Caboclo e Preto-velho na quimbanda, por uma ressignificação do culto a ancestral

Uma retomado de territórios ancestrais

Pelo direito à memória

A terra por onde o ancestral pisou diz muito sobre os valores e as experiências que ele viveu. Não há culto ancestral que não cruze as linhas do passado e estabeleça um conjunto de memórias que formam a identidade de um povo. É difícil crer que os povos negros escravizados, assim como os indígenas nativos desta terra, tenham atingido a divinização como ancestrais por se ajoelharem perante a cruz católica. Que tenham abandonado o sonho e a esperança de retorno às suas terras, culturas e famílias em troca de uma escada moral de evolução cristã-espírita. Não. Assim como os ancestrais que vieram antes, eles sabiam que a relação, a memória e a esperança de retorno se mantinham vivas, porque, nas profundezas de suas almas, o sagrado permanecia enraizado, firme e forte, mantendo o fôlego da resistência de pé junto à esperança. Crer que uma Umbanda alicerçada em uma moral cristã-espírita seja hoje o território ritual legítimo para que esses ancestrais venham à Terra é uma tremenda ofensa, um desrespeito à memória desses ancestrais.

Hoje podemos perceber a proeminência de uma Umbanda embranquecida, com um apagamento cultural e ético-filosófico tão grande que de Umbanda só há o nome, pois os valores e saberes ancestrais ali quase não existem, tendo sido catequizados por mensagens cristãs e por uma moral reencarnacionista espírita, na qual Exus e Pombagiras, assim como Pretos-Velhos, Caboclos e Quimbandeiros, são alocados em um espaço de moral rejeitada. Todo o saber ancestral perdeu território e, ali, o sincretismo já não existe, pois as representações substituíram de vez as forças ancestrais. Jesus já não sincretiza com Oxalá; ele é colocado como igual a Oxalá nessa ótica e, por vezes, tão ou mais venerado que o próprio Oxalá yorubano.

Umbandistas de tradições embranquecidas dirão que seus fundadores, apesar de tudo, ajudaram a projetar a Umbanda no mundo, mas não assumem os erros desses mesmos fundadores, pois, se assim o fizessem, reconheceriam que ali há de tudo, menos culto à ancestralidade afro-ameríndia.

Existem tradições como a Umbanda Omolokô e também movimentos de resgate das tradições ancestrais que estão ressignificando a relação e o culto ancestral no Brasil. Dentro desse contexto, a política de terreiro torna-se arma e escudo, pois é na construção do senso de coletividade, comunidade e ajuda mútua que valores ancestrais estão em processo de retomada de território. É na coesão que Umbanda e Quimbanda se aproximam, e tenho esperança em dizer que retomem seus papéis junto às comunidades ancestrais.

Não há dois lados de uma moeda; essa é uma visão colonial, em que preço e custo são medidas de valor. O que há é o reconhecimento de que o levante ancestral parte da ótica da coesão, onde raízes se entrelaçam e a floresta volta a gerar abundância espiritual. E espírito coletivo forte é ancestralidade manifesta. E onde a ancestralidade se manifesta, o território é retomado.

A quimbanda como força de resistência ancestral

os ancestrais que não se curvaram ao embranquecimento

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Pesquisando a história da formação da Umbanda popular, que podemos contextualizar no movimento espírita, na figura de Zélio Fernandino de Moraes, entre os anos de 1900 e 1941, tendo como marco o 1º Congresso Espírita de Umbanda, observamos um forte movimento de higienização na forma de cultuar os ancestrais. Aqueles que não se curvaram aos dogmas católico-cristão-espíritas foram tachados de espíritos atrasados e, por isso, alocados como quimbandeiros. Exus, Pombagiras, Pretos-Velhos e Caboclos contrários a essa nova ordem formaram o primeiro panteão de ancestrais da Quimbanda.

Desde o seu primórdio, a Quimbanda guarda uma forma mais próxima do culto aos ancestrais, como víamos nas macumbas cariocas. É importante frisar que não foi apenas o conjunto de rituais e liturgias que se preservou, mas, acima de tudo, o direito à liberdade de manifestação ancestral, livre, sem amarras morais e sem dogmas cristão-espíritas. Na Quimbanda, preservou-se o modo de ser, o modo de existir; por isso, ela se torna um ponto, uma fenda, um território de resistência ancestral.

Não podemos reduzir esse modo de existir apenas ao palavreado tão criticado pela moral cristã, mas sim compreendê-lo a partir das dinâmicas de sobrevivência e resistência que esses ancestrais trazem: o direito ao ataque, ao feitiço, ao sangue sacrificial, o direito de lutar e resistir. Qualquer movimento contrário a isso torna-se uma tentativa de colonizar, mais uma vez, os ancestrais, pois o processo de colonização foi, acima de tudo, religioso.

E, se hoje vemos quimbandas veganas ou quimbandas cristãs, isso demonstra que ainda existe um grande esforço para apagar o modo de ser ancestral, tentando transformar a Quimbanda em mais uma versão cristianizada da cultura afro-indígena. Por isso digo que Quimbanda sem política social é “bife gourmet de feitiço”. Se não há movimento de preservação do direito à existência ancestral, então o território pertence a quem? Aos interesses capitalistas, em grande parte concentrados em ditos eruditos das tradições, nos quais a prioridade do saber se centra no eurocentrismo, utilizando como justificativa a influência ibérica, como se os saberes afro-indígenas se tornassem secundários. A quem interessa uma Quimbanda ibérico-centrada? Onde quem paga mais é quem tem direito de acesso ao território? Deixo essas perguntas como reflexão aos irmãos de luta pela memória ancestral.

Preto-velho e caboclo por inteiros

O sacrifício como ato de plenitude ancestral

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Há algo de muito contraditório em associar magia ou feitiço a espíritos ditos livres e, ao mesmo tempo, limitar seu escopo de ação com proibições e dogmas que muitas vezes são definidos com base na moral de uma pessoa — seja líder, dirigente, pai de santo — ou de um grupo que compartilha de uma moral comum. Como imaginar que o culto a Exu e Pombagira sobreviveu ao tempo exatamente por alargar as fronteiras da moral, expandindo-as para uma dimensão de resistência, e hoje vermos movimentos como cultos a Exus e Pombagiras dentro de tradições cristianizadas da Umbanda, sobrecarregadas por uma forte moral espírita, onde se afirma que espíritos evoluídos não são mais apegados a certos rituais e práticas? Destaco três motivos possíveis: a manutenção do poder — pois, uma vez que esses espaços passem a cultuar Exu, seus adeptos não precisam buscar fora, em um terreiro de Quimbanda, acesso a essas forças; o embranquecimento, que continua a todo vapor, enfraquecendo as tecnologias ancestrais afro-indígenas; e o dinheiro, já que Exu e Pombagira são forças em ação que exigem troca, e essa premissa reforça a justificativa para a capitalização das tradições.

É nas imagens do preto-velho quimbandeiro e do caboclo quimbandeiro que percebemos uma retomada silenciosa do território ancestral. Nos últimos anos, venho observando caboclos e pretos-velhos adentrando o território da Quimbanda. Eu mesmo recebi orientações diretas de Manoel Quirino, preto-velho que me assiste, para que eu fundamentasse seu assentamento dentro da Quimbanda. Nesse processo, ele deixou claro que, na Quimbanda, não seria chamado de Preto-Velho Manoel Quirino, mas de Preto Quirino. Até aquele momento, eu não havia percebido que as poucas vezes em que ele encostava em mim aconteciam em giras de esquerda na Umbanda. O mesmo ocorre com o caboclo quimbandeiro, que aparece com mais raridade, mas cujo aumento de manifestações também é perceptível. Esse movimento desmonta a imagem de que somente a Umbanda possui, em seu panteão, caboclos e pretos-velhos. Uma vez que ambos buscam a Quimbanda como território de manifestação, algo se evidencia: há um pedido de corte como fundamento. Existe uma forte relação entre a preservação do corte sacrificial e a ancestralidade desses espíritos, que em vida não apenas se alimentavam de tudo, mas também mantinham, em sua relação com o divino, o sacrifício como manutenção vital entre deuses e humanos. Além disso, o preto-velho — cuja imagem carrega a sabedoria — sobreviveu ao tempo não por restrições dogmáticas, mas por dinamismo e resiliência. Qualquer escopo restritivo é antagônico à sua própria dinâmica. O mesmo ocorre com o caboclo, que representa a habilidade de caçar e de sobreviver às adversidades da selva e às intempéries da natureza, precisando repor energia vital para continuar existindo em um mundo que tenta, a todo tempo, devorá-lo.

Na Quimbanda, entendo que preto-velho e caboclo são inteiros, pois ali possuem ferramentas e liberdade de atuação. E, caso não tenham essas ferramentas, possuem liberdade para buscá-las ou forjá-las. O erro está em supor que, por terem sobrevivido em um culto sem sacrifício, isso seja indício de evolução, esquecendo-se de que tais dogmas foram impostos forçadamente, submetendo aqueles que carregavam, em sua ancestralidade, histórias de luta, resistência e sobrevivência. Tenta-se impor que religiosidade evoluída é aquela que se acredita e se professa, como se a moral cristã-espírita fosse o único canal de evolução do espírito, classificando o sacrifício de animais como ato primitivo — como se o primitivo fosse sinônimo de erro. No entanto, vemos o mundo afundar em caos climático, doenças pandêmicas e colapsos ambientais, cujas causas apontam exatamente para o desmatamento e a falta de integração com a natureza — um modo de existência que povos nativos e escravizados sempre lutaram para preservar. A natureza não é composta por imagens angelicais, mas pela integração selvagem de sistemas que, em sua dinâmica relacional, sustentam o ciclo vital de vida, morte e renovação.

A diferença é que os povos ancestrais sempre compreenderam essas relações como sagradas. A caça, portanto, nunca foi predatória em sua essência ritual; em muitos momentos, ofertava-se aos deuses parte da caça e dos alimentos em agradecimento pela vitalidade renovada na caça, na colheita e no crescimento da família. Hoje, aquele que julga o ato sacrificial é, muitas vezes, o mesmo que compra frango embalado e carne no açougue, distanciado do processo, da morte e da responsabilidade sobre o que consome.

 

A Rama dos 4 Caminhos como núcleo e comunidade de resistência

A abertura e retomada de caminhos ancestrais

Acredito que existam formas de buscar essa retomada territorial ancestral, esse lugar de pertencimento, e uma dessas formas é a desconstrução e reconstrução de uma identidade mais genuinamente brasileira, construída a partir de todas as influências ancestrais que compõem o indivíduo. Para isso, tenho como um dos pilares na Rama dos 4 Caminhos o aprofundamento genealógico, onde diversos choques de retorno ocorrem. Entre eles, a conscientização de que, ao possuir em sua árvore genealógica antepassados colonos ou portugueses, há quase a certeza de existirem ramos escravocratas na própria linhagem — e que isso, de certa forma, pode arrastar aos descendentes dívidas ancestrais, maldições, caminhos que precisam ser corrigidos e comportamentos herdados. Da mesma forma, a identificação de ramos ancestrais negros e indígenas possibilita uma abertura mais genuína para o escopo de ação da Quimbanda e de outros cultos aos ancestrais.

No meu caso, os ancestrais que me acompanham só se manifestaram a partir do momento em que mergulhei profundamente na minha genealogia, principalmente quando abri caminho para o resgate dos ramos matriarcais da minha árvore. As mulheres foram — e ainda são — uma das principais fontes de saber ancestral, pois guardam em sua memória saberes de cura, de relação com a natureza e de dinâmicas de troca energética ligadas aos ciclos naturais, lunares e solares. As mulheres guardam em seu sagrado a possibilidade de gerar a vida e, como tal, por natureza mediam relações com o divino, como legítimas árvores sagradas.

Aqui, na Rama dos 4 Caminhos, fundamentamos nosso processo iniciático em reflexos sólidos da natureza, onde assentamentos, firmezas e feitiços estão totalmente conectados às forças naturais, e onde Exu e Pombagira são senhores que agenciam e movimentam essas forças dentro da lei natural. Não há perversão dos caminhos, não há apagamento; há resgate de forças, raízes nutridas e troncos firmes. Aqui, as sementes falam e as árvores dão frutos.

Que as forças ancestrais guiem seus caminhos, que as sementes germinem sabedoria e que suas raízes ganhem força ancestral.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as raízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.