A Quimbanda é do diabo? uma crítica teológica e cosmológica da centralização cristã em certos discursos contemporâneos da quimbanda
Vejo muitos sacerdotes quimbandeiros afirmando que a quimbanda é um culto de guerra, geralmente fazendo referência à demonização que a tradição sofreu historicamente por parte das igrejas católicas e cristãs. A partir disso, muitos acabam associando a quimbanda não somente a uma resistência religiosa, mas também a uma forma de luta contra um demiurgo construído na imagem do deus cristão.
Porém, vejo um grande problema nessa perspectiva quando ela passa a reduzir a complexidade da quimbanda a um conflito centrado exclusivamente na esfera judaico-cristã.
A quimbanda é uma tradição formada por múltiplas influências e camadas históricas. Nela existem contribuições de diversas matrizes africanas — yorùbá, nagô, bantu, bakongo, entre outras — além de influências indígenas, afro-diaspóricas, populares e até urbanas. Cada uma dessas tradições possui suas próprias cosmologias, cosmogonias e estruturas teológicas. Algumas possuem uma divindade criadora suprema, outras possuem princípios criadores múltiplos, masculinos e femininos, enquanto outras sequer operam dentro de uma lógica de demiurgo semelhante à tradição cristã.
Por isso, considero uma enorme redução afirmar que a quimbanda é essencialmente uma tradição de guerra fundamentada numa oposição ao deus cristão, como se esse conflito fosse o eixo central da tradição.
Essa perspectiva acaba ignorando que existem outras cosmologias que também compõem a formação da quimbanda — inclusive tradições indígenas que nunca compartilharam da mesma estrutura moral dualista judaico-cristã de bem e mal, certo e errado, salvação e condenação.
Além disso, esses outros deuses criadores, ancestrais e princípios cosmológicos raramente são lembrados ou sequer citados nesses discursos. O conflito cristão acaba ocupando o centro gravitacional da narrativa, enquanto as demais tradições tornam-se periféricas ou subordinadas a uma guerra que originalmente não era delas.
E aqui vejo uma contradição importante: muitos discursos que afirmam combater o cristianismo continuam estruturando sua visão de mundo a partir dele. O cristianismo permanece definindo:
- o inimigo,
- o campo simbólico,
- a lógica de guerra,
- a oposição espiritual,
- e até mesmo a identidade da própria quimbanda.
Ou seja, mesmo invertendo os valores, continua-se preso dentro da cosmologia cristã.
Isso produz, na prática, uma espécie de recentralização euro-cristã da tradição. E, ao meu ver, isso pode colaborar com um embranquecimento epistemológico da quimbanda, porque submete outras matrizes cosmológicas a conflitos e categorias que muitas delas nunca compartilharam.
Diversas tradições africanas e indígenas não operam prioritariamente através de um dualismo moral absoluto. Muitas trabalham a partir de relações de força, ancestralidade, movimento, equilíbrio, territorialidade, potência e reciprocidade espiritual. Nelas, uma entidade não é necessariamente “boa” ou “má” no sentido cristão; ela pode ser perigosa, quente, ambivalente, ancestral, curadora ou destrutiva dependendo da relação estabelecida.
Então, quando toda a narrativa da quimbanda passa a girar em torno de uma batalha contra o demiurgo cristão, ocorre um apagamento parcial da pluralidade cosmológica que compõe a tradição.
Isso não significa ignorar a perseguição histórica sofrida pelas religiões afro-brasileiras. A demonização existiu, a violência existiu, e a construção de discursos de resistência é compreensível dentro desse contexto histórico. Porém, transformar essa resistência no eixo absoluto da teologia quimbandeira acaba reduzindo uma tradição extremamente complexa, plural e multifacetada a uma reação permanente ao cristianismo.
A quimbanda é muito maior do que isso.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.



















