Ervas de Exú na Quimbanda Gaúcha | Unha-de-gato (Dolichandra unguis-cati (L.) L.G. Lohmann)
A espécie Dolichandra unguis-cati (L.) L.G. Lohmann, conhecida popularmente como unha-de-gato, cipó-gato, cordão-de-ouro e, em guarani, mbarakaja pyapê. Suas gavinhas em forma de garra permitem forte fixação em superfícies, o que explica tanto sua resistência quanto seu potencial invasivo. Esse comportamento vegetal, marcado pela capacidade de se agarrar e avançar mesmo em ambientes adversos, favorece interpretações simbólicas ligadas à abertura de caminhos, proteção e perseverança — atributos que, em leituras religiosas afro-brasileiras, podem ser associados à ideia de prosperar em meio à dificuldade, qualidade frequentemente vinculada à atuação de Exu.
Do ponto de vista etnobotânico e medicinal, a planta possui amplo uso tradicional entre populações indígenas e rurais. Segundo o material Nhande Pohã, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a flor da unha-de-gato é utilizada em práticas voltadas à harmonia social, sendo associada à atração de amizades e relacionamentos afetivos, além de ser empregada para aliviar estados emocionais como a raiva. Medicinalmente, a espécie apresenta propriedades anti-inflamatórias, sendo indicada para dor de garganta, e o chá da raiz é tradicionalmente usado por mulheres para o tratamento de cólicas menstruais (Nhande Pohã, MMA).
Estudos acadêmicos reforçam e ampliam esses conhecimentos tradicionais. De acordo com Paula et al. (2009), as raízes de D. unguis-cati são empregadas no tratamento de hepatite, reumatismo e inflamações, enquanto as folhas são utilizadas para alergias, bronquite, diabetes e cicatrização de feridas, e o caule é associado ao fortalecimento da imunidade. Lorenzi & Matos (2002) também registram o uso das raízes contra hepatite, e Domínguez (1928) identificou na espécie a presença de flavonoides e taninos, destacando o uso do caule contra veneno de serpentes e febre. Além do valor medicinal, Ferrari et al. (1981) apontam que as raízes tuberosas podem ser consumidas como alimento quando cozidas, apresentando textura firme e sabor suave, o que demonstra o caráter multifuncional da planta nas culturas que a utilizam (Siqueira, Freitas & Périco).
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.







