Quimbanda ancestral, o despertar das raízes

Não há caminho ao ancestral sem raízes; não há raízes ancestrais sem memória; e não há memória sem resgate. Todo quimbandeiro deveria ser um arqueólogo, um historiador, um antropólogo. Nossa história ancestral foi roubada, ocultada, apagada, embranquecida, soterrada pela ignorância e pela ganância daqueles que hoje preferem romantizar o sangue de negros e indígenas escravizados, criando folclores e fantasias de tradições supostamente guardiãs das forças da natureza.

Acredito que não há culto à ancestralidade — seja na Quimbanda, na Umbanda ou em qualquer outra tradição — se não houver choque de retorno, se não houver catarse, se os porões do inconsciente não forem escavados à luz da chama purificadora das sombras. E purificar sombras não é jogar luz sobre elas, mas revelar toda a força potencial que ocultam.

E nossos ancestrais estão lá: muitos adormecidos em memórias apagadas, outros ocultos em saberes, outros ainda perdidos em tempos imemoriais, aguardando lapsos atávicos de forças tectônicas, telúricas, forças descomunais que despedaçam a consciência daqueles que não têm coragem de gravar os nomes dos esquecidos nas lápides da memória ancestral.

Desconstruir ilusões é um passo vital para todo iniciado que deseja incorporar em si qualquer força ancestral. Minha família, por exemplo, por muito tempo construiu uma imagem fantasiosa a respeito do ramo Blauth — antepassados colonos alemães — como se eles tivessem vivido uma história digna de uma memória livre de culpas e comportamentos condenáveis. No entanto, minha pesquisa genealógica demonstrou que muitos foram escravocratas.

E, antes que algum descendente de colonos alemães diga que colonos não tinham permissão para possuir escravizados, afirmo que isso é um mero engano, para não dizer uma fuga conveniente para tolerar o intolerável. Encontrei registros que comprovam que meus antepassados alemães tiveram pessoas escravizadas como propriedade, além de trabalhos acadêmicos nos quais esses registros são tornados públicos.

Todo passado ancestral carrega sombras brutais e terríveis. Um iniciado que não compreende que a ancestralidade é, antes de tudo, cura e justiça, não terá honra nem dignidade para incorporar em si uma força ancestral capaz de implodir, em catarse, feridas herdadas. Por isso, a coragem para realizar a jornada de retorno consciente talvez seja a forma menos dolorosa de iniciar esse processo de cura e justiça ancestral.

Por outro lado, nessa jornada de cura e justiça ancestral, sou impelido a escavar com maior intensidade a história e a memória das matriarcas da minha árvore genealógica. Nesse processo, encontro documentos que reconstroem a memória de antepassados escravizados que resistiram à brutalidade e à bestialidade dos escravocratas, sustentando-se na resiliência e nos saberes, suportando torturas e humilhações.

A eles — detentores da minha genealogia ancestral, de memórias e tradições perdidas no tempo — rogo culto, homenagens e memória, para que, no processo ritual e no culto, encontrem ressonância em seus descendentes e, assim, estendam sua sabedoria, suas bênçãos e sua força ancestral.

A quimbanda como canal de resgate ancestral

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As quimbandas, enquanto estruturas religiosas ou cultos, são tradições que possuem em seu núcleo rituais e saberes que possibilitam ao iniciado estabelecer canais de comunicação e de ação entre si e seus ancestrais, além de formas de culto aos antepassados não divinizados, como meio de resgatar, construir e preservar a memória.

Na Rama dos 4 Caminhos, iniciamos o culto a um dos ramos da nossa árvore genealógica, não por decisão própria, mas porque assim nos foi mostrado. O ramo da família Ferreira, no qual encontramos diversos documentos de antepassados escravizados e ex-escravizados, passa a ser cultuado na imagem de João Osório Ferreira. Todos os nossos familiares que buscam força ancestral têm a nobre oportunidade de encontrar acolhimento nesse ramo, arriando a oferenda certa, no local certo.

Quando escavamos os escombros do passado, acabamos ressignificando nossas relações com os antepassados e, consequentemente, com nossos ancestrais. Isso também implica desmistificar imagens romantizadas de Exú e Pombagira, que normalmente são apresentados como lordes e prostitutas da corte real. Não que um Exú não possa ter sido, em vida, um lorde dentro de uma tradição diaspórica — aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, temos a imagem do Príncipe Custódio, que em alguns registros é apresentado como sacerdote.

O problema não é a existência dessa possibilidade histórica, mas a hegemonia de uma imagem específica: Exú quase sempre representado como um lorde de cartola, branco, com trejeitos refinados europeus; e Pombagira quase sempre branca, com traços e estética de prostitutas da corte real. Sei que diversas mulheres portadoras de saberes ancestrais e de feitiçaria foram, de fato, prostitutas, pois esse muitas vezes era o único meio de sobrevivência. O que questiono é a redução das imagens de Exú e Pombagira exclusivamente a esses estereótipos.

Dificilmente vemos a manifestação de um espírito de um homem negro, marcado pelo sofrimento do trabalho no canavial, ou de uma mulher negra envelhecida sob o sol escaldante da colheita do algodão. Acredito que a Quimbanda possui justamente essa capacidade de ressignificar nossa relação com o passado. Quando isso acontece, podemos desencadear potências de Exú e Pombagira que, muitas vezes, encontram-se ocultas nas sombras da nossa ignorância.

Grande parte do alcance transformador de Exú e Pombagira em nossas vidas depende do pertencimento. Se não despertarmos para um pertencimento íntegro com a nossa ancestralidade, acabamos ficando à mercê da ilusão e da fantasia. Por isso, ser quimbandeiro é um ato de coragem: olhar para o passado e nos enxergarmos nele como resultado de escolhas — positivas e, principalmente, negativas — que abriram os caminhos até a nossa existência.

Alguns ancestrais são guardiões da árvore

Quanto custa um assentamento de exu? Uma crítica social | Feitura de Quimbanda

Nem todo ancestral Exú ou Pombagira se manifesta, em sua jornada iniciática, para realizar trabalhos destinados a pessoas que não pertencem à família. A Senhora Maria Mulambo Anciã, minha tutelar e matriarca à frente de toda a Rama dos 4 Caminhos, tem como escopo manter a coesão da rama. Por diversas vezes tentei abrir seu oráculo para pessoas de fora da rama, e o resultado sempre foi negativo. No entanto, quando pergunto se o trato dela será somente para com a rama, ela responde categoricamente que sim, com raras exceções.

Todo trabalho, feitiço ou orientação que envolva alguém da rama recebe prontamente a confirmação positiva no oráculo, e ela assume a execução do trabalho. Ela é uma grande mãe, e seu foco é totalmente voltado para a família. Salve as forças da Senhora Maria Mulambo Anciã.

Já o Senhor Zé Pelintra demonstra maior abertura e simpatia com terceiros, o que faz sentido dentro de sua estrutura simbólica e ritual, como espírito que transita entre mundos, caminhos e fronteiras.

O que é importante observar é que não devemos forçar a ação de nossos ancestrais. A palavra final deve ser sempre deles, e somente deles, quando a demanda necessitar de forças ancestrais. É necessário ter humildade para respeitar suas vozes e coragem para lutar a fim de mantê-las firmes e inquebráveis.

A quimbanda é solo ancestral

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Diferentemente da grande maioria das tradições de Umbanda (com algumas exceções), a Quimbanda é um solo de potências ancestrais. Isso significa que, em seu escopo de atuação, os ancestrais têm liberdade para se manifestar da forma que julgarem necessária. Significa também que a maneira como agenciam energias e forças não se orienta por uma moral cristã. Não que não possam utilizar seus elementos — afinal, subverter valores simbólicos também faz parte de seu escopo —, mas o que se observa é que Exú e Pombagira, em sua grande maioria, produzem resultados por meio da ruptura do status quo, quebrando a inércia ou a falsa sensação de movimento.

Esse processo muitas vezes ocorre pelo deslocamento da perspectiva do iniciado ou da pessoa que recorre à sua ajuda. Frequentemente buscamos soluções que já estão ao nosso alcance, mas não as percebemos porque estamos sobrecarregados por uma visão turva do mundo. Exú e Pombagira, então, nos apresentam outra perspectiva, na qual conseguimos enxergar a solução ao alcance de nossas próprias mãos. É claro que, muitas vezes, essa mudança de perspectiva traz dor — mas compreenda essa dor como a dor muscular de um músculo que nunca foi utilizado. Os fãs de Matrix lembrarão quando Neo diz que seus olhos doem, e Morpheus responde que isso acontece porque ele nunca os havia utilizado.

Além disso, podemos compreender esse solo como terra, raízes, sangue, cachaça e fogo. Nesse solo, Exú e Pombagira realizam rituais capazes de desencadear experiências catárticas extremas que, por sua vez, podem provocar rupturas no ego, levando-nos a questionar até que ponto nossa moral é, na verdade, um aprisionamento. Dentro desse modo de ação, temos a oportunidade de sermos disruptivos e, assim, abrir portas que nos empoderam para uma retomada ancestral, na qual antepassados e ancestrais passam a canalizar seus potenciais.

A Quimbanda ancestral abre a possibilidade de buscarmos, nas profundezas da nossa alma, as nossas raízes. Para isso, é necessário coragem, disciplina e resignação, pois Exú e Pombagira não toleram aqueles com uma consciência frágil — e uma consciência frágil revela uma alma fragilizada. Esse caminho proporciona experiências viscerais, nas quais as fronteiras das limitações são transgredidas, abrindo espaço para a manifestação de uma nova consciência.

Do povo para o povo

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Aqui cabe um alerta: não podemos confundir conceitos e conhecimentos oriundos de outros saberes como se fossem, por si só, uma tradição ancestral. Embora a Rama dos 4 Caminhos fomente uma visão hermenêutica, isso não define, por si, o saber ancestral. Buscamos, sim, ampliar o intelecto, entendendo-o como uma biblioteca de conhecimentos que nos auxilia a compreender experiências e vivências de forma mais abrangente.

Não existe tradição nem saber ancestral sem a manifestação do ancestral, trazendo consigo suas forças e vivências. E isso é pé no chão, suor e sangue na terra; é a água que mata a sede e o fogo que cozinha o alimento no chão. É um saber que resgata em nós a integração, o pertencimento à natureza.

Dito isso, afirmamos que a Quimbanda é ancestral e, por isso, é do povo para o povo. Ela não admite qualquer forma de segregação — seja intelectual, de gênero, racial, étnica ou mesmo religiosa —, mas não tolera desonra, prepotência ou arrogância. Pisar no chão da Quimbanda é entrar em território ancestral; é saber que até mesmo o caçador, um dia, será devorado pela terra.

A genealogia ancestral da Rama dos 4 Caminhos

O pacto ancestral: redefinindo a iniciação na Quimbanda como uma jornada genealógica - iniciação na quimbanda - quimbanda em porto alegre - iniciação na quimbanda - quimbanda em porto alegre

Aqui, na rama, um dos pilares para adentrar nossa comunidade é iniciar a jornada de resgate ancestral, que começa pela história de seus antepassados. Exú e Pombagira são senhores soberanos da liminaridade de nossas sombras, e é no passado — seja ele individual, familiar ou coletivo — que vamos resgatar das sombras à luz da consciência.

Nesse processo, identificamos que somos o resultado de inúmeras escolhas e decisões que definiram a sobrevivência de pessoas que hoje compõem nossa árvore genealógica e ancestral. Muitos desses antepassados foram brutais, perversos, cruéis e causaram estragos geracionais não apenas em nossas vidas, mas também em outros ramos de outras famílias. O quanto isso afeta nossa existência hoje? Será que há questões de antepassados a serem resolvidas, maldições familiares a serem compreendidas?

Pense em uma comunidade originária, povos indígenas expulsos de suas terras, onde muitos foram mortos. Imagine que seu antepassado tenha sido o responsável por essa atrocidade e que, sobre essa terra — coberta de sangue inocente derramado — sua família tenha sido assentada. Agora, observe que os poucos descendentes indígenas dessas terras lutam para recuperar parte delas, pois precisam garantir sua subsistência. É nesse momento que você percebe as dívidas deixadas por seus antepassados: os estragos causados às culturas, a morte de saberes ancestrais e, por fim, a supressão das possibilidades de resgate.

Cabe a você, enquanto iniciado na ancestralidade e na Quimbanda, buscar potenciais de virtude para que, ao menos, os caminhos de resolução dessas negatividades sejam apaziguados e tratados junto aos seus antepassados. Isso exige ressignificação de memórias, resgate da história e deslocamento de pertencimento, pois você pode hoje estar inserido em uma cultura familiar que não condiz com a ancestralidade que busca, além da necessidade de realizar uma cura geracional.

Posso citar como exemplo que, em meu processo de iniciação na Quimbanda tradicional gaúcha, uma cura geracional foi proporcionada. Meu pai, assim como todos os seus irmãos, afastou-se do núcleo familiar de seu pai, meu avô. Como esse afastamento ocorreu ainda na infância, passaram-se mais de sessenta anos até que meu pai tivesse a oportunidade de, de certa forma, reatar emocionalmente com a memória do núcleo familiar de meu já falecido avô. A cura geracional também ocorre quando encaramos as sombras de nossos antepassados — e esse é território de Exú e Pombagira. Eles, dentro do merecimento, proporcionam a assimilação de saberes que fundamentam a iniciação na ancestralidade.

Acredito que a iniciação seja um processo no qual Exú e Pombagira, como senhores do limiar sombrio, nos guiam entre as sombras para que possamos liberar todo o potencial que nos conduza à plenitude da consciência espiritual. É por meio de Exú e Pombagira que nos tornamos senhores do nosso destino, pois, com eles, vencemos os demônios que atormentam nossa existência — demônios que distorcem nossa realidade e nos mantêm presos às amarras de nossas próprias sombras.

Salve a nossa matriarca anciã, Maria Mulambo, que traz em sua ancestralidade a força vodun de Granne Erzulie Dantor. Salve o Senhor Zé Pelintra, que em nossa rama se desdobra em sua encantaria das águas dos rios. Salve o Senhor João Caveira, que traz em sua cartola a imensidão da Calunga.

Thiago Blauth Ferreira, filho de Ruth Blauth Ferreira e Carlos Fernando Ferreira. Líder em terra na Rama dos 4 Caminhos.

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Participe, é totalmente gratuito

Núcleo de estudo e pesquisa ancestral

O Núcleo de Estudo e Pesquisa Ancestral é um espaço dedicado à escuta profunda, ao estudo crítico e à vivência espiritual das tradições de matriz afro-indígena por meio do reconhecimento e da valorização dos saberes ancestrais. Nosso ponto de partida é a consciência de que somos frutos de muitas camadas de tempo, história, memória e espiritualidade. Estudar o passado não é um exercício apenas intelectual, mas um mergulho vital nas forças que nos sustentam no presente.

Nosso núcleo se dedica a explorar, por meio de leituras, práticas e partilhas coletivas, temas como genealogia ancestral, culto aos antepassados e ancestrais, mitologias de matriz africana e indígena, cosmogonias e cosmologias tradicionais, bem como teologias vivas e psicologias da religião a partir do olhar das próprias tradições. Valorizamos especialmente o saber que nasce da oralidade, da experiência, da ritualística e da memória encarnada nos corpos, casas, terreiros e territórios.

As raízes ancestrais estão profundamente entrelaçadas às memórias da alma. Nutrir a memória é cultuar os ancestrais.