Assentamento para Exú e Pombagira na quimbanda
O assentamento de Exu e Pombagira na Quimbanda ocupa o centro ritual da relação entre o iniciado e o ancestral. É por meio dele que o quimbandeiro estabelece comunicação e realiza diversos rituais junto a Exu e Pombagira, sejam eles voltados à prosperidade, amarrações, ataques, defesas ou, acima de tudo, à devoção. O assentamento é um canal entre o iniciado, o ancestral, o reino de Exu e todas as forças que o ancestral traz em seu arcabouço de trabalho.
Ele é constituído por elementos energéticos e simbólicos que funcionam como âncoras e pontos de atração, possibilitando a manifestação de Exu, de Pombagira e de suas forças na vida do iniciado e de sua comunidade tutelada.
Não tenho a pretensão de esgotar o assunto neste conteúdo, até porque existem muitas tradições de Quimbanda, e cada família ou Rama possui suas próprias peculiaridades e fundamentos. Isso abre um leque imenso e diverso de práticas e compreensões, tornando a Quimbanda acolhedora de uma grande diversidade de consciências.
Busco compartilhar observações e conhecimentos adquiridos ao longo dos meus 20 anos de macumba, somados a estudos e pesquisas particulares, bem como à vivência que venho construindo junto à Rama dos 4 Caminhos. Assim, este conteúdo não tem o objetivo de confrontar outras tradições ou famílias de Quimbanda, mas sim de acrescentar mais uma perspectiva a essa infindável jornada iniciática no culto aos ancestrais.
O oráculo e a voz ancestral na fundamentação do assentamento
Existem elementos essenciais em um assentamento, assim como elementos próprios da fundamentação da família e, principalmente, elementos particulares do ancestral assentado, seja Exu, Pombagira, Caboclo, Preto-Velho ou Encantado. Cada ancestral, mesmo estando vinculado a uma linha específica, traz energias, forças e formas de trabalho muito particulares, e o assentamento ressoa essas singularidades.
Para que essas características sejam incorporadas como fundamento, é necessário recorrer ao oráculo. Esse processo pode ser bastante desgastante para o oraculista, pois diversos elementos precisam ser validados a fim de confirmar sua inclusão no assentamento. Além disso, exige-se um esforço do sacerdote para canalizar intuições, vidências e demais capacidades que possam contribuir para o levantamento desses elementos.
Essas particularidades definem o tom da comunicação e tornam a relação entre o iniciado e o ancestral muito mais assertiva e manifesta.
O macrocosmo e o microcosmo no reinos de Exú e Pombagira
O assentamento também é um canal entre o iniciado e o reino de Exu e Pombagira. Por isso, muitas vezes temos permissão para arriar oferendas pertinentes a determinado reino diretamente à frente do assentamento, sem a necessidade de ir fisicamente até esse reino.
Suponhamos que seja necessário realizar um ritual de prosperidade e que a oferenda precise ser destinada ao reino das Matas. Caso o iniciado possua um ancestral tutelar pertencente a esse reino, é possível consultar o oráculo e confirmar se a oferenda pode ser arriada ali mesmo, à frente do assentamento. Em muitos casos, haverá permissão para isso, o que facilita significativamente os trabalhos do quimbandeiro. Existem reinos, como Lira, Matas e Encruzilhadas, que facilitam diversas entregas em reinos distintos, pois representam vias liminares de transição entre realidades ou, como no caso das Matas, reinos que abrigam uma diversidade imensa de elementos e forças.
Dessa forma, o assentamento configura-se como um microcosmo de um ou mais reinos, no qual elementos essenciais desses reinos trazem forças e energias que pavimentam a manifestação dos ancestrais. Enquanto cosmos, é importante também perceber as fronteiras sagradas que cada reino abarca, pois um reino dialoga com diversas outras consciências espirituais, encantadas, divindades e seres sagrados, além de todo o espectro de funções que o compõe. Essas funções, de maneira direta, delineiam as possibilidades de trabalhos que podem ser realizados. Fica a observação: compreender as funções de um reino pode abrir grandes portas para a realização de diversos trabalhos. Um exemplo é o reino das Matas, no qual encontramos múltiplos biomas, sistemas, ecossistemas e forças de interação entre essas funções.
Muitos dos elementos presentes no assentamento são representativos, carregando valores simbólicos específicos; contudo, ele pode — e deve — conter também elementos naturais reais, coletados diretamente no reino. Essa coleta precisa envolver uma relação de troca e, sobretudo, a construção de um vínculo que se estabelece no próprio ato da coleta. É fundamental buscar compreender as formas corretas de adentrar os reinos, para que energias contrárias não sejam alocadas no iniciado. Todo reino possui seus protetores, e por isso o respeito e o cumprimento dos protocolos são indispensáveis.
Como exemplo, no reino das Matas, em muitas tradições de culto aos ancestrais, observa-se o uso de fumo de rolo e mel como oferendas para a entrada, além de água, para que os caminhos sejam férteis e para que sua energia colabore com a fertilidade das matas. Ressalta-se, contudo, que esses são apenas exemplos: cada tradição possui suas próprias técnicas, saberes e rituais de entrada, coleta e entrega de oferendas. Também é recomendável recorrer ao oráculo para buscar, junto ao ancestral tutelar, as formas adequadas de acesso ao seu reino.
O poder da terra e a morada do ancestrais
A terra come; a terra gera vida. A terra é o útero primordial, geradora da vida e, ao mesmo tempo, morada de toda a existência. A terra é morte, pois se alimenta dos corpos, mas é um alimentar-se que recicla, que renova, que a torna fértil, para que a vida se sustente e novas vidas nasçam e até mesmo renasçam. A terra é sustento, seja da natureza, seja como base para a realização de um negócio, seja como fundamento para o entretenimento, seja como morada dos mortos.
Todos esses significados e funções podem se cruzar no momento em que a terra passa a compor um assentamento. Isso se torna uma brecha para o quimbandeiro perceber quais realizações aquela terra sustenta, alimenta, degrada, consome e recicla. Esses aspectos podem se tornar fundamentos, desde que o iniciado saiba cruzar tais relações com as linhas de trabalho.
Toda terra também é cemitério, morada de antepassados e ancestrais, pois vida e morte acontecem o tempo todo sob a terra, em todos os lugares e a todo momento. Por isso, a terra compõe o assentamento: ela é ligação com os mortos e, justamente por isso, deve “comer”, para dar vida ao vínculo entre o iniciado e Exu e Pombagira.
Para deixar um exemplo objetivo que ajude a compreender as funções da terra e sua relação com os reinos e com o ancestral assentado, imagine um trabalho negativo que precise ser desfeito e cujo ancestral seja do cemitério, como o Senhor João Caveira. Nesse caso, a terra do cemitério presente no assentamento, além de abrir o portal para o reino do cemitério, ativa sua função de putrefação e degradação da matéria. Assim, essa força pode ser alocada para desfazer o feitiço negativo, bem como para acessar outras forças e seres do cemitério que auxiliem nos trabalhos.
As favas e as essências ancestrais
As sementes são um fundamento da Rama dos Quatro Caminhos, e isso tem um porquê, principalmente porque toda semente guarda uma essência ancestral. Toda semente é uma descendência inalterada de um saber da natureza profundamente ancestral. Trata-se de uma vida vegetal que existe há milhares de anos no planeta e que preserva sua continuidade por meio da memória intacta de sua capacidade de desenvolver-se em condições específicas e propiciatórias; é aí que reside um saber.
As favas carregam uma essência ancestral que propicia o crescimento de uma força ancestral, e nutri-las é nutrir a força assentada. Cada reino, ancestral, Exu, Pombagira, Caboclo e Preto-Velho possui favas e sementes específicas que podem facilitar o despertar da força ancestral do reino ao qual pertencem. Por isso, faz-se necessário um estudo aprofundado não apenas das favas, mas também do bioma e do ecossistema aos quais essa força se relaciona, compreendendo o que isso trará em termos de forças, energias e possibilidades para o assentamento.
Vultos, fetiches, imagens e corporificação de Exú e Pombagira
Esse tema é muito interessante, pois contempla uma diversidade de assuntos e reflete tanto a forma como visualizamos os atributos manifestos do ancestral quanto o papel do vulto ou da imagem como agregador de símbolos essenciais desse ancestral. Trata-se, sobretudo, do que chamo de um sonar simbólico, a partir do qual ecoa a força do ancestral canalizada no assentamento. Todas as energias, forças e símbolos que compõem o assentamento — no vulto, na imagem — são ali canalizados, transformados, ajustados e manifestos na percepção que vamos desenvolvendo do nosso ancestral.
Na minha experiência, alguns dos vultos e imagens que compõem os assentamentos me foram mostrados em sonhos ou em visagens, com especificidades muito particulares do ancestral. Inclusive, três dessas imagens são totalmente específicas, não sendo encontradas em floras ou lojas de artesanato religioso; todas precisam ser confeccionadas de forma totalmente artesanal. A imagem do Senhor João Caveira, por exemplo, foi feita inteiramente por mim, embora em sonhos também me tenha sido apresentada uma forma geométrica simples que poderia ser utilizada.
É possível oracular para obter diretrizes para a busca ou confecção do vulto ou da imagem, mas é importante exercitar a criatividade intuitiva nesse processo, pois trata-se da abertura de um canal de comunicação sagrada. Os olhos do iniciado passam a compor uma visão mais ampla, que integra intuição, saber e até mesmo emoções ao longo do processo.
A criação do vulto ou da imagem também pode envolver consagrações, como ativações por meio de macerações de ervas, defumações e, por fim, o recebimento do sangue sacrificial junto ao assentamento. Com a regularidade do culto, desenvolve-se gradualmente uma forte vidência com a imagem ou o vulto, pois, em inúmeros momentos, o iniciado percebe expressões no rosto das imagens, bem como movimentos sutis que reforçam intuições, percepções, respostas e formas de comunicação. Assim, direcionar a fala diretamente à imagem torna-se uma maneira eficaz de canalizar a intenção da comunicação.
Ferros, facas e estacas, da proteção a abertura de caminhos
Na Quimbanda Gaúcha, tradicionalmente, as ponteiras são incluídas nos assentamentos e, de modo geral, desempenham a função de proteção. No entanto, é necessário olhar para as ponteiras de forma mais profunda, pois o ferro é um elemento trabalhado no fogo, em altas temperaturas, onde se torna maleável para que seja possível dar forma a um objeto específico. Assim, as ponteiras também representam o esforço de Exu, de Pombagira e do iniciado em se fortalecerem, desenvolvendo a capacidade de transformação necessária para atingir objetivos sem que esses mesmos objetivos nos sucumbam. O fogo representa essa força transformadora de Exu, com o poder de moldar realidades — uma força trickster por natureza.
Além das ponteiras, encontramos facas, facões, pontas de lança, machados e outros objetos cortantes que, além da proteção, carregam a função de cortar e abrir caminhos. Exu e Pombagira são senhores dos caminhos e, dependendo do objeto cortante solicitado pelo ancestral para compor seu assentamento, este pode carregar uma função direta relacionada à forma como o ancestral atua na abertura desses caminhos. Objetos cortantes de grande porte costumam estar associados a cortes mais profundos, relacionados a aspectos que exercem grande influência na vida do iniciado. Assim como um facão corta galhos, pode-se dizer que os caminhos são abertos por meio de lapidações, pelo corte de excessos, criando espaço para a continuidade do desenvolvimento e do crescimento. Já o machado pode ser associado ao corte de vínculos, uma vez que é utilizado no corte de troncos, podendo simbolizar o encerramento de ciclos ou uma poda total, voltada a uma correção drástica na vida do iniciado. Esses são exemplos básicos, pois as funções de corte estão sempre cruzadas com as forças do reino e com as formas de trabalho do ancestral.
As estacas, por sua vez, são utilizadas como forma de aterramento das forças, materializando ainda mais as energias de Exu e Pombagira no assentamento. Muitas vezes confeccionadas a partir de galhos de árvores, elas também representam aspectos elevados do ancestral, canalizando essas forças para o assentamento. Cada galho de árvore específica possui funções específicas. Um exemplo são as estacas de aroeira, considerada uma erva quente de Exu; nesse caso, além de canalizar suas forças e energias, ocorre também a ativação dessas potências no assentamento. É fundamental recorrer ao oráculo para saber quais estacas podem ser incluídas, a fim de evitar ruídos energéticos, pois, em muitos casos, a própria proibição das estacas é indicada pelo oráculo. Percebo, inclusive, que em algumas situações o assentamento precisa maturar por um período, para que, posteriormente, o iniciado receba a permissão para a inclusão das estacas.
Dando vida ao assentamento com a mão de faca
Na Quimbanda Gaúcha, a iniciação ocorre quando o iniciado passa pelo ritual da mão de faca. É nesse momento que se realiza a feitura dos assentamentos de seus Exus e Pombagiras e, juntamente com a faca ritual de corte, acontece também o ritual de passagem, tornando o iniciado apto a iniciar outras pessoas, podendo, assim, passar a mão de faca para outros.
Dependendo da tradição, antes que a pessoa seja iniciada e tenha sua feitura realizada, ela passa por um período determinado no qual adquire conhecimentos importantes e vivencia processos de desenvolvimento da sua relação com seus Exus e Pombagiras.
É na feitura que o assentamento ganha vida, por meio do sangue sacrificial, momento em que ocorre a ligação ritual entre o iniciado e o ancestral, para que, a partir de então, o culto e a linha de trabalho sejam desenvolvidos. Esse ato é realizado pelo feitor do iniciado no momento de dar vida ao assentamento, e somente após esse ato, com a devida outorga, o iniciado passa a ter permissão para cortar para o seu ancestral.
Aqui há uma passagem muito especial e importante: o assentamento é alimentado pela primeira vez pelo sacerdote iniciador. Sua faca é a primeira a alimentar, ligando, assim, ancestrais, iniciado e iniciador a uma tradição, a uma família. Trata-se também de um ato de partilha da força — do axé, do ngunzu — para que ela circule entre a família ancestral e a família genealógica religiosa. É, ainda, um ato de amor e, por isso, deve ser honrado, pois é o mais velho na tradição quem compartilha, com seus ancestrais e com você, a própria vida.
O culto e devoção a Exú e Pombagira
Uma vez que o assentamento ganha vida, essa vida precisa ser alimentada. Ali, Exu e Pombagira recebem suas oferendas de louvação, oferendas votivas e oferendas destinadas a trabalhos diversos, como saúde, prosperidade, ataques e defesas. É na regularidade do culto e comportamento resignado e contínuo dessa prática que a relação entre o iniciado e Exu vai se estreitando, e os caminhos para a ancestralidade vão se abrindo. Negligenciar o culto é negligenciar a relação com o ancestral; por isso, é necessário estar preparado para assumir essa responsabilidade, pois ela demandará tempo, cuidado e muita devoção.
Cada tradição possui sua própria forma de manutenção do culto, seja por meio do uso de bebidas, velas, padês, oferendas e até mesmo pela regularidade — ou não — de sacrifícios de aves e de quatro pés.
Também é importante não banalizar o assentamento, tentando agenciar as forças de Exu e Pombagira apenas para a realização constante de trabalhos de cunho negativo, pois, dessa forma, serão somente essas forças com as quais o iniciado estará continuamente se relacionando. Sou bastante crítico nesse aspecto, pois considero contraditório acionar as forças de um ancestral para atacar outra pessoa por motivos egóicos, vaidosos ou movidos pelo orgulho. O ancestral torna-se divinizado por representar uma importância coletiva para sua comunidade; assim, a relação com ele, por si só, já deveria ser uma dádiva, uma bênção, pois nossa espiritualidade passa a ressoar de forma positiva, trazendo-nos paz de espírito.
Deixo, portanto, uma orientação e um alerta quanto ao cuidado de não sobrecarregar a relação com o ancestral com linhas negativas de trabalho. Não se trata de uma postura puritana, pois existem, sim, linhas de trabalho negativas necessárias, como firmezas de defesa e ataques de resposta; contudo, essas ações devem ter como finalidade a proteção e a manutenção da vida do iniciado e da comunidade tutelada.
Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodu de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga e a liderança do culto aos mortos da nossa rama.
Aqui, as sementes falam, as raízes crescem e os ancestrais dão frutos.
Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.
Participe, é totalmente gratuito
Núcleo de estudo e pesquisa ancestral
O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.
Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

