A iniciação na Quimbanda à luz dos ritos de passagem

Introdução — Iniciação como passagem ontológica

Arnold van Gennep, em Os Ritos de Passagem (1909), demonstra que os rituais de iniciação pertencem a uma classe maior de práticas rituais responsáveis por alterar o estado do ser humano dentro da ordem social, espiritual e simbólica. Para o autor, a iniciação não é um rito simbólico superficial, mas um processo estruturado que produz uma transformação real de status.

Na Quimbanda, essa compreensão é fundamental: iniciar-se não é aderir a uma religião, mas atravessar um limiar que reorganiza a vida do iniciado, sua relação com os ancestrais, com a comunidade e consigo mesmo.

Há uma centralidade que passa a compor o iniciado, em torno da qual as pessoas começam a se mover e a se dirigir. Seja solicitando ajuda por meio de feitiços, seja buscando conselhos ou direcionamento espiritual. Durante o processo iniciático, o iniciado vai se tornando guia ao mesmo tempo em que continua sendo guiado, como se ele próprio passasse a assumir a função de um caminho referencial.

Referência em van Gennep: Introdução e definição geral dos ritos de passagem

I. Separação — a morte da vida profana

Van Gennep define a primeira fase dos ritos de passagem como ritos de separação, nos quais o indivíduo é retirado do estado anterior. Em rituais iniciáticos, isso equivale a uma morte simbólica: o sujeito deixa de existir socialmente como era conhecido.

Essa separação pode envolver:

  • afastamento do convívio social,
  • interdições alimentares e sexuais,
  • mudança de nome, vestes ou hábitos,
  • isolamento ritual.

Na Quimbanda, essa fase se manifesta no rompimento com a vida profana, quando o iniciado assume compromissos que reconfiguram sua rotina, seu tempo e suas relações. Não se trata de abandono do mundo, mas de deslocamento ontológico: o mundo deixa de ser vivido da mesma forma.

Como eu disse anteriormente, o iniciado passa a se tornar a centralidade de um núcleo de pessoas, energias e espíritos que o utilizam como meio de atuação física. Também se estabelece uma rotina oracular que passa a ser fortemente demandada pelas pessoas. Tudo isso leva o iniciado, de forma natural, a se afastar da vida anterior, passando por uma profunda mudança social e, muitas vezes, também familiar.

Referência em van Gennep: Capítulos sobre ritos de separação

II. Margem (liminaridade) — o território de Exú

A segunda fase, chamada por van Gennep de ritos de margem, descreve o momento mais perigoso e potente da iniciação. O iniciado encontra-se entre dois estados, não pertencendo nem ao antigo nem ao novo. Ele está fora da ordem comum.

Nesse período, segundo van Gennep:

  • o iniciado é ambíguo, sagrado e perigoso;
  • passa por provações físicas e simbólicas;
  • recebe instruções secretas;
  • entra em contato com o mundo dos mortos, dos espíritos e dos ancestrais.

Este é o ponto onde a leitura antropológica encontra Exú de forma direta. A liminaridade é o território de Exú, senhor dos cruzamentos, das fronteiras e das passagens. É ele quem governa o estado intermediário, onde o ego é dissolvido, as sombras emergem e o iniciado é confrontado com aquilo que precisa ser transformado.

Na Quimbanda, sonhos iniciáticos, experiências numinosas, crises existenciais e rupturas internas fazem parte desse estágio. Não são desvios do caminho: são o caminho.

Eu, por exemplo, tenho muitos sonhos iniciáticos, com orientações diretas para a criação de assentamentos e diálogos com Exú e Pombagira, mas também tive visagens de Exú; inclusive, vi a chegada de um dos meus tutelares em forma esfumaçada, vindo “comer” sua primeira oferenda votiva.

Referência em van Gennep: Capítulos sobre ritos de margem/liminaridade

III. Agregação — o retorno com responsabilidade

A terceira fase é composta pelos ritos de agregação, quando o iniciado retorna à comunidade em um novo estatuto. Van Gennep é enfático: sem agregação, não há iniciação completa.

Nesse momento:

  • o iniciado recebe reconhecimento comunitário;
  • assume novas obrigações;
  • passa a responder por funções rituais;
  • adquire direitos e deveres antes inexistentes.

 

Na Quimbanda, essa agregação se manifesta na manutenção do culto, no cuidado contínuo com os assentamentos e na responsabilidade vitalícia com Exú, Pombagira e os ancestrais. O iniciado não “ganha poder”; ele assume um pacto.

É aqui que se compreende por que o abandono do culto exige o despacho dos assentamentos: trata-se do encerramento ritual de um vínculo vivo, não de punição moral.

No meu caso, posso dizer que a passagem final ocorreu quando comecei a me tornar responsável pelo processo iniciático de outras pessoas, pois as responsabilidades se tornaram mais sérias e o tempo passou a ser organizado em prol da comunidade.

Referência em van Gennep: Capítulos sobre ritos de agregação

IV. Iniciação, morte e ancestralidade

Van Gennep aproxima explicitamente os ritos de iniciação dos ritos funerários. Ambos seguem a mesma estrutura ritual e operam transformações ontológicas equivalentes. Iniciar-se é morrer simbolicamente para renascer em outro plano de existência.

Na Quimbanda, essa lógica se expressa no contato com os mortos, na centralidade da ancestralidade e na compreensão de que vida e morte não são opostos, mas estados comunicantes.

A iniciação, assim, não é apenas entrada em um culto, mas entrada em uma linhagem viva, onde o iniciado passa a carregar memórias, forças e responsabilidades que o antecedem.

Referência em van Gennep: Trechos sobre ritos funerários como passagens

Conclusão — A Quimbanda como rito de passagem permanente

À luz de Arnold van Gennep, a iniciação na Quimbanda pode ser compreendida como um rito de passagem permanente, que:

  • separa o iniciado da vida profana,
  • o conduz pelo território liminar governado por Exú,
  • e o reintegra à comunidade com novas responsabilidades.

 

Esse modelo antropológico confirma aquilo que a tradição já sabe: iniciar-se é atravessar um ponto sem retorno. A partir daí, a vida é reorganizada em torno do culto, da ancestralidade e da manutenção do fogo sagrado.

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