Plantando memória: o papel da pesquisa documental e genealogia no culto à ancestralidade

Plantando memória: o papel da pesquisa documental e genealogia no culto à ancestralidade A genealogia como ferramenta de reconstrução da memória Na tradição da Rama dos 4 Caminhos, a genealogia ancestral transcende a mera catalogação de nomes e datas; ela se estabelece como uma ferramenta de reconstrução da memória, essencial para o culto à ancestralidade na Quimbanda Gaúcha. O Brasil, com seu passado escravocrata e a subsequente cultura de apagamento histórico, impôs um silêncio sobre as origens de muitos, especialmente os antepassados negros e indígenas. O resgate genealógico, neste contexto, torna-se um ato de resistência e reparação histórica. O usuário relata a dificuldade de encontrar registros completos, deparando-se com a realidade de antepassados citados apenas pelo primeiro nome, ou que tiveram seus sobrenomes apagados ou substituídos pelos de seus algozes. Essa prática, como o compadrio, foi um mecanismo de controle que visava impedir a formação de linhagens e manter o cerceamento de direitos. A pesquisa documental, que na Rama dos 4 Caminhos já mapeou mais de 320 documentos, é o caminho para desenterrar essas histórias. Ao buscar registros de nascimento, batismo, casamento, óbito, bens e entradas no Brasil, o iniciado não apenas reconstrói sua árvore, mas também se reconecta com os vínculos e saberes perdidos no tempo. Ancestral vs. antepassado: a hierarquia da memória Um ponto teológico crucial na tradição da Rama é a distinção entre ancestral e antepassado. Conceito Definição na Rama dos 4 Caminhos Implicação no Culto Antepassado Indivíduo que viveu antes do iniciado, podendo ter tido uma vida exemplar ou negativa. Podem clamar por reconhecimento e também atuar junto aos descendentes na tradição. Ancestral Antepassado que se tornou divinizado em consequência de sua importância perante a comunidade de antepassados. Recebe culto e é fundamental para a sustentação da tradição. Na Rama, um dos ramos abriu a possibilidade de acessar toda uma raiz de antepassados — sejam eles divinizados ou não. Isso é fundamental, pois permite resolver negatividades ancestrais que reverberam na vida dos descendentes. O culto, portanto, não se restringe apenas aos ancestrais divinizados (Exú e Pombagira), mas se estende aos antepassados que precisam de cura e memória. O despertar da memória e a cura geracional O processo de pesquisa genealógica é descrito como um choque de retorno, onde o iniciado toma consciência da complexidade de sua linhagem, que pode incluir tanto escravocratas quanto escravizados. Essa confrontação com a história familiar é, em um primeiro momento, dolorosa, pois expõe feridas familiares . No entanto, é nesse processo que as curas geracionais acontecem. O resgate da memória é o que permite que os antepassados se manifestem, oferecendo pistas para o avanço da jornada e revelando ramos que indicam como devem ser suas oferendas de culto. A Quimbanda, neste contexto, torna-se um culto aos antepassados que busca firmar a memória e reparar dívidas ancestrais. A frase “Aqui plantamos memória, para que ela floresça em culto” resume a filosofia da Rama. A pesquisa documental e a genealogia são o solo onde a semente da memória é plantada, e o culto é a água que a faz florescer, transformando o esquecimento em poder e a dor em cura. Participe, é totalmente gratuito Núcleo de estudo e pesquisa ancestral O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente. Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios. Instagram Facebook YouTube Linktr.ee E-mail Quero participar do núcleo
O poder da simplicidade: resgatando os fundamentos tradicionais de exú e pombagira na quimbanda gaúcha

O poder da simplicidade: resgatando os fundamentos tradicionais de exú e pombagira na quimbanda gaúcha A crítica à opulência: quando o excesso cobre o fundamento A Quimbanda, em sua essência, é uma religião de raízes populares, forjada nas periferias e nas classes de baixa renda, onde os elementos centrais para o culto eram, por necessidade e princípio, de acesso simples e, muitas vezes, sem custo. No entanto, o usuário aponta uma tendência contemporânea que inverte essa lógica: a busca por assentamentos opulentos, repletos de ouro, prata e pedras preciosas, que transformam a iniciação em um produto de alto custo. Essa prática é vista como uma mentalidade colonizadora que se infiltra nas tradições afro-indígenas, contrariando a base ética de simplicidade e acessibilidade que marcou a fundação do culto aos ancestrais brasileiros.A crítica é clara: a opulência não garante a potência. O que define um assentamento como morada de poder de um ancestral é a sua fundamentação e a resposta que ele oferece ao iniciado. “O assentamento pode conter ouro e diamantes, mas, se não responde, ali não é a morada de um ancestral — seja Exu, Pombagira, caboclo ou preto-velho.” O verdadeiro poder reside na simplicidade resignada e na regularidade do culto . A Rama dos 4 Caminhos resgata essa perspectiva, valorizando os elementos naturais e acessíveis que historicamente compuseram os fundamentos da Quimbanda Gaúcha: sementes, terras, ossos, pedras, água e ervas . A simplicidade dos fundamentos: o legado da quimbanda tradicional gaúcha A tradição da Quimbanda Gaúcha, baseia-se em fundamentos que datam de mais de cinquenta anos, transmitidos por linhagens como a de Mãe Zilá de Xapanã e Antônio Gilberto Ferreira. Estes fundamentos demonstram que a força dos assentamentos de Exú e Pombagira reside na força dos fundamentos envolvidos, e não na quantidade ou no valor material dos itens.O contraste entre o “antigamente” e o “hoje” é notável, especialmente no que tange às oferendas. O relato de Antônio Gilberto Ferreira, feitor de Thiago (líde da Rama dos 4 Caminhos), é emblemático: “Antigamente, a orientação era cortar para o Exu e a Pombagira tutelares uma vez por ano. Hoje, um iniciado parece mais um sócio de um matadouro.”A relação com Exú e Pombagira, que deveria ser mantida por padês, comidas e bebidas simples, passou a ser quase exclusivamente definida pelo excesso de sacrifício animal. Onde há exagero, falta simplicidade; e onde falta simplicidade, falta a essência. A simplicidade, neste contexto, é um ato de resistência contra a mentalidade capitalista que busca quantificar e mercantilizar o sagrado. A ética do suor: o valor do esforço pessoal na iniciação A iniciação na Quimbanda, na visão da Rama dos 4 Caminhos, é um processo que exige sacrifício não animal, ou seja, a entrega de um ou mais aspectos da vida profana. O pagamento de maior valor não é o dinheiro, mas o suor — o esforço pessoal, a disciplina e a dedicação contínua ao culto. Elemento Simplicidade (Tradição) Opulência (Crítica) Morada de Poder Fundamentação e Resposta. Luxo e Quantidade de Itens. Pagamento Suor, Disciplina, Culto Regular. Aquisição, Dinheiro, Excesso. Oferendas Padês, bebidas simples, sacrifício anual. Excesso de sacrifício animal (sócio de matadouro). Materiais Sementes, terras, ossos, pedras, ervas. Ouro, prata, pedras preciosas. A iniciação é um pacto de entrega que exige a morte da vida profana para o ingresso em uma nova vida sagrada. O iniciado deve buscar o equilíbrio, pois acessar a força de Exú e Pombagira em desequilíbrio é trazer para si o peso da justiça. A simplicidade, portanto, é a chave para manter o foco e a essência do culto, garantindo que o elo entre o iniciado e o ancestral seja alimentado pela fé verdadeira e não pela vaidade ou ganância. Participe, é totalmente gratuito Núcleo de estudo e pesquisa ancestral O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente. Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios. Instagram Facebook YouTube Linktr.ee E-mail Quero participar do núcleo
O pacto ancestral: redefinindo a iniciação na quimbanda como uma jornada genealógica

O pacto ancestral: redefinindo a iniciação na quimbanda como uma jornada genealógica A iniciação na quimbanda gaúcha: para além do rito de passagem A iniciação em qualquer tradição religiosa, em sua essência mais pura, constitui um rito de passagem, um marco liminar que separa a vida profana da existência sagrada. Na Quimbanda Gaúcha, e de forma mais específica na tradição desenvolvida pela Rama dos 4 Caminhos, essa transição é elevada a um novo patamar de significado, sendo redefinida como um Pacto Ancestral. Este conceito não se limita à mera transmissão de saberes rituais ou à outorga de poder mediúnico, mas sim à formalização de um compromisso profundo e contínuo com a linhagem de antepassados do iniciado. O iniciado, neste contexto, não é apenas um praticante, mas o elo consciente e o guardião da memória na vasta cadeia de sua ancestralidade.A crítica social levantada pela Rama dos 4 Caminhos é incisiva quanto à mercantilização da fé. O foco excessivo no custo financeiro e na opulência material dos ritos, que se tornou comum em algumas vertentes, é visto como a criação de uma fronteira social de acesso ao divino. Essa barreira, imposta pela lógica capitalista, segrega e marginaliza aqueles que não possuem condições financeiras, contrariando os princípios éticos e fundantes das tradições afro-indígenas, que se baseiam na coesão comunitária e na simplicidade. “Quando os deuses — outrora forças primordiais que desciam à Terra para receber grãos em agradecimento — só descem hoje por meio do buraco que o dinheiro deixa no bolso do devoto, esse deus se tornou seletivo e caro demais para quem clama por prosperidade e fertilidade.” Em contrapartida, a tradição da Rama dos 4 Caminhos propõe um retorno à simplicidade dos fundamentos, onde o valor da iniciação reside na resignação, disciplina e manutenção do culto. O assentamento, a morada de poder do ancestral, é valorizado não pelo luxo de seus componentes, mas pela sua fundamentação e pela resposta que ele oferece ao iniciado, manifestada em sonhos, realizações materiais e na presença palpável dos ancestrais. O Pacto Ancestral é, portanto, uma aliança firmada com a própria história do indivíduo, um compromisso de manter o culto vivo. O despertar das sementes: a genealogia como pilar da iniciação O pilar mais distintivo desta tradição é o resgate genealógico. A iniciação na quimbanda, aqui, é intrinsecamente ligada à árvore genealógica do indivíduo. O processo de pesquisa documental e cultural não é um apêndice, mas a primeira e mais sagrada das tarefas, pois é através dele que as memórias adormecidas são despertadas. A realidade histórica brasileira, marcada pela escravidão e pelo consequente apagamento histórico dos povos originários e dos escravizados, impôs uma barreira à preservação da memória ancestral. Registros incompletos, a perda de nomes originais e o processo de embranquecimento cultural dificultaram a reconstrução da linhagem. A Quimbanda Gaúcha, nesta ótica, atua como uma poderosa ferramenta de reconstrução da memória, buscando os nomes, as histórias e os saberes que foram deliberadamente perdidos ou roubados.O iniciado, ao mergulhar em sua história, confronta a dualidade de sua origem, descobrindo a complexa teia de antepassados que inclui tanto escravocratas, donos de terras e colonos, quanto escravizados, alforriados e mestiços. Este processo de fusão entre o que foi lembrado e o que foi esquecido é o que constitui a essência da Rama dos 4 Caminhos. Aspecto da Iniciação Perspectiva Tradicional (Critica) Perspectiva Rama dos 4 Caminhos Foco Principal Ritos complexos e custos elevados. Pacto Ancestral e Resgate Genealógico. Valor do Assentamento Quantidade de itens, luxo (ouro, pedras preciosas). Fundamentação, simplicidade e resposta do ancestral. Sacrifício Predominantemente animal (em excesso). Entrega de aspectos da vida profana, suor e disciplina . Barreira de Acesso Financeira (exclusão das classes mais pobres). Disciplinar e ética (compromisso com a jornada). Pilar Ético Mentalidade capitalista/bélica (criticada) . Coesão comunitária e ética afro-indígena . O choque de retorno e o purgamento das sombras O mergulho genealógico é, inevitavelmente, um processo de purgamento. O usuário descreve essa jornada como um choque de retorno, onde feridas familiares são expostas, mas, com essa exposição, a cura geracional acontece. A iniciação abre as portas do inconsciente, o “porão” onde o iniciado é chamado a purgar sentimentos e emoções nocivas ao seu desenvolvimento. A Loa tutelar e matriarca da Rama dos 4 Caminhos, a Senhora Maria Mulambo Anciã, é um símbolo desse processo. Ela é descrita como uma ancestral que traz a força da loa Granne Erzulie Dantor, uma figura que, na mitologia do Vodu haitiano, representa a sabedoria do tempo, a resiliência e a capacidade de mediar saberes entre tradições. Essa conexão simbólica reforça a ideia de que a força da Rama reside na experiência que rompe fronteiras culturais, trazendo as sombras dos antepassados à luz da sabedoria. O sacrifício e a reintegração: a morte da vida profana A iniciação é um processo de morte e renascimento constantes, onde o iniciado se transforma em mestre nas artes das sombras, da cura, da prosperidade e do ataque. O sacrifício, nesta visão, é ressignificado. Não se trata apenas do sacrifício animal, que deve ser feito com resignação e na medida certa, mas da entrega de um ou mais aspectos da vida profana. O iniciado é chamado a sacrificar rotinas e hábitos que, embora pareçam “bons” (como festas e viagens), podem dispersar o foco e comprometer o desenvolvimento iniciático. Este sacrifício é um pacto de entrega, onde o iniciado se compromete a trilhar um caminho de consciência e aprendizado. Ao enfrentar seus “demônios” internos, o iniciado percebe que, em sua forma demoníaca, ocultam-se potencialidades e virtudes que foram reprimidas e relegadas às sombras de sua existência. A iniciação é o processo catártico que reintegra essas forças, conduzindo à plenitude espiritual. O Pacto Ancestral, em última análise, é a aceitação da responsabilidade de ser o guardião da memória e o continuador do culto. É um compromisso com a ética afro-indígena, que se manifesta na coesão comunitária e no princípio de não prejudicar a jornada evolutiva de outro espírito. Participe, é totalmente gratuito Núcleo de estudo e pesquisa ancestral O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um
Iniciação na quimbanda, um pacto ancestral

Iniciação na quimbanda, um pacto ancestral A iniciação na Quimbanda geralmente é cercada de mistérios, fundamentos, muitos custos e limitações. No entanto, ao nos aprofundarmos na historicidade da Quimbanda, vamos perceber que houve, de certa forma, uma ruptura das tradições, na qual a inovação acabou abrindo caminho para a divisão entre aqueles que têm condições financeiras e aqueles que não têm, deixando estes últimos à margem e excluídos do processo iniciático. Na formação das raízes da Quimbanda gaúcha, verificamos que os assentamentos de Exú e Pombagira eram simples em termos de materiais, mas fortes em fundamentos. Materialmente, a lista de elementos era reduzida: uma imagem, ponteiras, alguidar, uma guia de miçangas, a faca e o avé que seria cortada. Para o culto, utilizavam-se a bebida, a vela de sete dias e a quartinha. Mensalmente, em média, uma oferenda de alimento era servida a cada um dos tutelares. Ao avaliarmos essa pequena lista, percebemos que ela era, de certa forma, acessível às camadas mais pobres. No entanto, atualmente, a inovação tem sido utilizada, em muitos casos, apenas para fomentar retorno financeiro e, por fim, isso acabou segregando as camadas mais pobres, periféricas e de baixa renda. Quando busquei minha iniciação na Quimbanda, recorri a diversas tentativas com sacerdotes de diferentes tradições, mas infelizmente todos pesaram a mão nos valores, o que me afastou de determinadas casas. Foi então que decidi buscar uma iniciação dentro da família, já que eu estava em processo ativo de pesquisa e mapeamento da minha árvore genealógica. Nesse percurso, descobri que Antônio Gilberto Ferreira, meu primo de segundo grau, primo de meu pai, com 75 anos de idade, era quimbandeiro. Aproximei-me de Gilberto, que acabou se tornando meu feitor na Quimbanda (como chamamos na Quimbanda tradicional gaúcha). Gilberto foi enfático ao afirmar que me passaria tudo da mesma forma como ele havia sido feito na Quimbanda, tradição na qual foi iniciado pelas mãos da saudosa, in memoriam, Mãe Zila de Xapanã, uma liderança muito respeitada no batuque porto-alegrense, que deixou em vida um legado de mais de 52 anos de tradição afro. Assim, tive a oportunidade de receber uma feitura conforme era realizada no período de nascimento da tradição da Quimbanda gaúcha, o que confirmou a simplicidade dos materiais, mas também a força dos fundamentos envolvidos. Essa forma de Quimbanda tradicional gaúcha é encontrada, sobretudo, nas periferias do Rio Grande do Sul, dentro de tradições de núcleos familiares, e raramente chega aos canais de massa, como as redes sociais, onde muitos jovens buscam informações. Hoje, um dos meus trabalhos é justamente o esforço de disseminar esse conhecimento, para que as pessoas saibam que existem, sim, tradições fortes, dignas e verdadeiras, acessíveis também às camadas menos favorecidas que desejam se iniciar na Quimbanda. Quero deixar claro, por fim, que não sou contra a inovação, desde que ela seja acessível à comunidade na qual está inserida. As relações sagradas devem ser estreitadas, e não gerar afastamentos. A coesão da comunidade ancestral É importante compreender que, na Quimbanda, há uma convergência de consciências que colidem com uma grande diversidade de realidades. É nesse território de convergências que uma comunidade nasce e onde Exú e Pombagira encruzam saberes, forças e transformações que fortalecem a coesão comunitária. Ser quimbandeiro é também assumir uma posição de liderança, pois a comunidade recorre constantemente a esse território. E, como líder, o quimbandeiro, dotado de saber ancestral, dá rumo às demandas que a comunidade apresenta na busca por correção e equilíbrio. Concordo com outros quimbandeiros quando afirmam que o sacerdote na Quimbanda não é psicólogo; ainda assim, acredito ser fundamental que o sacerdote quimbandeiro possua discernimento suficiente para identificar quando uma demanda é de natureza espiritual, material, física, emocional ou psíquica, sabendo quando agir diretamente e quando orientar a pessoa a buscar apoio em outras esferas. Não posso deixar de reforçar que a comunidade ancestral parte da centralidade dos ancestrais e antepassados cultuados, que são os principais responsáveis pela existência da própria comunidade. A eles devemos manter o culto sempre vivo, disciplinado e resignado. É por meio da manutenção desse culto que novos caminhos se abrem e que as fronteiras com a ancestralidade se expandem, pois a comunidade cresce tanto em vivos quanto em ancestrais, que vão entrelaçando raízes, permitindo que uma retomada da floresta ancestral se manifeste. Todo iniciado deve ter sempre em mente que a iniciação é um processo contínuo de integração de saberes e perspectivas. Desenvolver a habilidade de se colocar na perspectiva dos ancestrais tutelares é de extrema importância; trata-se de um exercício de empatia que, ao mesmo tempo que nos sensibiliza, nos fortalece, pois assim conquistamos um profundo sentimento de pertencimento e uma verdadeira retomada tribal ancestral. Você tem caminho para a ancestralidade? É recorrente a fala de diversos pseudorreligiosos das macumbas que questionam as pessoas perguntando se elas possuem ancestralidade em sua genealogia. A falta de conhecimento cria um abismo entre a ignorância espiritual e o saber ancestral. Para se ter uma ideia, todos nós temos uma ancestral em comum, chamada pela ciência de Eva Mitocondrial, que viveu na região hoje conhecida como Zimbábue e Botsuana, no continente africano. Portanto, todos compartilhamos uma ancestralidade comum africana e, se a ancestralidade genealógica fosse o critério para “ter ou não ter” ancestralidade para a Quimbanda, esse argumento já cairia por terra. Além disso, o ancestral é um antepassado divinizado e, para isso, ele se perde na linha do tempo, o que pode muito bem abarcar ancestralidades milenares de diferentes regiões. Entretanto, quando falamos em caminhos para a ancestralidade, não é apenas o fator genealógico que conta, mas diversos outros aspectos herdados culturalmente e moralmente: memórias transmitidas de geração em geração, tradições familiares, a preservação desses elementos no núcleo familiar para garantir a oralidade e a abertura de caminhos espirituais. Muitos podem, sim, compartilhar uma ancestralidade genealógica africana, mas nem todos possuem caminhos abertos para a espiritualidade ancestral. Além disso, é preciso respeitar os antepassados e ancestrais, pois são eles que decidem se vão ou não tutelar um descendente. É muita presunção,
Quimbanda ancestral, o despertar das raízes | Quimbanda em Porto Alegre

Quimbanda ancestral, o despertar das raízes Não há caminho ao ancestral sem raízes; não há raízes ancestrais sem memória; e não há memória sem resgate. Todo quimbandeiro deveria ser um arqueólogo, um historiador, um antropólogo. Nossa história ancestral foi roubada, ocultada, apagada, embranquecida, soterrada pela ignorância e pela ganância daqueles que hoje preferem romantizar o sangue de negros e indígenas escravizados, criando folclores e fantasias de tradições supostamente guardiãs das forças da natureza. Acredito que não há culto à ancestralidade — seja na Quimbanda, na Umbanda ou em qualquer outra tradição — se não houver choque de retorno, se não houver catarse, se os porões do inconsciente não forem escavados à luz da chama purificadora das sombras. E purificar sombras não é jogar luz sobre elas, mas revelar toda a força potencial que ocultam. E nossos ancestrais estão lá: muitos adormecidos em memórias apagadas, outros ocultos em saberes, outros ainda perdidos em tempos imemoriais, aguardando lapsos atávicos de forças tectônicas, telúricas, forças descomunais que despedaçam a consciência daqueles que não têm coragem de gravar os nomes dos esquecidos nas lápides da memória ancestral. Desconstruir ilusões é um passo vital para todo iniciado que deseja incorporar em si qualquer força ancestral. Minha família, por exemplo, por muito tempo construiu uma imagem fantasiosa a respeito do ramo Blauth — antepassados colonos alemães — como se eles tivessem vivido uma história digna de uma memória livre de culpas e comportamentos condenáveis. No entanto, minha pesquisa genealógica demonstrou que muitos foram escravocratas. E, antes que algum descendente de colonos alemães diga que colonos não tinham permissão para possuir escravizados, afirmo que isso é um mero engano, para não dizer uma fuga conveniente para tolerar o intolerável. Encontrei registros que comprovam que meus antepassados alemães tiveram pessoas escravizadas como propriedade, além de trabalhos acadêmicos nos quais esses registros são tornados públicos. Todo passado ancestral carrega sombras brutais e terríveis. Um iniciado que não compreende que a ancestralidade é, antes de tudo, cura e justiça, não terá honra nem dignidade para incorporar em si uma força ancestral capaz de implodir, em catarse, feridas herdadas. Por isso, a coragem para realizar a jornada de retorno consciente talvez seja a forma menos dolorosa de iniciar esse processo de cura e justiça ancestral. Por outro lado, nessa jornada de cura e justiça ancestral, sou impelido a escavar com maior intensidade a história e a memória das matriarcas da minha árvore genealógica. Nesse processo, encontro documentos que reconstroem a memória de antepassados escravizados que resistiram à brutalidade e à bestialidade dos escravocratas, sustentando-se na resiliência e nos saberes, suportando torturas e humilhações. A eles — detentores da minha genealogia ancestral, de memórias e tradições perdidas no tempo — rogo culto, homenagens e memória, para que, no processo ritual e no culto, encontrem ressonância em seus descendentes e, assim, estendam sua sabedoria, suas bênçãos e sua força ancestral. A quimbanda como canal de resgate ancestral As quimbandas, enquanto estruturas religiosas ou cultos, são tradições que possuem em seu núcleo rituais e saberes que possibilitam ao iniciado estabelecer canais de comunicação e de ação entre si e seus ancestrais, além de formas de culto aos antepassados não divinizados, como meio de resgatar, construir e preservar a memória. Na Rama dos 4 Caminhos, iniciamos o culto a um dos ramos da nossa árvore genealógica, não por decisão própria, mas porque assim nos foi mostrado. O ramo da família Ferreira, no qual encontramos diversos documentos de antepassados escravizados e ex-escravizados, passa a ser cultuado na imagem de João Osório Ferreira. Todos os nossos familiares que buscam força ancestral têm a nobre oportunidade de encontrar acolhimento nesse ramo, arriando a oferenda certa, no local certo. Quando escavamos os escombros do passado, acabamos ressignificando nossas relações com os antepassados e, consequentemente, com nossos ancestrais. Isso também implica desmistificar imagens romantizadas de Exú e Pombagira, que normalmente são apresentados como lordes e prostitutas da corte real. Não que um Exú não possa ter sido, em vida, um lorde dentro de uma tradição diaspórica — aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, temos a imagem do Príncipe Custódio, que em alguns registros é apresentado como sacerdote. O problema não é a existência dessa possibilidade histórica, mas a hegemonia de uma imagem específica: Exú quase sempre representado como um lorde de cartola, branco, com trejeitos refinados europeus; e Pombagira quase sempre branca, com traços e estética de prostitutas da corte real. Sei que diversas mulheres portadoras de saberes ancestrais e de feitiçaria foram, de fato, prostitutas, pois esse muitas vezes era o único meio de sobrevivência. O que questiono é a redução das imagens de Exú e Pombagira exclusivamente a esses estereótipos. Dificilmente vemos a manifestação de um espírito de um homem negro, marcado pelo sofrimento do trabalho no canavial, ou de uma mulher negra envelhecida sob o sol escaldante da colheita do algodão. Acredito que a Quimbanda possui justamente essa capacidade de ressignificar nossa relação com o passado. Quando isso acontece, podemos desencadear potências de Exú e Pombagira que, muitas vezes, encontram-se ocultas nas sombras da nossa ignorância. Grande parte do alcance transformador de Exú e Pombagira em nossas vidas depende do pertencimento. Se não despertarmos para um pertencimento íntegro com a nossa ancestralidade, acabamos ficando à mercê da ilusão e da fantasia. Por isso, ser quimbandeiro é um ato de coragem: olhar para o passado e nos enxergarmos nele como resultado de escolhas — positivas e, principalmente, negativas — que abriram os caminhos até a nossa existência. Alguns ancestrais são guardiões da árvore Nem todo ancestral Exú ou Pombagira se manifesta, em sua jornada iniciática, para realizar trabalhos destinados a pessoas que não pertencem à família. A Senhora Maria Mulambo Anciã, minha tutelar e matriarca à frente de toda a Rama dos 4 Caminhos, tem como escopo manter a coesão da rama. Por diversas vezes tentei abrir seu oráculo para pessoas de fora da rama, e o resultado sempre foi negativo. No entanto, quando pergunto se o trato dela será somente para com a rama,
Quimbanda ancestral | Como a genealogia e o culto aos antepassados reconecta as raízes ancestrais

Quimbanda ancestral | Como a genealogia e o culto aos antepassados reconecta as raízes ancestrais Podemos perceber que a busca por uma Quimbanda Ancestral é um movimento crescente em todo o Brasil. Muitas pessoas têm como objetivo resgatar uma relação de pertencimento com o mundo por meio da retomada da ancestralidade. A Quimbanda, com sua estrutura religiosa de culto a Exus e Pombagiras, torna-se o principal canal de reconexão com essa espiritualidade ancestral. No entanto, quando buscamos informações que nos ajudem a restabelecer essa conexão, muitas vezes esbarramos em um sistema acessível apenas a iniciados ou àqueles que possuem melhores condições financeiras. Mas será que existem formas acessíveis de iniciar essa jornada rumo à ancestralidade de maneira autêntica, verdadeira e, ao mesmo tempo, acessível? Sim, existem! E espero compartilhar aqui uma luz no fim do túnel para todos que possam estar nessa mesma busca. A reconstrução dos caminhos até as raízes ancestrais Árvore genealógica e o choque de retorno Acredito que o primeiro passo para iniciar esse processo de reconexão com a ancestralidade deva partir do núcleo familiar, uma vez que a família é nosso primeiro elo de conexão direta com nossos antepassados, sejam eles divinizados ou não. Até que tenhamos consciência geracional — de um processo de entrelaçamento de vidas, decisões e experiências que definiram as descendências genealógicas e pavimentaram o encontro de nossos pais até que nossa existência pudesse emergir — muitos ancestrais podem manter-se recolhidos na memória inconsciente. A sabedoria ancestral das matriarcas Eu, por exemplo, passei a ter acesso aos meus ancestrais no momento em que iniciei um processo de pesquisa genealógica profunda da minha família, além de um estudo aprofundado sobre a história das regiões onde meus antepassados viveram. Mas isso ocorreu principalmente quando determinei que o centro da minha pesquisa seria a reconstrução da história das matriarcas da família. As mulheres foram aquelas que sofreram todos os tipos de apagamentos, começando pela perda do sobrenome da família de origem quando se casavam e tinham que assumir o sobrenome do marido. Com o passar das gerações, os laços com os ramos matriarcais foram se perdendo, especialmente considerando que as mulheres eram obrigadas a acompanhar o marido — o que muitas vezes significava morar em outro estado ou em cidades muito distantes. Minha avó materna, Antonia Ribeiro, por exemplo, foi afastada de parte da sua família, que em grande parte residia em Lauro Müller, em Santa Catarina. Ela teve que acompanhar meu avô, Omar Blauth, indo residir em Minas do Butiá, no interior do Rio Grande do Sul. As sombras do passado ancestral Mas parte do processo é adentrar as sombras do passado, onde habitam memórias apagadas, ocultadas e, por vezes, enterradas. Minha família, por exemplo, sempre acreditou que o ramo dos Blauth fosse isento de qualquer atrocidade no passado, mas descobri fortes relações com o sistema escravocrata. Encontrei registros, trabalhos acadêmicos, indícios de cultura do compadrio e diversos fatos comprovando que o ramo familiar esteve envolvido com a escravidão. Chamei esse momento de choque de retorno (que inclusive se tornou o título do meu livro). Da mesma forma, encontrei ramos da família ligados aos Pereira — um ramo distante da família Ribeiro, por parte da minha mãe — onde identifiquei registros de Brígida Pereira, que comprou a própria alforria e a de seus filhos, além de ter sido casada com um português, algo surreal se levarmos em conta o período sombrio da escravidão no Brasil. A reconciliação dos laços rompidos Mas há também momentos muito belos, como a reconciliação do meu pai com o ramo patriarcal dele, o ramo dos Ferreira. Meu pai, assim como meus tios, cresceu com muita mágoa do meu avô, Antonio Arlindo Ferreira, pois ele abandonou minha avó com os filhos, o que gerou profunda revolta por parte do meu pai e dos meus tios. Esse sentimento afastou-os de grande parte da família Ferreira. Porém, no processo de busca por um familiar da árvore que pudesse me iniciar na Quimbanda, acabei encontrando Antonio Gilberto Ferreira, então com 75 anos, que mora exatamente na região onde a maioria dos antepassados Ferreira viveu e ainda vive. Gilberto foi meu iniciador e meu feitor na Quimbanda Tradicional Gaúcha, o que me levou a Arroio do Meio, terra dos meus ancestrais. Isso possibilitou que meu pai reencontrasse seu primo, após cerca de 60 anos sem se verem — meu pai sequer tinha lembrança dele, pois era muito criança na última vez em que estiveram juntos. Então, os choques de retorno são catárticos, pois promovem reconciliação com os antepassados e uma poderosa ressignificação da memória. E é esse poder de ressignificação da memória ancestral que restaura o vínculo emocional com a ancestralidade, pois, nesse momento, os aceitamos, queremos tê-los por perto, pois agora os vínculos estão restaurados. Por isso, afirmo que sem memória não há ancestralidade. Ancestrais em terra, pés descalços, vida sofrida A colonização dos ancestrais, uma crítica epistêmica Pode não parecer, mas o processo de colonização foi tão profundo nas tradições de Quimbanda e Umbanda que muitas representações de espíritos ancestrais passaram a se distanciar significativamente da autenticidade de suas identidades originais. Observa-se um epistemicídio — isto é, a redução, apagamento ou substituição de saberes tradicionais — atuando de forma contínua nessas tradições. Isso se evidencia, por exemplo, em correntes contemporâneas que buscam relacionar espíritos ancestrais a modelos de evolução espiritual do kardecismo ou mesmo a estruturas de divindades europeias. Não se trata de negar que determinados ancestrais, em vida, possam ter dominado conhecimentos de outras matrizes culturais e hoje os incorporem como ferramentas espirituais. O problema emerge quando tais saberes, originalmente particulares a uma linhagem ou entidade específica, passam a ser generalizados como normas, critérios iniciáticos ou padrões universais de culto — especialmente em tradições que afirmam honrar ancestrais de território e contexto brasileiro. Um exemplo recorrente é a afirmação: “Maria Padilha tem origem na Espanha.” Embora seja verdade que o culto tenha raízes ibéricas, seu caminho até o Brasil se deu, majoritariamente, através das camadas populares. Não foi apenas a elite
Quimbanda em Porto Alegre e o culto a ancestrais e antepassados

Quimbanda em Porto Alegre e o culto a ancestrais e antepassados Ao mesmo tempo em que vemos uma explosão de pessoas buscando a Quimbanda para ter acesso a feitiços com foco em amarrações e destruição, percebemos surgir um movimento que busca, no culto a Exus e Pombagiras, o resgate da relação com a ancestralidade e a ressignificação com os antepassados. Não busco separar tradições entre certas e erradas, nem entre fundamentadas ou não, pois cada tradição possui suas bases fundantes. Se esses princípios causam efeitos positivos ou negativos, e se de alguma forma ferem valores éticos, cabe às leis dos homens e às leis universais espirituais julgar e punir o que couber a cada um. Acredito que exista uma lei evolutiva espiritual, observável em tradições bantas, por exemplo, nas quais a coesão comunitária, a integração com a natureza e o princípio de não prejudicar a jornada evolutiva de outro espírito são pilares fundamentais. Da mesma forma, não “agencio” os ancestrais e antepassados para que utilizem seu poder de ação a fim de prejudicar outros espíritos, sejam encarnados ou desencarnados. Acredito, sim, que existam diversas categorias de espíritos que podem ser manipulados para fins negativos, mas, na Rama dos 4 Caminhos, a coesão espiritual é um pilar que nos fortalece a cada ação, interna ou externa. Pensando em tudo isso, busco compartilhar perspectivas, saberes e conhecimentos, para que pessoas em busca de uma experiência semelhante encontrem um ponto de convergência na Rama dos 4 Caminhos, onde desenvolvemos possibilidades de resgate do pertencimento espiritual, comunitário e ancestral. Como a Rama dos 4 Caminhos pode ajudar você a reencontrar a sua ancestralidade Aqui, na rama, desenvolvemos possibilidades de construção de pertencimento que, em sua quase totalidade, contemplam a busca pelo saber — seja no mapeamento genealógico, no desenvolvimento de uma visão hermenêutica da ancestralidade, nas imersões rituais ou na partilha de saberes do núcleo de estudos e pesquisa. Resgate da árvore genealógica e ancestral É interessante perceber que foi justamente na busca pela história dos meus ramos familiares que resgatei a minha ancestralidade e que os antepassados e ancestrais iniciaram uma retomada de coesão espiritual dentro da família. Hoje, não sou o único dentro da família que tutela a rama: outros ancestrais já se manifestam e começam também a retomar essa coesão espiritual. A busca pela história da família, dentro de uma perspectiva genealógica, é outro pilar da Rama dos 4 Caminhos, pois, a partir dela, cavamos não apenas nas profundezas da nossa relação com as sombras familiares, mas também com as sombras de toda a família. É nesse processo que vivenciamos diversos choques de retorno, o que é fundamental para a conscientização das dívidas e responsabilidades herdadas de nossos antepassados. Utilizo minha própria família como exemplo: um dos ramos foi escravocrata, suprimindo a existência de outros. Uma série de atrocidades se entrelaçou em escolhas que pavimentaram a nossa existência presente. Precisamos resgatar a história daqueles esquecidos, apagados, assassinados — que sofreram diversas crueldades das quais muitos de nossos familiares participaram como executores — e cabe a nós recontar essa história, ressignificando nossa relação com o passado. Assim como no meu caso, encontrei também diversos familiares negros que foram escravizados e ex-escravizados, que resistiram a toda essa onda obscura da bestialidade humana e que também pavimentaram os caminhos para a existência da minha família. Nesse processo, os antepassados começaram a se manifestar, pedindo oferendas; os ancestrais também passaram a se manifestar — como Exus, Pombagiras, Encantados —, iniciando essa retomada de coesão ancestral que hoje é base e pilar fundante da Rama. Aqui, na Rama, você é instigado, estimulado e conduzido a esse resgate genealógico, que remodela profundamente as relações familiares e com os antepassados, pavimentando o presente para que os ancestrais passem a se manifestar em sua vida. Construir uma visão mais hermenêutica da ancestralidade O saber é um processo em constante construção, o que nos conduz a uma ampliação de conhecimentos que nos ajuda a aprofundar e construir uma compreensão mais plena das experiências com a ancestralidade. Na Quimbanda Gaúcha, por exemplo, em um primeiro momento pode parecer difícil mapear uma cosmologia, já que a tradição se origina de um movimento de disrupção, no qual a linha da esquerda se descola da Umbanda e se fundamenta, em grande parte, em saberes e fundamentos do Batuque. Mas, ao mesmo tempo em que isso pareça difícil, acaba ocorrendo uma fusão ampla, já que o Batuque, diferente do Candomblé — onde as nações priorizaram manter as tradições restritas a cada uma delas —, apresenta uma fusão entre as nações. Assim, podemos ver, por exemplo, voduns cultuados junto a orixás. Essa fusão de tradições é a atmosfera onde a Quimbanda Gaúcha surge; por isso, vemos nos pontos cantados antigos uma forte relação de Exus e Pombagiras com orixás e voduns. Um exemplo muito evidente dessa fusão é o ponto: “Bará da rua, Bará Exu, Bará da rua, saravá Destranca Rua.” No Batuque, o Bará da Rua é o Bará Lodê, apontado como um Bará responsável pela proteção da casa, junto com Ogum Avagã, que é um vodum. Os batuqueiros mais antigos dizem que Bará Lodê e Ogum Avagã utilizam os Exus e Pombagiras para diversos trabalhos de proteção da casa, o que reforça essa relação de troca e compõe uma cosmologia muito ampla. É através do desenvolvimento de uma visão mais hermenêutica que buscamos resgatar a historicidade dos cultos, bem como uma perspectiva teológica, que também auxilia muito no entendimento da nossa relação com o sagrado, além da importância e da estrutura ritual. Não posso deixar de citar a psicologia da religião, onde nos aprofundamos na relação do culto aos ancestrais em uma dimensão psíquica, compreendendo a importância da ancestralidade no desenvolvimento de nossas virtudes e potencialidades rumo a um estado de espírito pleno. Aqui, na Rama dos 4 Caminhos, o saber é construído a partir da reflexão da vivência sob uma ótica multifocal, para abordar a experiência da forma mais completa possível. Participar do Núcleo de estudos e pesquisa ancestral O Núcleo de
Quimbanda em Porto Alegre, uma oportunidade de conectar-se com sua ancestralidade

Quimbanda em Porto Alegre, uma oportunidade de conectar-se com sua ancestralidade A ancestralidade em terra gaúchas A Quimbanda no Rio Grande do Sul não é apenas uma modalidade ritual: é uma expressão religiosa autônoma, dotada de fundamentos próprios e de uma vitalidade única no cenário brasileiro. Mais que uma “linha de trabalho”, ela representa um culto independente a Exus e Pombagiras, estruturado em teologia, rito e cosmovisão próprios (Giumbelli & Almeida, 2021). O presente texto busca aprofundar a compreensão da Quimbanda afro-gaúcha, revelando suas origens, rituais e fundamentos, e destacando a importância histórica de Porto Alegre como seu principal polo formador. 1. A Formação Histórica: A Linha Cruzada e o Berço Gaúcho A Quimbanda afro-gaúcha emerge em um contexto de forte influência do Batuque — o culto jeje-nagô do Sul — e da Umbanda, resultando no que se convencionou chamar de Linha Cruzada: o cruzamento de fundamentos entre ambas as tradições. 1.1 O Contexto de Cruzamento e a Autonomia Ritual A Linha Cruzada surgiu no final dos anos 1950 como um ponto de encontro entre o Batuque e a Umbanda (Leistner, 2014). A Quimbanda gaúcha, entretanto, transcendeu esse cruzamento, alcançando independência ritual e deslocando Exus e Pombagiras do papel subalterno que ocupavam na Umbanda. Ressignificação: A Quimbanda reformulou a presença de Exus e Pombagiras, transformando-os de entidades marginais em forças centrais de culto. Centralidade: O eixo ritual passou a girar em torno das feituras de Exus, com assentamentos, oferendas e cortes sacrificiais análogos aos dos Orixás (Regis & Lages, 2024). Herança do Batuque: O ato sacrificial — o corte — é um dos fundamentos herdados do Batuque, garantindo a vitalidade dos assentamentos e selando a autonomia da religião. 1.2 Lideranças e Consolidação em Porto Alegre A consolidação da Quimbanda afro-gaúcha está ligada a figuras históricas que lhe deram forma e legitimidade. Mãe Ieda de Ogum: pioneira em Porto Alegre nas décadas de 1950-60, reorganizou ritos, cosmologias e valores éticos da nova tradição (Silva, 2008). O Exu da Alta: seu Exu das Sete Encruzilhadas, conhecido como Seu Sete, tornou-se símbolo da ascensão social e espiritual dos Exus, exibindo poder e requinte — a chamada estética do Exu da Alta (Leistner, 2014). 2. Rituais de Iniciação e o Culto à Ancestralidade A iniciação é o rito de passagem que sela a entrega do fiel ao espírito e conecta sua linhagem viva à linhagem ancestral. É um momento de renascimento e reintegração à comunidade espiritual (Regis & Lages, 2024). 2.1 A Cerimônia Iniciática O processo iniciático envolve uma teia de relações entre espíritos, objetos, plantas, animais e fluidos. Não há um modelo único: cada casa guarda seus segredos. Em geral, a iniciação compreende consultas oraculares, banhos de limpeza e oferendas, culminando na entrega do adepto ao seu espírito regente. Vontade e Oráculo: a adesão parte da vontade do adepto, mas deve ser confirmada pelo oráculo do Guia-Chefe. Ancestralidade e Vínculo: Exus e Pombagiras são expressões da ancestralidade pessoal do médium, e a iniciação é o elo entre ambos. Assentamento e Mão de Faca: o assentamento fixa a força do espírito; a mão de faca concede ao sacerdote o poder de alimentar essa força com o sacrifício. 2.2 A Ética da Ação Na Quimbanda, não existe a busca pela “evolução espiritual” nos moldes kardecistas. O foco é a vida presente, a transformação concreta. O poder dos Exus e Pombagiras é imanente: nasce da troca, da oferenda, do ato. 3. Autoridade, Hierarquia e Diferença A Quimbanda afro-gaúcha possui uma hierarquia complexa, em que autoridade, experiência e ancestralidade se entrelaçam. Coexistência dos Cultos: muitos terreiros abrigam Batuque, Umbanda e Quimbanda sob o mesmo teto, preservando distinções simbólicas e estéticas (Bernardo, 2021). Hierarquia Viva: a autoridade circula entre pessoas e entidades — pais e mães de santo, filhos mais antigos e as próprias entidades chefes. Curvar-se diante de um Exu é também reverenciar o poder da linhagem espiritual. 4. O Enigma Gaúcho: Exposição e Reconhecimento A Quimbanda é declaradamente cultuada no Rio Grande do Sul — um fenômeno raro no Brasil, onde historicamente foi marginalizada. Vitalidade e Números: em 2010, cerca de 28% das casas afro-gaúchas declararam praticar a Quimbanda (Giumbelli & Almeida, 2021). Visibilidade: rituais, fotografias e o uso de mídias digitais ampliaram o reconhecimento público da religião. Exus e Pombagiras são assumidos como agentes de transformação e senhores do liminar, convertendo o que é rejeitado em potência criadora. 5. A Força Inovadora da Tradição Afro-Gaúcha A Quimbanda afro-gaúcha é um testemunho de resistência, criatividade e autonomia. Sua teologia é voltada à ação, ao poder ancestral e à resolução dos desafios da vida concreta. Ao transformar o estigma em força, ela afirma uma identidade afro-gaúcha original e viva, que continua a se expandir e reinventar. Genealogia ancestral na Quimbanda da Rama dos 4 Caminhos Sementes Despertas: A Ancestralidade como Raiz Viva Vivemos em um país miscigenado, onde o apagamento histórico dos povos originários e das populações escravizadas impossibilitou a preservação da memória de inúmeros antepassados. Negros e indígenas escravizados foram privados de seus nomes de origem e submetidos a um processo de embranquecimento cultural, o que ainda hoje representa uma barreira para o resgate histórico, cultural e religioso dessas linhagens. Durante a pesquisa de minha árvore genealógica, deparei-me com registros que mencionavam apenas o primeiro nome dos escravizados, revelando uma cultura em que esses homens e mulheres eram tratados como propriedade, e não como pessoas com direito à linhagem. Em diversos períodos da história, observa-se um processo de rebatização, no qual os escravizados eram batizados por seus senhores, recebendo o sobrenome de seus algozes. Essa prática — conhecida como compadrio — servia como instrumento de controle, mascarando o cerceamento de direitos sob a falsa ideia de integração familiar. Tal mecanismo foi amplamente utilizado pelos escravocratas em momentos cruciais, como na promulgação da Lei do Ventre Livre, ou em contratos de trabalho vinculados a empréstimos para alforria, que impunham anos de servidão em troca da própria liberdade. Na Rama dos Quatro Caminhos, o resgate da árvore genealógica é um ato sagrado de reconstrução da memória,
Árvore genealógica como pilar iniciático na Quimbanda Gaúcha da Rama dos Quatro Caminhos

Árvore genealógica como pilar iniciático na Quimbanda Gaúcha da Rama dos Quatro Caminhos O resgate histórico dos ramos da minha família constitui as bases fundantes da Rama dos Quatro Caminhos como tradição — algo que se entrelaçou diretamente ao meu processo iniciático na Quimbanda Gaúcha. Meus ancestrais tutelares, a Senhora Maria Mulambo Anciã e o Senhor Zé Pelintra, assim como o Senhor Caveira (encantado) e o Senhor João Caveira, só se manifestam dentro de uma quebra das fronteiras colonizadoras que apagaram a identidade e a história de muitos dos meus antepassados. Como todo mestiço brasileiro, sou fruto de mundos e dimensões de realidades antagônicas, pois, em um mesmo espaço, conviviam forças opostas — senhores de fazenda escravocratas e negros e indígenas escravizados. O choque de retorno às raízes antepassadas desfaz a ilusão romântica de um passado sem culpa. E é com essa visão de mundo em processo de correção que, da escuridão da alma, passam a emergir forças adormecidas, que se tornam vias de reconexão com uma ancestralidade viva, carregada na memória que pulsa em nossas veias. Essa nova visão de mundo, agora desmistificada, amplia o nosso alcance espiritual — não como uma habilidade ou capacidade adquirida como prêmio por um grau iniciático conquistado, mas pela reintegração a uma comunidade ancestral, na qual deixamos de ser um e nos tornamos muitos: uma família que ultrapassa o tempo e conecta memória, natureza, vida e morte, visível e invisível, sagrado e profano, dia e noite, positivo e negativo. É por meio desses ancestrais que as fronteiras da existência deixam de ser físicas e passam a ser espirituais, onde reinados são construídos com as pedras da memória, estradas são abertas pelas raízes ancestrais, e a vida se torna o ponto de convergência presente entre o passado e o futuro. Nossos ancestrais são os agentes mágicos, sábios e líderes nessa retomada ancestral e, como ancestrais, pertencem a este território — o que nos permite resgatar identidade e pertencimento. Por isso, na Rama dos Quatro Caminhos, é pilar do processo iniciático que o neófito mergulhe em uma jornada de resgate da própria ancestralidade, em que o mapeamento histórico e genealógico serve como bússola e guia do caminho. A quimbanda como resgate de pertencimento Quando falamos de Quimbanda, Umbanda, Batuque, Candomblés e demais religiões e tradições afro-indígenas, estamos nos inserindo em um território de ancestralidades, onde costumes, comportamentos, realidades sociais e religiosidades estavam intensamente entrelaçados à natureza — ou eram vivenciados em contextos de extrema pobreza e marginalização. Não é possível imaginar uma ancestral Pombagira que traga, em seu bojo de sabedoria, a imagem de uma mulher branca europeia, moldada pelo padrão de estética branca. Se os detentores dos saberes de feitiçaria eram negros e indígenas, a estética, os costumes e as realidades eram outros. Roupas simples, por vezes em trapos, eram os únicos tecidos disponíveis para cobrir o corpo. Por isso, imaginar que uma Pombagira — um espírito ancestral — exija vestes de alto valor, distantes da realidade que viveu e da realidade do iniciado, não encontra ressonância na ancestralidade afro-indígena. É importante lembrar o aspecto do custo: certas dores são privilégios. É melhor chorar de tristeza com a barriga cheia do que chorar de fome. A Quimbanda é pé no chão, mão nas raízes, é o suor sofrido sob o sol causticante daqueles que abriram caminhos de realização. A Quimbanda é entrega — onde o medo grita e o sangue cala. Não há território mais visceral do que o chão onde Exu e Pombagira se manifestam. Por isso, esse é um espaço em que o iniciado é reintegrado a sua ancestralidade, um território que perturba as sombras da alma, mas também traz à luz da consciência a presença do sagrado. O entrelaçamento da Quimbanda Gaúcha com a Rama dos 4 Caminhos Após decidir que me iniciaria na Quimbanda, busquei tradições que me permitissem reconectar com meus ancestrais de forma mais verdadeira. Essa busca me levou às tradições de Quimbanda de influência bantu, especialmente às tradições Bakongo. No entanto, a centralização dos sacerdotes no eixo São Paulo–Rio de Janeiro se tornou um grande dificultador. Foi então que decidi revisitar a tradição da Quimbanda Gaúcha sob uma nova perspectiva, pois eu mesmo havia erguido uma grande barreira entre mim e essa possibilidade. Nesse momento, os ancestrais começaram a sinalizar que esse era um caminho genuíno — para mim e para eles. Aprofundando minha busca, procurei em minha família algum sacerdote de Quimbanda e descobri que um primo distante de meu pai poderia me iniciar. Assim, em setembro de 2025, fui até Arroio do Meio para ser iniciado pelas mãos de Antônio Gilberto Ferreira, meu primo de segundo grau, um senhor de 75 anos, iniciado pela saudosa Mãe Zila de Xapanã. Mãe Zila carregou mais de 52 anos de culto aos Orixás, Exus e Pombagiras, tendo recebido e sustentado seu legado com dignidade e fé. Curiosamente, Mãe Zila viveu no mesmo bairro onde cresci — uma ironia do destino, ou, melhor dizendo, obra de Exu. Eu havia colocado também uma grande barreira entre mim e meu bairro de infância, mas foi justamente de lá que o axé, a força e a tradição chegaram até mim pelas mãos de Gilberto. Todo esse processo iniciático se entrelaçou em uma jornada de resgate ancestral — em terras onde muitos dos meus antepassados viveram, morreram e estão enterrados. Isso me traz um valor de legado incalculável, impossível de ser medido em outra experiência. Ainda há muito o que explorar e resgatar em Arroio do Meio, dentro da construção da Rama dos Quatro Caminhos, pois é uma região de muita mata — e o Reino das Matas é um dos pilares de nossa tradição. Foi ali que muitos antepassados escravizados e ex-escravizados viveram, sobreviveram e abriram caminhos, para que, nesse entrelaçamento de destinos, eu viesse ao mundo e retornasse — para, no presente, dar início à nossa tradição. Um fundamento plantado na quimbanda da Rama dos 4 Caminhos Na Rama dos Quatro Caminhos, realizamos diversos rituais de integração com a ancestralidade.
Quimbanda e o culto a ancestrais em terras gaúchas

Quimbanda e o culto a ancestrais em terras gaúchas Falar sobre a Quimbanda com um enfoque nas tradições quimbandeiras do Rio Grande do Sul é uma aventura entrelaçada em processos de rupturas e disrupções rituais. Diferente do eixo RJ-SP, onde diversas tradições diaspóricas se mantiveram próximas e, de certa forma, preservadas, no RS verificamos um movimento interno de ruptura de grupos de espíritos que até aquele momento atuavam dentro do escopo dos rituais de Umbanda. Nesse contexto, Exus e Pombagiras estavam limitados à estrutura ritual e teológica da Umbanda. No RS, a tradição predominante sempre foi a de forte influência kardecista, marcada pelo mito fundador do Caboclo das Sete Encruzilhadas, incorporado por Zélio Fernandino de Moraes. Essa tradição de Umbanda é fruto de um processo de embranquecimento das tradições afro-indígenas, em que a figura de Exu e Pombagira passou a ser demonizada, tendo seus campos de atuação reduzidos ou totalmente apagados. Entre as décadas de 1950 e 1960, no RS, observa-se um movimento de ruptura desses agrupamentos espirituais, nos quais o sacrifício de animais passou a integrar o bojo ritual, especialmente nas feituras, abrindo caminho para um processo de inovação nos assentamentos de Exus e Pombagiras. Esse novo movimento ficou conhecido como linha cruzada, por surgir em comunidades que reuniam elementos do Batuque e da Umbanda em um mesmo espaço iniciático. É desse cruzamento que se evidencia a influência do Batuque na formatação dos rituais fundadores da Quimbanda, garantindo-lhe independência enquanto tradição. O processo de demonização de Exus, Pombagiras e até mesmo de muitos Caboclos e Pretos-Velhos ditos quimbandeiros limitou o campo de ação de espíritos que necessitam de elementos rituais proibidos nos limites da Umbanda popular. Dentro das tradições quimbandeiras, esses espíritos encontraram liberdade e ferramentas para se manifestarem de forma mais genuína, revelando sua força e seus saberes àqueles que, em sua ancestralidade, mantêm ligação com eles. É consenso em diversas tradições de Quimbanda que Exus e Pombagiras são espíritos de antepassados, ancestrais divinizados, feiticeiros e bruxos de tradições que sobreviveram ao tempo e ao apagamento. Na Quimbanda, eles se apresentam com nomes que identificam agrupamentos de espíritos ligados a funções ou campos específicos de atuação. Em algumas tradições, esses agrupamentos são chamados de falanges; em outras, de comunidades espirituais ou egrégoras. O fato é que esses conjuntos acumulam ritos, símbolos, saberes e até compartilham poder e campo de ação, o que lhes confere culto e, por consequência, relações de poder nas quais os iniciados — descendentes de tradições — ampliam suas fronteiras de atuação. É importante resgatar, na história formadora do Rio Grande do Sul, a diáspora dos povos escravizados, que em diferentes regiões do Brasil utilizaram diversos artifícios para preservar suas tradições. Cada região adquiriu particularidades nesse processo, seja por meio do sincretismo, seja por fusões de tradições. No Batuque do RS, por exemplo, divindades de diferentes origens são cultuadas no mesmo grupo. Encontramos Voduns cultuados junto a Orixás, compartilhando espaço em uma mesma comunidade religiosa. Na essência, porém, os povos preservaram o culto a seus deuses, e o mesmo se observa em todas as regiões do Brasil onde florescem tradições de matrizes afro-indígenas. Em uma análise teológica e antropológica, é possível identificar elementos comuns que apontam para um mesmo fio condutor das tradições hoje chamadas de Quimbanda. Esse fio condutor é Exu e Pombagira, estruturando o culto a antepassados de tradições demonizadas em solo brasileiro. Esses ancestrais carregam em si um verdadeiro baú de feitiçarias e saberes, que necessitam de um olhar decolonizador para serem acessados. O ponto central desse olhar é o sacrifício, o uso do sangue no processo iniciático e na manifestação desses ancestrais. Adentrar a tradição da Quimbanda exige romper com correntes colonizadoras dos povos afro-indígenas, o que implica uma ruptura cultural estrutural presente em diversas perspectivas de nossas vidas. A Quimbanda Gaúcha é um culto ou religião? Esse tópico gera diversas discussões pelo Brasil, e acredito que muito disso se deve ao fato de a imagem predominante de religião no país ser a do cristianismo católico-evangélico, que historicamente demoniza as tradições afro-indígenas. Esse processo gera uma visão distorcida do que é religião, atribuindo às tradições afro-brasileiras uma conotação negativa, o que dificulta sua aceitação como expressão legítima. Para compreendermos melhor, é necessário analisar a Quimbanda sob um olhar teológico e, se possível, também antropológico. Na Quimbanda Gaúcha, identificamos elementos estruturantes como uma cosmovisão centrada nos Exus e Pombagiras, com mitos próprios e forças ligadas a espaços sagrados, além de atributos e funções definidas de atuação. Há também uma estrutura sacerdotal, com linhagens iniciáticas, genealógicas, sistema litúrgico, ritos, feituras, calendários e uma identidade coletiva representada pela comunidade quimbandeira. Com isso em mente, não podemos reduzir a Quimbanda Gaúcha à condição de culto, pois ela reúne todos os elementos necessários para ser reconhecida como religião. Antropologicamente, pode ser considerada recente em comparação com outras tradições afro-indígenas, mas é, ainda assim, uma religião plenamente estruturada para reunir comunidade, transmitir saberes ancestrais e constituir uma cosmovisão própria. Exu e Pombagira são ou não ancestrais? Esse tópico merece atenção especial, pois gera discussões intensas, principalmente quando confrontado com a perspectiva umbandista, que trata essas entidades como espíritos voltados para a caridade e evolução espiritual. Na Quimbanda, contudo, há um enfoque diferente: a relação de Exu e Pombagira com o iniciado é marcada por um laço de consanguinidade ancestral, estabelecendo-se como culto a antepassados. Para compreender melhor essa questão, é necessário esclarecer o que torna um espírito um ancestral de fato. O que é um ancestral na Quimbanda? Em muitas tradições de Quimbanda, o ancestral é visto como um antepassado consanguíneo divinizado, detentor de saberes ancestrais, feitiçarias e bruxarias, que se apresenta em determinado momento da jornada espiritual do iniciado. Já em outras tradições, ele pode ser entendido como um ancestral comunitário: fundador, curandeiro, líder espiritual ou herói de uma comunidade. Com isso em mente, podemos identificar perspectivas antropológicas e genealógicas que, de certa forma, delimitam as fronteiras da Quimbanda no culto a ancestrais. Se determinada tradição afirma que o ancestral deve ser consanguíneo para se

