O poder da simplicidade: resgatando os fundamentos tradicionais de exú e pombagira na quimbanda gaúcha

A crítica à opulência: quando o excesso cobre o fundamento

A Quimbanda, em sua essência, é uma religião de raízes populares, forjada nas periferias e nas classes de baixa renda, onde os elementos centrais para o culto eram, por necessidade e princípio, de acesso simples e, muitas vezes, sem custo. No entanto, o usuário aponta uma tendência contemporânea que inverte essa lógica: a busca por assentamentos opulentos, repletos de ouro, prata e pedras preciosas, que transformam a iniciação em um produto de alto custo. Essa prática é vista como uma mentalidade colonizadora que se infiltra nas tradições afro-indígenas, contrariando a base ética de simplicidade e acessibilidade que marcou a fundação do culto aos ancestrais brasileiros.
A crítica é clara: a opulência não garante a potência. O que define um assentamento como morada de poder de um ancestral é a sua fundamentação e a resposta que ele oferece ao iniciado.
 
“O assentamento pode conter ouro e diamantes, mas, se não responde, ali não é a morada de um ancestral — seja Exu, Pombagira, caboclo ou preto-velho.”
 
O verdadeiro poder reside na simplicidade resignada e na regularidade do culto . A Rama dos 4 Caminhos resgata essa perspectiva, valorizando os elementos naturais e acessíveis que historicamente compuseram os fundamentos da Quimbanda Gaúcha: sementes, terras, ossos, pedras, água e ervas .

A simplicidade dos fundamentos: o legado da quimbanda tradicional gaúcha

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A tradição da Quimbanda Gaúcha, baseia-se em fundamentos que datam de mais de cinquenta anos, transmitidos por linhagens como a de Mãe Zilá de Xapanã e Antônio Gilberto Ferreira. Estes fundamentos demonstram que a força dos assentamentos de Exú e Pombagira reside na força dos fundamentos envolvidos, e não na quantidade ou no valor material dos itens.
O contraste entre o “antigamente” e o “hoje” é notável, especialmente no que tange às oferendas. O relato de Antônio Gilberto Ferreira, feitor de Thiago (líde da Rama dos 4 Caminhos), é emblemático:
 
“Antigamente, a orientação era cortar para o Exu e a Pombagira tutelares uma vez por ano. Hoje, um iniciado parece mais um sócio de um matadouro.”
A relação com Exú e Pombagira, que deveria ser mantida por padês, comidas e bebidas simples, passou a ser quase exclusivamente definida pelo excesso de sacrifício animal. Onde há exagero, falta simplicidade; e onde falta simplicidade, falta a essência. A simplicidade, neste contexto, é um ato de resistência contra a mentalidade capitalista que busca quantificar e mercantilizar o sagrado.
 

A ética do suor: o valor do esforço pessoal na iniciação

A iniciação na Quimbanda, na visão da Rama dos 4 Caminhos, é um processo que exige sacrifício não animal, ou seja, a entrega de um ou mais aspectos da vida profana. O pagamento de maior valor não é o dinheiro, mas o suor — o esforço pessoal, a disciplina e a dedicação contínua ao culto.
 
Elemento
Simplicidade (Tradição)
Opulência (Crítica)
Morada de Poder
Fundamentação e Resposta.
Luxo e Quantidade de Itens.
Pagamento
Suor, Disciplina, Culto Regular.
Aquisição, Dinheiro, Excesso.
Oferendas
Padês, bebidas simples, sacrifício anual.
Excesso de sacrifício animal (sócio de matadouro).
Materiais
Sementes, terras, ossos, pedras, ervas.
Ouro, prata, pedras preciosas.
 
A iniciação é um pacto de entrega que exige a morte da vida profana para o ingresso em uma nova vida sagrada. O iniciado deve buscar o equilíbrio, pois acessar a força de Exú e Pombagira em desequilíbrio é trazer para si o peso da justiça. A simplicidade, portanto, é a chave para manter o foco e a essência do culto, garantindo que o elo entre o iniciado e o ancestral seja alimentado pela fé verdadeira e não pela vaidade ou ganância.
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Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.