradora, especialmente em estados de inflamação e excesso. Assim, a planta não é apenas um recurso terapêutico, mas um agente de recomposição do equilíbrio, articulando saber ecológico, cosmologia e prática ritual.

Nas tradições afro-indígenas e afro-brasileiras, o assa-peixe é reconhecido como erva de forte poder purificador, associada às forças de Ogum e Nanã. Utilizada em banhos, defumações, sacudimentos e rituais de limpeza, é entendida como canal de desobstrução energética, capaz de limpar, energizar e curar. Sua presença nos ebori e em práticas de renovação espiritual aponta para uma compreensão do corpo como território sagrado, onde folhas são mediadoras entre o mundo visível e o invisível. Ao abrir caminhos e liberar padrões negativos, o assa-peixe reafirma uma visão de mundo em que a natureza é sujeito ativo na transformação e no crescimento pessoal.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.