Ervas de Exú na Quimbanda Gaúcha - Cyperus - dandá, junquinha, pinheirinho-da-praia, barba de bode, tiririca
O gênero Cyperus reúne espécies amplamente distribuídas em regiões tropicais e subtropicais, muitas delas reconhecidas tanto na medicina tradicional quanto em sistemas religiosos afro-diaspóricos. Do ponto de vista etnomedicinal, Cyperus é utilizado sobretudo para distúrbios do sistema digestivo (diarreia, disenteria, cólicas e inflamações intestinais), condições infecciosas, febre, dores e processos inflamatórios em geral. Estudos fitoquímicos apontam a presença de sesquiterpenos, flavonoides e compostos fenólicos associados a atividades anti-inflamatória, antimicrobiana, antioxidante, antinociceptiva e antipirética. Essa amplitude terapêutica fez do gênero um dos mais citados dentro da família Cyperaceae em revisões etnobotânicas globais, especialmente na Ásia, África e América Latina, onde suas raízes e rizomas concentram maior interesse farmacológico.
No campo religioso afro-brasileiro, especialmente nos rituais de Umbanda e Candomblé, o dandá (Cyperus spp.) aparece como aditivo fundamental do “vinho da jurema”, preparado com espécies de Mimosa tenuiflora (jurema-preta) e Mimosa hostilis. A literatura etnofarmacobotânica indica que essa associação não é casual: a jurema contém N,N-dimetiltriptamina (DMT), alcaloide psicoativo cuja ação pode ser potencializada por outros compostos presentes na bebida ritual. No plano simbólico, essa “parceria vegetal” estrutura o chamado complexo da Jurema, no qual planta, bebida, entidade espiritual e sistema religioso se confundem e se retroalimentam. O uso conjunto de jurema e dandá, segundo registros de campo, favorece estados de transe e incorporação nas festas de caboclo, sugerindo que a farmacologia vegetal atua integrada à música, ao ritmo do maracá e à performance ritual, compondo um sistema terapêutico onde corpo, espírito e comunidade são tratados simultaneamente.
Sob uma perspectiva teológica afro-diaspórica, Ewé Dandá é consagrado a orixás como Ogun, Oxóssi, Ossaim, Omulú, Oxumarê, Nanã, Obá e Oyá, vinculando-se aos elementos água e ao princípio masculino do èrò — energia de movimento, expansão e enfrentamento de negatividades densas.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
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Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.



