Ervas de Exú na Quimbanda Gaúcha | Família Urticaceae — Embaúba, Imbaúba, Umbaúba, Ambaúba, Embaíba, Árvore-da-Preguiça, Àgbaó
Família Urticaceae (também referida em classificações anteriores como Moraceae) — Embaúba, Imbaúba, Umbaúba, Ambaúba, Embaíba, Árvore-da-Preguiça, Àgbaó (iorubá)
A embaúba, conhecida cientificamente como Cecropia palmata e Cecropia pachystachya, é chamada de amba’y pelos Guarani e de tuthi pelos Tikmũ’ũn (Maxakali). Seu nome de origem tupi significa “árvore oca”, referência ao seu tronco habitado por formigas — especialmente do gênero Azteca — que vivem em simbiose com ela, protegendo-a enquanto recebem abrigo. Para muitos povos indígenas, não se trata apenas de uma árvore pioneira que regenera solos degradados, mas de uma árvore-espírito, uma mãe vegetal. Entre os Guarani-Mbyá, suas folhas participam de rituais de purificação e cura; entre os Potiguara, sua seiva — a “água da embaúba” — é coletada em ritual na lua cheia, mediante pedido de permissão ao espírito da planta, para tratamento de enfermidades renais. A relação não é extrativista, mas relacional: pede-se licença, canta-se, espera-se o consentimento. A árvore responde.
Entre os Tikmũ’ũn (Maxakali), a embaúba é a “fibra-mãe”, matéria com a qual se tecem objetos rituais, máscaras e fios que conectam mundos. Há cantos específicos para cada etapa da extração e preparo da fibra, pois o trabalho não é técnico, é cosmológico. Ao umedecer a linha com saliva, as mulheres transferem seu espírito à fibra, ativando seu poder xamânico. A narrativa de kãyãtut — a mulher que, ao engolir a linha de embaúba, transforma-se em sucuri — revela que a planta é veículo de metamorfose, justiça e poder feminino. A embaúba, nesse sentido, não apenas cura o corpo físico; ela reorganiza forças, reequilibra relações e mantém viva a memória de que céu e terra já estiveram ligados por um fio ancestral.
Na tradição afro-diaspórica, especialmente no Candomblé, a embaúba (Àgbaó) é árvore sagrada de Ossaim, Senhor das Folhas, e associada também a Xangô. Antes de colher qualquer erva, deposita-se aos seus pés vinho, aguardente, fumo de rolo, mel e moedas, pedindo que Ossaim permita ver e encontrar a planta desejada. Caso contrário, diz-se que a erva pode estar diante dos olhos e ainda assim não se deixar perceber.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.



