Você conhece a linha de Exú Bará da Quimbanda Gaúcha?
É importante compreender que o Orixá Bará do Batuque Gaúcho não é a mesma entidade cultuada como Exú Bará na Quimbanda Tradicional Gaúcha.
Apesar dessa distinção, muitos sacerdotes afirmam que a linha de Exú Bará atua em sintonia com a força, os domínios e os fundamentos associados ao Orixá Bará. Essa compreensão é amplamente encontrada dentro das tradições da Linha Cruzada e ajuda a explicar diversas aproximações ritualísticas observadas entre os dois cultos.
Essa relação evidencia o quanto a cosmologia do Batuque influenciou a formação da Quimbanda Tradicional Gaúcha. Diferentemente de outras regiões do Brasil, onde Exú permaneceu por muito tempo restrito a uma posição secundária dentro da Umbanda, no Rio Grande do Sul a influência do Batuque permitiu o surgimento de uma Quimbanda com identidade própria e fundamentos específicos.
O principal representante dessa linha é o Exú Bará da Rua, entidade amplamente cultuada nos terreiros tradicionais do estado e associada aos caminhos, às oportunidades, ao movimento e à prosperidade material.
Exú Bará da Rua atua nos caminhos abertos, favorecendo abundância, circulação de recursos, desenvolvimento profissional e crescimento financeiro. Por essa razão, é frequentemente procurado em demandas ligadas ao comércio, aos negócios e à prosperidade.
Sua principal zona de atuação é a encruzilhada, espaço sagrado que ocupa posição central tanto no culto ao Orixá Bará quanto no trabalho dos Exús de encruzilhada da Quimbanda. A encruzilhada representa o encontro de forças, escolhas, destinos e possibilidades.
Outro aspecto relevante é a influência de Bará Lodê na formação das concepções de poder presentes na Quimbanda Gaúcha. Em muitas narrativas tradicionais, Bará Lodê aparece como uma força organizadora das relações espirituais ligadas à rua e aos domínios liminares.
Bará Lodê integra, ao lado de Ogum Avagã e Oyá Timboá ou Oyá Dirã, uma importante tríade de divindades associadas à rua. Essa tríade atua na proteção da comunidade terreira, no estabelecimento de fronteiras espirituais e na manutenção da ordem ritual.
Também é atribuída a essas divindades a regulação das relações entre o terreiro e as forças ctônicas, os espíritos errantes e demais presenças espirituais que circulam em seus arredores.
Diversos relatos tradicionais afirmam que Bará Lodê pode direcionar Exús e Pombagiras para trabalhos específicos de proteção, vigilância, defesa espiritual e guarda dos caminhos da comunidade religiosa.
Para compreender essa dinâmica, é necessário recordar que a Quimbanda Tradicional Gaúcha surgiu no contexto da Linha Cruzada, estrutura religiosa que aproximou elementos do Batuque e da Umbanda dentro de um mesmo espaço ritual.
Foi justamente nesse ambiente que surgiu o chamado Exú Cruzado. Até meados da década de 1960, os Exús ainda eram cultuados principalmente segundo concepções umbandistas. Com o tempo, passaram a receber assentamentos próprios, sacrifícios animais e processos de sacralização inspirados nos fundamentos do Batuque.
As oferendas destinadas aos Exús da Quimbanda Gaúcha também revelam essa influência. Além de velas, charutos e marafo, passaram a ser incorporados elementos como milho torrado e batata inglesa, tradicionalmente presentes nas oferendas do Orixá Bará, aproximando ainda mais os fundamentos dos dois cultos.
Diversos pesquisadores observam que esse processo representou uma verdadeira promoção ritual dos Exús. Aquilo que antes era apenas tolerado dentro da Umbanda passou a receber tratamento semelhante ao destinado aos orixás, através de assentamentos, aprontamentos e sacrifícios rituais.
Nesse contexto, o Exú deixa de ocupar uma posição subordinada e assume uma condição de soberania espiritual. Surge então a figura do Exú Cruzado ou Exú Catiço, entidade assentada, coroada e fortalecida pelos fundamentos rituais da Quimbanda Gaúcha.
A própria valorização de Bará no Rio Grande do Sul pode ter contribuído para esse processo. Diferentemente do que ocorreu em outras regiões do país, Bará sempre recebeu grande deferência dentro do Batuque Gaúcho, sendo reconhecido como orixá pleno, podendo inclusive ocupar a cabeça de seus iniciados.
Muitos pesquisadores apontam que os Exús da Quimbanda Gaúcha se beneficiaram dessa deferência prestada a Bará, aproximando-se simbolicamente de atributos como poder, soberania, autonomia e centralidade ritual.
A força de Bará também estabelece relações com diversas outras linhas da Quimbanda Gaúcha, seja através do Orixá Bará, seja pela atuação de Exú Bará da Rua. Muitos pontos cantados fazem alusão a essas conexões, evidenciando a influência de Bará na cosmologia quimbandeira.
A presença de estátuas dedicadas a Exú Bará da Rua nas cidades de Gravataí e Pelotas evidencia sua importância e sua influência na formação e no desenvolvimento das tradições da Quimbanda Gaúcha.
Mais do que uma simples linha de trabalho espiritual, a linha de Bará representa um dos exemplos mais evidentes do diálogo histórico entre Batuque e Quimbanda. Ela demonstra como a tradição gaúcha desenvolveu uma compreensão singular de Exú, marcada pela força dos assentamentos, dos sacrifícios, da soberania espiritual e do poder das encruzilhadas.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
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Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
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