Ervas de Exú na Quimbanda Gaúcha | Sphagneticola trilobata, conhecida popularmente como margaridão, mal-me-quer, malmequer-do-brejo, picão-da-praia, vedélia, insulina, bem-me-quer e cura-tombo

Planta perene que se estende do México à Argentina, nativa no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, ela cresce em beiras de estrada, terrenos baldios, áreas agrícolas e espaços antropizados. Considerada erva daninha e incluída entre as espécies invasoras mais problemáticas do mundo, forma tapetes densos que impedem a regeneração de outras plantas. No entanto, essa mesma característica — rasteira, estolonífera, resistente à seca, ao corte, ao frio e à sombra — é, sob uma perspectiva religiosa, sinal de força vital expansiva, de axé que se espalha e ocupa território, tal como as águas que encontram caminhos onde parecem não existir.

Entre agricultores do sul do Brasil, especialmente mulheres, seu uso como coadjuvante no tratamento do diabetes mellitus foi transmitido de geração em geração. O preparo em infusão das folhas revelou efeitos hipoglicemiantes confirmados por exames clínicos, além de estudos farmacológicos indicarem redução de glicemia, colesterol e triglicerídeos, bem como ação anti-inflamatória tópica. Na cosmologia afro-diaspórica, não é coincidência que uma planta associada ao equilíbrio do “açúcar do sangue” seja vinculada a Oxum, orixá das águas doces, do feminino e da regulação dos fluxos vitais. O sangue é água que circula no corpo; equilibrá-lo é harmonizar a corrente interna. Assim, a vedélia atua tanto no plano biomédico quanto no simbólico, restaurando o fluxo e apaziguando excessos.

Conhecida no universo yorubano como Èwé Bánjókó, é classificada como folha de elemento água/feminino (gun) e relacionada a Oxum e Xangô, sendo utilizada em rituais de iniciação, lavagens sagradas e consagração de objetos rituais de orixás como Bará, Ogum, Odé, Ossaim, Oyá e Xangô. No culto de Ifá, participa da purificação de elementos sagrados; nos terreiros, integra banhos que despertam sensações corporais intensas, ativando o campo energético do iniciado.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.

Aqui, as sementes falam, as reízes crescem e os ancestrais dão frutos.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

Reino das Matas na Quimbanda - Culto a ancestrais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.