Ervas de Exú na Quimbanda Gaúcha | Araçá — “o fruto que tem olhos”
Na cosmologia Tupi-Guarani, o araçá — “o fruto que tem olhos” — não é apenas uma árvore frutífera, mas um ser que participa da consciência da mata. Seus “olhos” simbolizam a vigilância sagrada da natureza, expressão viva de Nhanderú, criador e sustentador de tudo o que existe. É dessa árvore que tradicionalmente se retira a principal madeira para a confecção do Petynguá Marangatú, o cachimbo sagrado que estabelece a comunicação com o divino. Antes de cortar a madeira, pede-se permissão ao ijara, o dono espiritual da mata, e a árvore é consagrada com rezas e fumaças. Após a confecção, é o mais velho da aldeia quem consagra o novo petynguá, realizando sua primeira queima e transmitindo, através do fogo e da palavra, a força espiritual que fará daquele instrumento um elo entre o mundo físico e o espiritual. Quando se pita o Petynguá, busca-se ouvir Nhanderú; a fumaça sagrada — que toca o Nheé, o espírito — purifica, orienta e mantém a saúde espiritual da comunidade.
Dentro dessa perspectiva teológica, o araçá participa do ciclo da criação como mediador entre humanidade e natureza. Ele não é recurso inerte, mas parte do corpo vivo da floresta que ensina, cura e sustenta. Ao ser transformado em instrumento sagrado, sua madeira continua viva na fumaça que sobe aos céus e retorna ao corpo em forma de bênção. Essa dimensão de ponte também se manifesta nas tradições afro-diaspóricas, onde diferentes qualidades do araçá são associadas a orixás como Yemanjá, Oxóssi, Oxum, Nanã, Oxumarê e Iansã. Suas folhas são usadas em obrigações de cabeça, abôs, lavagens de contas e banhos de purificação, atuando como veículo de limpeza espiritual e reorganização do axé. No Candomblé de Angola, é erva de Mutakalambô. Assim, tanto na aldeia quanto no terreiro, o araçá assume função sacramental: purifica, fortalece o ori e reinsere o indivíduo na ordem sagrada da natureza.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.








