Auto iniciação na quimbanda e a morte da tradição
A iniciação na quimbanda como tecnologia coletiva de transmissão
Por que ninguém se inicia sozinho
Um chamado espiritual não pode ser confundido com pacto ritual! Você pode sentir, perceber, interagir com a espiritualidade e até mesmo ser orientado por ela, mas isso não o torna pactuado ou iniciado em uma tradição como a Quimbanda.
É muito importante pontuar que o fundo bantu da Quimbanda se mantém em diversos aspectos dentro das tradições, seja no culto aos ancestrais, seja na forma como esses ancestrais recebem culto por meio de assentamentos, mas principalmente pela coesão coletiva das comunidades. E, dentro dessas coletividades, o saber é compartilhado por meio da oralidade — não apenas pelo conhecimento em si, mas pela experiência que esse saber proporciona — e isso somente aqueles mais velhos que você, dentro da tradição, possuem. Por isso, autoiniciar-se é romper com a corrente ancestral sobre a qual a Quimbanda é fundamentada.
Se o ancestral se apresenta como Exu ou Pombagira, então ele já traz em seu escopo de ação um forte direcionador iniciático. Cabe a você buscar descobrir em qual tradição ele melhor vai atuar em sua vida e em qual tradição mais bate forte no seu coração. Cada tradição possui estruturas rituais, magias, filosofias, códigos, aprendizados e processos iniciáticos que traduzem, da melhor forma, o escopo de ação que o ancestral quer trazer para sua caminhada. Achar que você é autossuficiente é um grande desrespeito ao seu ancestral, pois você está negando a si mesmo o processo de aprendizagem com os mais velhos, com tradições antigas, com fundamentos de culto aos antepassados e ancestrais dos quais o seu próprio ancestral fez parte em vida. Pare e pense nisso: quando um ancestral traz sua manifestação como Exu ou Pombagira, ele está reforçando a importância de você entrar nessa corrente ancestral, e não de instituir uma nova. Ele não está sozinho do outro lado — por que você estaria? Por que você acha que é isso que ele quer para você? Isso é ego, orgulho e vaidade, e tudo isso é uma armadilha.
Exu e Pombagira reforçam a resistência das tradições ao colonialismo que foi imposto aos povos negros e indígenas no Brasil. As tradições preservaram saberes ancestrais e, acima de tudo, a memória. Sem memória preservada não há culto ancestral, e essa memória é compartilhada no ritual, no uso da erva, na passagem de uma mão de faca, no fundamento de assentamento de Exu e Pombagira, no ponto cantado, no aprendizado de um toque no tambor. Autoiniciar-se na Quimbanda é negar a memória ancestral — e onde não há memória, não há ancestralidade.
A destruição da autoridade tradicional
Quando o mais velho vira obstáculo
Não presto satisfação a ninguém, então assumo total responsabilidade? E a quem a força de Exu responde: a quem deseja ou a quem é outorgado? Exu é um ancestral que pode ser evocado a partir de uma simples oração, ou sua força se manifesta por meio do fundamento ritual? Sentir a presença de Exu basta para ser iniciado na Quimbanda? Se Exu possui reino, território e lei, o pacto não deveria ser necessariamente coletivo?
São muitas perguntas que precisam ser enfrentadas para que se encontre uma justificativa minimamente coerente para a auto-iniciação na Quimbanda. O mais velho é símbolo vivo da tradição; porém, na lógica da auto-iniciação, ele passa a ocupar uma nova zona de marginalização, já que deixa de ser reconhecido como transmissor legítimo dos saberes ancestrais. A auto-iniciação é, portanto, a marginalização dos anciões das tradições de Quimbanda.
Os mais velhos são pilares ancestrais: canais de uma grande corrente espiritual, sustentáculos de comunidades. Alicerçam o saber com a experiência vivida, com o conhecimento adquirido no tempo, na prova e no rito. São base sólida porque acolhem e orientam, transmitindo segurança por meio do fundamento. O autoiniciado, ao contrário, não possui alicerce ancestral, não participa de corrente legítima, não encontra base que o sustente. Onde falta coletividade, sobra ego.
Epistemicídio e homogeneização da quimbanda
Quando tudo vira “Exu universal”
Promover uma cultura de autoiniciação é promover o epistemicídio das tradições de Quimbanda. Trata-se de um modus operandi colonizador, que embranquece as tradições, uma vez que a autoiniciação não absorve estruturas nem saberes ancestrais e abre portas para que conhecimentos diversos, oriundos de outras tradições — muitas vezes até antagônicas —, sejam inseridos dentro de uma suposta Quimbanda. É assim que vemos surgir desde “quimbandas veganas” até “quimbandas cristãs”, para citar apenas exemplos gritantes e que já se tornaram realidade.
Defendo profundamente a busca por um conhecimento hermenêutico das tradições como forma de ampliar o entendimento, mas isso não pode servir de premissa para reduzir Exu e Pombagira a arquétipos de anima e animus. Exu e Pombagira utilizam dessas estruturas simbólicas, mas não se reduzem a elas. Os ancestrais têm força para manipular elementos simbólicos, e quando reduzimos Exu a arquétipo estamos afirmando que ele é o símbolo, e não o agente — e isso constitui uma falha teológica imensa. Exu atua na criação; ele não é um produto resultante dela.
Constantemente vejo espiritualistas de correntes de Umbanda com forte influência kardecista definirem escopo e moral para Exu e Pombagira, como se eles fossem espíritos cristianizados, que agem — ou deveriam agir — dentro de um código ético-moral cristão-espírita. Associam Exus e Pombagiras que pedem corte a espíritos “atrasados”, que ainda não teriam entrado na linha de evolução espiritual apregoada pelo espiritismo. Tentam colonizar Exu e Pombagira, como se os ancestrais que ali se manifestam se submetessem a um ideal colonizador. Exu e Pombagira atuam dentro de uma territorialidade anticolonial e, por isso mesmo, são forças combatentes a esse modelo.
Além disso, promover essa visão cristã-espírita sobre Exu e Pombagira é fomentar um epistemicídio disfarçado de bondade. Trata-se de racismo religioso e, como tal, passível de enquadramento como crime de injúria religiosa.
Embranquecimento ritual e higienização do sagrado
O desconforto com o sangue, os mortos e a terra
Na Quimbanda, o ego é suplantado pelo sangue. Não há espaço para códigos morais individuais que se sobreponham ao fundamento ancestral. Você até pode ser vegano e ser quimbandeiro, mas deve cumprir os preceitos necessários — do sacrifício animal ao enfrentamento dos inimigos. Essa tentativa de embranquecimento das tradições de Quimbanda foi a mesma que ocorreu com as macumbas em todo o Brasil, assim como se deu com o movimento espírita entre os anos de 1900 e 1920, culminando no advento do mito fundador da Umbanda associado a Zélio Fernandino de Moraes.
Em breve veremos vertentes de “quimbanda cristã”, nas quais rezar Pai-Nosso e Ave-Maria será tratado como fundamento de “Quimbanda”. Os absurdos não param aí: já se chega ao ponto de supostos “ancestrais” darem consulta por videochamada, esvaziando de vez o território sagrado. Abre-se, assim, a premissa para que o passe a distância espírita se converta em “descarrego a distância” na quimbanda cristianizada. A autoiniciação permite exatamente isso: a entrada de comportamentos desviantes da ancestralidade, nos quais o chão, a terra e os mortos precisam ser higienizados para se tornarem aceitáveis.
Traição à continuidade ancestral
Onde não há transmissão, há ruptura
Se a ideia de autoiniciação na Quimbanda se tornar um fenômeno cultural, veremos uma ruptura com diversas tradições, além da construção de olhares que desvalorizam o saber ancestral que as sustenta. Contudo, há um ponto central nesse contexto que talvez represente a maior das rupturas: a comunidade. Para que exista comunidade, é necessário haver compartilhamento de saberes, de uma base cultural comum, de experiências vividas e de rituais nos quais os ancestrais vêm à terra para acolher seu povo e aqueles que buscam cura.
É a comunidade que guarda uma tradição e a transmite adiante. Na autoiniciação, porém, onde não há tradição, não há saber a ser partilhado, não há experiência coletiva, não há força ancestral que circule entre os seus. O que surge é o individualismo, a fragmentação da comunidade e, por consequência, o apagamento cultural e religioso. Posso afirmar categoricamente: a autoiniciação é uma traição à continuidade ancestral.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as raízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

